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Bolsonaro sobrepõe a sua cubanofobia à saúde

Josias de Souza

19/11/2018 12h37

Jair Bolsonaro já não consegue colocar as orelhas fora de casa sem ouvir meia dúzia de perguntas sobre Cuba e o Mais Médicos. Aos poucos, vai tomando ojeriza por certas palavras. Nesta segunda-feira, referiu-se novamente à encrenca num par de notas no Twitter. Mas não citou nem o nome do país que lhe causa urticária ideológica nem a logomarca do programa que lhe rouba o sossego.

"O Brasil paraíso de criminosos e fonte de renda de ditaduras desumanas deverá dar lugar ao Brasil cujo brasileiro e as pessoas de bem serão nossa maior prioridade (sic)", anotou Bolsonaro num post. "Para voltarmos a crescer como nação precisamos fazer valer nossa soberania e nossas leis. Devemos respeitar o mundo todo, mas também ser respeitados. Seremos um Brasil amigo, mas que tem seus valores e princípios básicos", acrescentou o presidente eleito noutro post.

Bolsonaro ainda não notou. Mas caiu numa armadilha da ditadura de Havana. Antecipando-se à provável expulsão dos seus médicos no alvorecer do novo governo, Cuba rompeu o acordo com o Brasil. A providência jogou no colo de Bolsonaro um problema que ele ainda não tem como resolver, pois a caneta continua nas mãos de Michel Temer.

A embromação retórica que Bolsonaro é obrigado a entoar tornou-se cansativa e ofensiva. Cansa porque não sai do lugar. Ofende porque se um governante tivesse de aparecer para um brasileiro doente e privado do contato com um dos quase 8,4 mil jalecos vermelhos que voltarão para Cuba, não se atreveria a aparecer em outra forma que não fosse a de um outro médico. Não importa a nacionalidade, pode ser até marciano, desde que alivie a dor e evite a morte.

Sem isso, a única coisa que o lero-lero de Bolsonaro consegue provocar é um reforço da impressão de que sua cubanofobia se sobrepõe à saúde dos brasileiros mais humildes. Para alguém que está prestes a realizar uma nova cirurgia no renomado hospital Albert Einstein, a situação pode provocar uma doença politicamente letal: impopularidade.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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