Blog do Josias de Souza

Ativismo de Bolsonaro desmoraliza seus médicos

Josias de Souza

Bolsonaro recebe médicos do Albert Einstein em casa, no Rio de Janeiro

Há dois Bolsonaros na praça. Um concede entrevistas a granel, grava vídeos em profusão e mantém atividade frenética nas redes sociais. Outro é o frágil convalescente de um par de cirurgias, incapaz de participar de um debate televisivo. A existência do primeiro Bolsonaro como que desmoraliza a avaliação médica que fornece ao segundo Bolsonaro o álibi para fugir de mais dois debates presidenciais.

O cirurgião Antônio Luiz Macedo e o cardiologista Leandro Echenique, do hospital Albert Einstein, visitaram nesta quarta-feira o Bolsonaro debilitado. Atestaram que ele não está em condições de participar do primeiro debate presidencial do segundo turno, que ocorreria na sexta-feira (12), na Band. Tampouco comparecerá ao segundo, que ocorreria no domingo (14), na TV Gazeta. Alega-se que o capitão, anêmico e 15 quilos mais magro, não pode submeter-se a atividades estressantes.

Escorado numa avaliação semelhante dos mesmos doutores, Bolsonaro absteve-se de comparecer ao último debate do primeiro turno. Alegara-se, então, que não conseguiria falar por dez, 15 minutos. Entretanto, Bolsonaro concedeu em casa uma amistosa entrevista de mais de 20 minutos. A peçà foi ao ar na TV Record, do apoiador Edir Macedo. Começou a ser exibida no mesmo horário do debate transmitido pela TV Globo.

Os dois Bolsonaros convivem num território demarcado por uma linha invisível. Difícil saber com 100% de acuidade de que lado estão a realidade e a mistificação. Suponha que o Bolsonaro anêmico tivesse passado para o segundo turno com menos votos que o adversário, em posição de franca desvantagem. Nessa hipótese, a proibição médica talvez fosse desafiada pelo Bolsonaro intrépido, que não abriria mão de comparecer aos debates, ainda que sob supervisão médica.

Imagine que a Band, diante da ausência imprevista, decidisse converter o debate numa sabatina com Fernando Haddad. Ninguém duvida que o Bolsonaro vivaz daria de ombros para o Bolsonaro debilitado, convocando mais uma de suas transmissões ao vivo na internet.

É comum que políticos disfarcem sua condição de saúde. Mas Bolsonaro precisa decidir que papel deseja desempenhar. Se ainda fosse o deputado que perambulou pelos corredores da Câmara durante 27 anos sem ser notado, eventuais adaptações da realidade interessavam apenas à família e aos médicos. Mas aquele deputado do baixo clero agora se oferece para presidir um país com 208 milhões de habitantes.