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Carlos Bolsonaro atira na mídia e acerta a família

Josias de Souza

2004-03-20T19:02:23

04/03/2019 02h23

De plantão na sua trincheira das redes antissociais em pleno Carnaval, o vereador Carlos Bolsonaro adotou uma inusitada tática de contra-ataque no Caso Coaf. Não podendo apontar virtudes do senador Flávio Bolsonaro, cuidou de realçar que seu irmão é apenas parte de um todo. Iguala-se em abjeção a outros políticos que ardem no caldeirão da Assembleia Legislativa do Rio. Carlos como que anulou qualquer pretensão de Flávio de alegar que é diferente ao se queixar do suposto tratamento privilegiado que a imprensa dedica aos outros encrencados.

"Por que será que maior parte da mídia e canalh(x)s citam A, mas se esquecem de mencionar B, C ou D? Principalmente quando o assunto é PSOL e PT! Curioso, não?", rosnou o 'Pitbull', como Carlos é chamado pelo pai Jair Bolsonaro. "Todos podem ser inocentes ou não, mas a balança para variar sempre tem dois pesos e duas medidas ao falar de PT e aliados."

Pelas contas do Coaf, 75 servidores da Assembleia Legislativa do Rio têm contas bancárias carunchadas. Juntos, movimentaram R$ 207 milhões em um ano. Trabalharam em 21 gabinetes de deputados estaduais de 14 partidos: Avante, DEM, MDB, PDT, PHS, PRB, PSB, PSC, PSD, PSDB, PSL, PSOL, PT e Solidariedade. Carlos Bolsonaro sabe de tudo isso porque a mídia, tão criticada por ele, cumpriu a obrigação de divulgar —com nomes, cifras e partidos.

A despeito do desejo de Carlos de nivelar o irmão aos demais, alguns detalhes impedem a imprensa de integrar Flávio à baixeza geral de mais um escândalo. Afora o fato de o agora senador ser o primogênito do presidente da República, seu ex-assessor Fabrício Queiroz borrifou pelo menos R$ 24 mil na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Marido de Michelle, o pai de Carlos e Flávio chegou ao Planalto enrolado na bandeira da moralidade. O pedaço do eleitorado que acreditou na pregação moralizadora que levou Jair Bolsonaro ao Planalto imaginava que o presidente e sua prole inundariam o país de bons exemplos. Os fatos atrapalham. A realidade estraga tudo.

Ao reivindicar que a imprensa trate o irmão Flávio como um suspeito qualquer, Carlos como que destrói a diferença heroica que seu pai dizia representar. Com uma ingenuidade própria das almas iradas, o 'Pitibull' não se dá conta da mensagem que passa. Ora, se nem o 'Zero Dois' valoriza a superioridade moral presumida dos Bolsonaro como algo digno de diferenciação, quem haverá de valorizar?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o Blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.