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DEM recupera sob Bolsonaro força da Era FHC

Josias de Souza

03/02/2019 19h17

A última novidade da política brasileira é uma sigla que Lula, no auge de sua popularidade, em 2010, prometera "extirpar" do cenário nacional: o DEM (ex-Arena, ex-PDS, ex-Frente Liberal, ex-PFL). O partido acaba de recuperar, sob Jair Bolsonaro, espaço semelhante ao que ocupou na Era tucana de Fernando Henrique Cardoso. Voltou a presidir, simultaneamente, as duas Casas do Congresso Nacional.

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Na Câmara, reelegeu-se Rodrigo Maia (RJ). No Senado, elegeu-se Davi Alcolumbre (AP). A dupla repete o feito alcançado no governo FHC por Antonio Carlos Magalhães, o ACM, e seu filho Luís Eduardo Magalhães. Hoje, como na época do velho pefelê, o DEM comandará a tramitação de uma agenda de reformas liberais que o Executivo enviará ao Congresso.

Luís Eduardo, morto em 1998 de infarto, revelou-se na Câmara mais afável e conciliador do que o pai. Ajudava a apagar incêncios ateados desde o Senado por ACM, que morreu em 2007. Juntos, pai e filho empinaram a agenda legislativa de FHC. Em 1997, celebraram, por exemplo, a aprovação da privatização da Cia Vale do Rio Doce, a Vale, hoje uma logomarca tisnada pela lama da barragem de Brumadinho (MG), reincidência da tragédia de Mariana (MG).

Rodrigo Maia tem pefil semelhante ao de Luís Eduardo. Também cultiva o hábito da conciliação. Relaciona-se bem com políticos de partidos do chamado centrão e também de legendas como PT e PCdoB. O PSL, partido de Jair Bolsonaro, torcia o nariz para sua reeleição na Câmara. Rendeu-se ao farejar o favoritismo acachapante de Maia.

No Senado, dá-se algo diferente. Davi Alcolumbre não exibe o mesmo carisma e o poder que ostentava o predecessor ACM. Ao contrário, saltou do baixo clero parlamentar para o cardinalato graças à rejeição que brotou no plenário do Senado à figura de Renan Calheiros (MDB-AL). Numa Casa de 81 membros, obteve 42 votos —a maioria votou em Davi menos por concordar com os planos de Davi e mais por discordar dos métodos de Renan.

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Por uma dessas coincidências fatais, o DEM volta a dar as cartas no Congresso num instante em que preside o partido Antônio Carlos Magalhães Neto. É sobrinho de Luiz Eduardo e neto de ACM. Prefeito de Salvador, ACM Neto celebrou as conquistas no Congresso como um feito partidário. "As vitórias de Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia (…) representam o fortalecimento do DEM…", anotou no Twitter.

Antes de amealhar o comando duplo do Legislativo, o DEM assistira à ascensão de três de seus filiados a postos estratégicos do governo Bolsonaro: Casa Civil (Onyx Lorenzoni), Ministério da Agricultura (Tereza Cristina) e Ministério da Saúde (Luiz Mandetta). ACM Neto diz dizer que seus correligionários viraram ministros por escolha de Bolsonaro, não por indicação do partido. Legendas preteridas pelo presidente não conseguem enxergar a diferença entre uma coisa e outra.

O DEM está ideologicamente identificado com a agenda de reformas que sairá do forno do ministro Paulo Guedes (Economia). Rodrigo Maia já prepara a recepção à proposta de reforma da Previdência. O cenário na Câmara parece mais organizado para o governo.

No Senado, a vitória do azarão Alcolumbre deixou feridas que causam preocupação no governo. Ironicamente, Paulo Guedes, o Posto Ipiranga de Jair Bolsonaro, manifestava em privado uma preferência por Renan Calheiros. O ministro da Economia avaliava que Renan tocaria os projetos de interesse de sua pasta com mais celeridade.

O Planalto receia que, derrotados, o cacique do MDB e seus aliados coloquem pedras no caminho do governo. Auxiliares de Bolsonaro temem, por exemplo, que o pedaço ferido do MDB cave trincheiras no Senado contra a coordenação política exercida por Onyx Lorenzoni, torpedeando a presidência de Davi, o aliado do chefe da Casa Civil. Avalia-se que o próprio Bolsonaro terá de agir para pacificar os ânimos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.