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Queiroz condena Flávio a repetir: ‘Eu não sabia!’

Josias de Souza

01/03/2019 15h52

Na política, convém evitar dois extremos. Num, estão os políticos capazes de tudo. Noutro, situam-se os políticos incapazes de todo. Em esclarecimento prestado ao Ministério Público por escrito, o correntista "atípico" Fabrício Queiroz empurrou o ex-chefe Flávio Bolsonaro para o segundo grupo, onde se aglomeram os políticos cegos e tolos.

Ex-assessor do primogênito do presidente da República na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Queiroz admitiu, finalmente, o que já se tornara inegável: parte da movimentação milionária farejada pelo Coaf em sua conta bancária vinha da apropriação de nacos dos salários de assessores do antigo gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio.

Nessa versão, Queiroz beliscava os contracheques da turma do gabinete para usar o dinheiro na contratação informal de pessoas que trabalharam em favor do engrandecimento do bom nome de Flávio Bolsonaro nas suas bases eleitorais. Flávio, naturalmente, não sabia de absolutamente nada.

Na petição encaminhada ao Ministério Público, a defesa de Queiroz anotou: "Por contar com elevado grau de autonomia no exercício de sua função, resultante de longeva confiança que nele depositava o deputado [Flávio Bolsonaro], o peticionante [Fabrício Queiroz] nunca reputou necessário expor a arquitetura interna do mecanismo que criou ao próprio deputado e ao chefe de gabinete."

O sucesso da fantasia estruturada pelos advogados depende do talento de Flávio Bolsonaro, agora acomodado na poltrona de senador da República, para a autodesmoralização. O filho do presidente terá de convencer o Brasil de que não é aquele jovem astuto que todos supunham. Na verdade, é um cego atoleimado.

Mantido esse diapasão descarado, "eu não sabia" passará à história como a frase-lema do Brasil dos escândalos. A expressão será lembrada quando, no futuro, quiserem recordar a época em que o país era regido pelo cinismo.

Lula usou o "não sabia" nos escândalos do mensalão e do petrolão. Citando-o, o tucano Eduardo Azeredo repetiu o bordão antes de ser condenado e preso no processo do mensalão do PSDB mineiro. Dilma Rousseff reincidiu na citação quando alegou que não tinha ideia de que os aliados plantavam bananeira dentro dos cofres da Petrobras.

Repetido agora no escândalo que enlameia a biografia de Flávio Bolsonaro, ele próprio um correntista "atípico" com o selo do Coaf, o "não sabia" consolida-se como uma espécie de código. Quando ele aparece, a plateia já sabe que está diante de mais um desses episódios em que políticos capazes de tudo pedirão ao país que passe a enxergá-los como seres incapazes de todo.

O uso reiterado de um código já tão desgastado intima o brasileiro a reagir. Além de fazer uma cara de nojo, o sujeito é obrigado a optar por um entre dois papeis constrangedores: ou se faz de bobo pelo bem da República ou adere ao cinismo dos que já não têm ânimo para sair às ruas.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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