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Blog do Josias

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Dissidência racional à esquerda é lufada de ar

Josias de Souza

11/07/2019 20h41

O principal fenômeno político do ano tem sido, até agora, o presidencialismo sem coalizão. Jair Bolsonaro terceirizou ao próprio legislativo a formação de maioria parlamentar. E Rodrigo Maia, presidente da Câmara, escorou-se nos velhos tecelões do centrão para oferecer ao mercado uma governabilidade sem governo. O Legislativo agora diz ter vontade própria. Quase tudo mudou, exceto o pedágio fisiológico das emendas, que continua.

Nesse contexto, surgiu uma outra novidade, talvez a mais genuína entre todas: uma dissidência na oposição. A esquerda, de mãos dadas com o desequilíbrio fiscal, votou contra a reforma. PT, PCdoB e PSOL foram 100% contra. Num rasgo de independência, oito dos 27 deputados do PDT e 11 dos 32 do PSB votaram a favor da mexida previdenciária. As legendas ameaçam punir os sublevados.

Entre os deputados sujeitos a punição estão duas promessas da nova geração da política: Tábata Amaral, do PDT, e Felipe Rigoni, do PSB. Assim como os demais dissidentes, votaram a favor da racionalidade fiscal sem receber verbas em troca. "Ser de esquerda não pode significar que vamos ser contra um projeto que de fato pode tornar o Brasil mais inclusivo e desenvolvido", diz Tábata. "Estudei o texto. Ele tem muitos defeitos, mas, no geral, é muito melhor do que pior", afirma Rigoni.

Se o oposicionismo vazio fosse comparado a uma fornalha de ideias, a retórica das cúpulas das legendas de esquerda seria a fuligem. Oposição sem contraproposta não é política, é o exercício do espírito de porco. Os dissidentes deveriam se antecipar às punições, abandonando PDT e PSB. Juntos comporiam uma frente de 18 deputados, quase do mesmo tamanho do PDT, que seria reduzido a 19 cadeiras, e do PSB, que passaria a ter 21 assentos. Em meio aos homens de negócio do centrão e aos órfãos de Lula, o surgimento de uma esquerda racional é uma lufada de ar fresco.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.