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Bolsonaro tenta polarizar com Haddad e imunizar-se contra veneno de Alckmin

Josias de Souza

17/09/2018 03h50

Num instante em que seus rivais se engalfinham no pelotão intermediário das pesquisas, a uma distância de mais de dez pontos percentuais, Jair Bolsonaro já esboça uma estratégia para o segundo turno. Expôs as linhas gerais de sua tática em timbre choroso, numa transmissão ao vivo pela internet neste domingo.

Deitado no leito da unidade de terapia semi-intensiva do hospital Albert Einstein, Bolsonaro dobrou sua aposta na polarização com o PT. Parece preocupado em não perder terreno para Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e Marina Silva, que também levaram o PT à alça de mira desde que Fernando Haddad, substituto de Lula, começou a ascender nas pesquisas.

De resto, Bolsonaro soou como se estivesse empenhado em desenvolver uma vacina capaz de imunizá-lo contra o veneno de Geraldo Alckmin. O tucano vem se referindo a ele em entrevistas e sabatinas como "um passaporte para a volta do PT" ao Planalto.

Ao comentar as pesquisas que o acomodam no topo do ranking de rejeição, Bolsonaro colocou em dúvida as estatísticas que dão a ele uma cara de favorito a fazer do seu adversário no segundo round o próximo presidente da República. Sem mencionar o nome de Alckmin, associou a pregação do tucano à ideia de fraude.

"A narrativa agora é que eu perderia para qualquer um no segundo turno. Não é perder no voto, é perder na fraude. Então, essa possibilidade de fraude no segundo turno, talvez no primeiro, é concreta."  Voltou a criticar o Supremo por ter barrado o projeto sobre o voto impresso, de sua autoria.

No seu esforço para retornar a primazia do discurso anti-PT,  Bolsonaro disse que, vitorioso, o presidenciável petista abriria a cela de Lula. "O Haddad, eleito presidente —ele já falou isso, e, se não falou, vocês sabem—, assina no mesmo momento da posse o indulto de Lula. E, no segundo seguinte, o nomeia chefe da Casa Civil."

Insinuou que Lula só não buscou refúgio numa embaixada companheira porque dispunha de alternativa melhor. "Se coloquem no lugar do presidiárioque está lá em Curitiba, com toda a sua popularidade, toda a sua possível riqueza. Com todo seu tráfego junto às ditaduras do mundo inteiro, que se auto-apoiam, especialmente em Cuba, você aceitaria passivamente, bovinamente ir para a cadeia? Você não tentaria uma fuga? Se você não tentou fugir, obviamente, é porque você tem um plano B."

A internação fez bem à saúde da candidatura de Bolsonaro. Há 11 dias, antes da facada criminosa de Juiz de Fora, o capitão soava tão soberbo que passava a impressão de só ter virtudes generais. Agora, sua empáfia é dissolvida em lágrimas. O sofrimento suavizou-lhe a imagem. Um problema para a campanha de Alckmin, que voltou a bater no rival com a mesma intensidade de antes da facada.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.