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Blog do Josias

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‘Reforma fatiada’ é mais confissão do que opção

Josias de Souza

05/12/2018 04h39

O governo de Jair Bolsonaro revelou-se, já na fase de transição, uma espécie de Babel às avessas. Seus integrantes conseguem se desentender expressando-se no mesmo idioma. Em temas estratégicos como a reforma da Previdência, o desencontro tem duas serventias: expõe a incapacidade para encontrar soluções, ao mesmo tempo em que exibe o talento para fabricar as próximas confusões.

A reforma da Previdência "pode ser fatiada", declarou Jair Bolsonaro nesta terça-feira, apenas 24 horas depois de Onyx Lorenzoni, seu futuro chefe da Casa Civil, ter afirmado que os técnicos do futuro governo preparavam um modelo previdenciário "para durar 30 anos". Nada de "remendo". Coisa "bem construída", a ser aprovada no Congresso "sem açodamento".

Mais açodado, Bolsonaro como que deu o dito de Onyx pelo não dito: "Não adianta você ter uma proposta ideal que vai ficar na Câmara ou no Senado. Acho que o prejuízo seria muito grande. Então, a ideia é por aí: começar pela idade (mínima), atacarmos os privilégios (do setor público) e tocar essa pauta."

Sobre os prazos, Onyx declarou que o ideal seria aprovar a mexida previdenciária ao longo do primeiro ano de governo. Mas não pareceu ansioso. "Nós temos quatro anos para garantir o futuro dos nossos filhos e dos nossos netos".

Bolsonaro revelou um certo interesse em adiantar o relógio de Onyx: "A Previdência (deficitária) é uma realidade, ela cresce ano após ano e não podemos deixar o Brasil chegar à situação que chegou a Grécia para tomar providência."

Para aprovar uma emenda constitucional como a da Previdência, o governo terá de arrastar pelo menos 308 votos na Câmara er 49 no Senado. Onyx estima que o novo condomínio governista terá até 350 deputados e mais de 40 senadores.

Ora, nenhum presidente com semelhante cacife trataria uma reforma prioritária como um pedaço de salame a ser servido em fatias. O mais provável é que Onyx ainda não tenha apreendido um dos princípios básicos da política: jamais diga uma mentira que você não possa provar.

Nesse contexto, a reforma "fatiada" de Bolsonaro não é uma opção, mas uma confissão de que seu governo terá mais dificuldades no Congresso do que o otimismo de Onyx faz supor.

Sobre o Autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o Blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.