Blog do Josias de Souza

Banquete de Maduro em Istambul revolta venezuelanos, sob forte racionamento

Josias de Souza

Ao retornar de uma viagem à China, encerrada no domingo passado, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, fez escala em Istambul. Ao lado de sua mulher, Cilia Flores, foi filmado desfrutando de farta refeição no restaurante caro e badalado do chef turco Nusret Gökçe, conhecido como Salt Bae. Divulgadas nas redes sociais, as imagens causaram indignação entre os venezuelanos, submetidos ao flagelo da desnutrição, potencializado por um racionamento alimentar implacável.

Conhecido pelas coreografias que executa ao cortar as peças de carne que serve em sua casa de repastos, Salt Bae proporcionou ao casal Maduro um atendimento personalizado. “Isso é uma vez na vida!”, disse o mandachuva venezuelano, enquanto degustava fatias de uma carne suculenta indisponível nos açougues e supermercados da Venezuela. O próprio chef pendurou as imagens no Instagram e no Twitter. A coisa bombou. Os comentários exalavam indignação. Apagaram-se as cenas. Mas era tarde. Elas já haviam ganhado a web.

Não bastasse o banquete, Maduro deixou-se filmar sorvendo um charuto cubano, retirado de uma caixa que tinha o seu nome gravado numa placa dourada. Enquanto soltava baforadas de fumaça, o gestor da falência venezuelana observava, junto com a mulher, camisetas presenteadas pelo anfitrião. As imagens também mostram que o restaurante estava sob a proteção de guardas com o distintivo da polícia turca. Alguns ostentavam armamento pesado.

Um detalhe injetou ironia nas cenas: Maduro viajara ao exterior com o pires na mão, atrás de financiamentos que atenuem a falência do Estado venezuelano. Antes da China, visitara a Rússia. Retornou a Caracas nesta segunda-feira. Ao desembarcar, comentou sua experiência gastronômica. Enviou saudações ao cozinheiro Nusret Gökçe. “Ele nos atendeu pessoalmente, estivemos conversando, desfrutando com ele. Um homem muito simpático, ama a Venezuela.”

A fome, como se sabe, é o mais antigo dos hábitos humanos. Se Deus tivesse que aparecer para os venezuelanos famintos, não ousaria aparecer em outra forma que não fosse a de um prato de comida. Mas a situação na Venezuela é tão diabólica que a comida só aparece nos pratos daquelas que a fizeram sumir.