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Blog do Josias

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Áudio da ‘trava’ comprova que Bolsonaro não é populista, só mente um pouco

Josias de Souza

20/04/2019 05h43

Na política, o que te dizem em público nunca é tão importante quanto o que você ouve sem querer. Vazado do WhatsApp para as manchetes, o áudio em que o chefe da Casa Civil Onyx Lorenzoni informa aos caminhoneiros que "já demos uma trava na Petrobras" revela uma verdade inconveniente. Sob Jair Bolsonaro, o Planalto não represa preços de combustíveis, não cede a tentações populistas e não desautoriza o czar da Economia Paulo Guedes. Só mente um pouco.

Em viagem a Nova York, na semana passada, Guedes recebeu de Bolsonaro uma punhalada pelas costas. Soube pelos jornalistas que o presidente anulara com um telefonaço o reajuste do diesel. O ministro passou uma semana gastando baldes de saliva e o melhor do seu latim para convencer a plateia do seguinte: o que estava na cara não era uma intervenção populista do capitão na Petrobras, mas um telefonema inocente de um ignorante em economia tentando compreender a composição do preço do diesel.

Abra-se um parêntese para injetar na conversa fiada o áudio que Onyx enviou para um líder caminhoneiro, Marconi França. Foi postado num grupo de WhatsApp em 27 de março. Nele, o ministro soa assim:  "Estamos trabalhando, o presidente está focado, tem várias coisas bacanas […] para dar condição a que o caminhoneiro autônomo tenha o seu direito respeitado, seja valorizado. Estamos trabalhando muito. Já demos uma trava na Petrobras. Qualquer modificação de preço, no mínimo entre 15 e 30 dias de variação, não pode ter menos que isso." Fecha parêntese.

Em 26 de março, um dia antes de Onyx enviar aos caminhoneiros o seu mimo vocal, a Petrobras anunciara por meio de nota uma mudança na periodicidade dos reajustes do diesel. Em vez de subir semanalmente, o óleo passaria a ser reajustado em intervalos jamais inferiores a 15 dias. Pois bem, o reajuste que Bolsonaro mandou a Petrobras suspender foi anunciado em 11 de abril. Como combinado, eram transcorridos não 15, mas 16 dias desde a divulgação da nota.

Expostos os fatos, tirem-se as conclusões: 1) A Petrobras esticou o intervalo dos reajustes do diesel de 7 para 15 dias não porque quis, mas porque tomou uma "trava" do Planalto. Beleza. É do jogo. 2) É falsa a alegação de que Bolsonaro mandou suspender o reajuste de 11 de abril porque ficou surpreso. A canelada foi desferida com planejamento e método. 3) A anulação de um aumento feito dentro do prazo combinado foi, na verdade, uma "trava" dentro da outra. Bolsonaro deu de ombros para Guedes e deu ouvidos a Onyx, portador de ameaças de greve dos caminhoneiros.

A lambança custou R$ 32 bilhões em perda do valor de mercado da Petrobras. De volta a Brasília, Paulo Guedes trouxe Bolsonaro à realidade, jurou que a autonomia da estatal estava intacta e declarou que não se sentia atingido em sua autoridade. Na última quarta-feira, a Petrobras reajustou o diesel em 4,8%. Na véspera, o Planalto tentou mimar os caminhoneiros com o anúncio de um pacote que incluía desde promessas de recuperação de estradas até financiamento do BNDES.

De toda a novela restaram a "trava", a desvalorização do papelório da Petrobras, a perda de valor de mercado da autoridade de Paulo Guedes e a evidência de que Bolsonaro, a exemplo de seus antecessores, não tem a mais remota ideia do que fazer para se livrar da constante ameaça da revolta da boleia. Parte dos caminhoneiros acena com a hipótese de puxar o freio de mão no próximo dia 29.

Você pode reagir ao áudio de Onyx e a tudo o que ele representa de duas maneiras. Numa, você se desespera com a inépcia do governo para resolver uma encrenca anunciada. Noutra, você faz como Paulo Guedes: se finge de bobo e declara, pelo bem do Brasil, que acredita piamente na conversão do intervencionista Bolsonaro ao evangelho liberal do seu Posto Ipiranga. O difícil é saber se a autoenganação de Guedes sobreviverá a mais três Páscoas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.