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Coaf encosta pasta de Moro na família Bolsonaro

Josias de Souza

06/12/2018 16h04

Primogênito de Jair Bolsonaro, o deputado estadual fluminense e senador eleito Flávio Bolsonaro pendurou na conta que mantém no Twitter uma nota que destoa de sua retórica habitual. Sempre na ofensiva, Flávio expressou-se em timbre meticulosamente defensivo.

Flávio escreveu o seguinte: "Fabrício Queiroz trabalhou comigo por mais de dez anos e sempre foi da minha confiança. Nunca soube de algo que desabonasse sua conduta. Em outubro foi exonerado, a pedido, para tratar de sua passagem para a inatividade. Tenho certeza de que ele dará todos os esclarecimentos."

Quem lê a nota assim, inteiramente descontextualizada, fica curioso para conhecer os fatos que lhe deram origem. Trata-se de um desses episódios que podem definir de que tipo de matéria-prima é feito um governo. Vai abaixo um decálogo da encrenca:

1. Já se sabia que a decisão de transferir o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) da área econômica para a pasta da Justiça havia transformado Sergio Moro num gestor de nitroglicerina.

2. A apenas 25 dias da instalação do novo governo, descobre-se que o o estoque de material radioativo colecionado pelo Coaf inclui um conjunto de dados que encostam o futuro ministério de Moro na família Bolsonaro.

3. Responsável pelo mapeamento das transações bancárias suspeitas realizadas em todo país, o Coaf farejou movimentação esquisita de um ex-assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa flumiense.

4. Chama-se Fabrício José Carlos de Queiroz o personagem fisgado pelos radares do Coaf. Trata-se de um ex-PM que estava lotado no gabinete de Flávio Bolsonaro até o último dia 15 de outubro. Era meio motorista, meio segurança.

5. Detectou-se movimentação R$ 1,2 milhão numa conta bancária atribuída a Fabrício entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017.

6. A cifra é incompatível "com o patrimônio, a atividade econômica ou ocupação profissional e a capacidade financeira" do correntista, cujo salário na Assembleia somava R$ 8.517. Que ele acumulava com R$ 12,6 mil recebidos da Polícia Militar.

7. Entre as esquisitices detectadas pelo Coaf há grande número de saques em dinheiro vivo. Há também um cheque que eleva o nível de radioatividade do episódio. Menos pelo valor do que pelo nome da favorecida.

8. Na frieza de sua linguagem técnica, o Coaf descreveu assim o artefato tóxico extraído do levantamento de cheques emitidos por Fabrício: "Dentre eles constam como favorecidos a ex-secretária parlamentar e atual esposa de pessoa com foro por prerrogativa de função–Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro, no valor de R$ 24 mil."

9. Michelle Bolsonaro é a atual mulher de Jair Bolsonaro (pode me chamar de primeira-dama).

10. Há cinco dias, Moro sacou a "carta branca" que recebeu de Bolsonaro para confirmar que o Coaf estará mesmo sob sua jurisdição a partir de janeiro. Indicou para comandar o órgão um craque: o auditor fiscal Roberto Leonel, da inteligência da Receita Federal. Logo, logo o país ficará sabendo qual é o tamanho da liberdade que Bolsonaro diz ter concedido a Moro para combater os malfeitos.

Sobre o Autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o Blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.