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Flávio inclui governo do pai na rota do tsunami

Josias de Souza

14/05/2019 03h46

Flávio Bolsonaro atribui quebra de sigilos a hipotética perseguição ao governo do pai

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Jair Bolsonaro soou premonitório ao antever na última sexta-feira (10) o tsunami que chegaria nesta semana. O que não se imaginava é que caberia ao senador Flávio Bolsonaro acomodar o governo na rota das ondas gigantescas que engolfam sua reputação. É como se o filho Zero Um desejasse surpreender a oposição, encarregando-se ele próprio de derramar lama em cima da Presidência do capitão.

Flávio como que desafiou a oposição a provar sua serventia. Fez isso ao trombetear a tese segundo a qual a quebra dos seus sigilos bancário e fiscal não passa de manobra de investigadores inescrupulosos para atingir o governo do seu pai. Falta nexo à alegação. Mas o petismo, pedaço mais estridente da oposição, perde a legitimidade para criticar a lambança. Pode, no máximo, acusar Flávio de plágio.

A exemplo da turma do PT, Flávio não assume os próprios erros nem pede desculpas aos eleitores. Alega estar sendo vítima de perseguição política. O primogênito do presidente foi à fogueira depois que o Coaf pilhou movimentação financeira suspeita na conta do seu ex-auxiliar Fabrício Queiroz. Coisa de R$ 1,2 milhão em um ano. Em três anos, R$ 7 milhões.

Em depoimento por escrito, Queiroz admitiu que se apropriava de nacos dos contracheques de servidores do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio. Alegou que usava a verba para contratar prestadores de serviço nas bases eleitorais do então deputado estadual. Não conseguiu demonstrar o arranjo documentalmente.

O Coaf também farejou 48 depósitos de R$ 2 mil na conta do próprio Flávio. Depósitos feitos no caixa eletrônico, em dinheiro vivo. Como se fosse pouco, descobriu-se que o filho mais velho do presidente tem apreço por milicianos. Quando se imaginava que não houvesse mais nada, verificou-se que Flávio realizou negociações imobiliárias com a velocidade de um raio, com elevação exponencial de patrimônio.

Flávio tentou, sem sucesso, brecar o processo no Supremo e na Justiça estadual. A despeito de tudo, é óbvio que não há o que investigar. Corrupção? Claro que não! Desvio de verbas públicas? Acusação despropositada! Peculato? Absurdo! Lavagem de dinheiro? Disparate!

Tudo não passa de uma miragem, uma invenção de promotores ideológicos, mancomunados com a extrema-imprensa, em conexão com juízes que flertam com os refletores. Não deixa de ser uma linha de defesa. O problema é que essa tática embute uma dose elevada de cinismo.

Bem verdade que os malfeitos adquiriram uma naturalidade que conspira a favor da extinção do senso crítico. Mas a fórmula não tem produzido bons resultados. Dilma foi expurgada da Presidência. Lula e parte expressiva da oligarquia petista foi em cana. Temer vive um entra-e-sai da cadeia.

Num cenário assim, a ideia de Flávio Bolsonaro de encostar seu tsunami no Planalto não parece uma boa linha de defesa. Ao contrário, o gesto parece revelar o desespero de um personagem indefeso.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.