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Joaquim Barbosa é o presidente mais surpreendente que o Brasil jamais terá

Josias de Souza

08/05/2018 12h40

Joaquim Barbosa não dispunha de experiência política. Não tinha vivência partidária. Nunca havia participado de nenhum governo. Com esse perfil, amealhou no último Datafolha até 10% das intenções de voto. Foi como se desse um salto triplo sem sair da cadeira. Candidato, Barbosa seria a melhor opção para o Brasil que fez o asfalto roncar e deu voz às panelas. Fora do jogo, tornou-se um alívio para a oligarquia que oferece ao eleitorado em 2018 mais do mesmo.

O que fazia de Barbosa um presidenciável viável era justamente a improbabilidade. No inconsciente do eleitor, sua inexperiência política o distanciava do profissionalismo à moda da trinca Temer-Moreira-Padilha. Sua inapetência para a vida partidária era um indicativo de que ele se manteria longe dos conciliábulos com personagens como Jucás e Valdemares, Sarneys e outros azeres. O fato de jamais ter integrado governos dava à sua eventual Presidência o frescor do novo.

Eleito, Barbosa poderia se converter num desastre. Seu pavio de fácil combustão tanto serve para brigas como as que travou no plenário do Supremo com Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski quanto para os xingamentos que dirigiu a um repórter que tentou entrevistá-lo na porta do elevador. Não seria improvável que, num dia em que a coluna lhe doesse, um hipotético presidente Joaquim Barbosa colocasse porta afora do gabinete presidencial uma autoridade estrangeira ou um líder político, provocando uma indesejável crise internacional ou política.

Barbosa talvez não concluísse o mandato. Num país em que um presidente já renunciou (Jânio) e dois foram mandados de volta para casa mais cedo (Collor e Dilma), não seria uma surpresa se um presidente tão improvável explodisse ou fosse implodido.

Alçado ao Planalto, Barbosa seria uma resposta do eleitorado à falência da política —com todas as consequências do gesto, os prós e os contras. Como ministro do Supremo, o personagem relatou o julgamento do mensalão, precurssor da Lava Jato. Ex-eleitor de Lula, Barbosa iniciou a ruína do PT. Sintomaticamente, subiu nas pesquisas num instante em que Lula, poupado no primeiro escândalo, desceu às profundezas como o preso mais ilustre do petrolão.

O jogo perdeu sua peça mais perturbadora. Com sua desistência, Joaquim Barbosa entra para a crônica da sucessão de 2018 como o presidente mais surpreendente que o Brasil jamais terá.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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