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Intervenção de Bolsonaro abre uma crise na PF

Josias de Souza

17/08/2019 02h37

Jair Bolsonaro inaugurou uma crise na Polícia Federal. Fez isso ao tentar acomodar na superintendência do órgão no Rio de Janeiro um delegado de sua confiança. "Quem manda sou eu", declarou. Maurício Valeixo, diretor-geral da PF, ameaçou exonerar-se do posto. O presidente deu um passo atrás. Aceitou a nomeação de outro delegado. Mas conseguiu alcançar parcialmente seu objetivo, pois forçou a remoção imediata do atual chefe da PF no Rio, Ricardo Saadi, que deixaria o cargo apenas no final do ano. Valeixo não se demitiu. Entretanto, instalou-se na PF uma atmosfera de mal-estar que potencializou o quadro de desgaste do ministro Sergio Moro (Segurança), a quem o órgão está hipoteticamente subordinado.

Bolsonaro começou a constranger a PF na quinta-feira. Parou para conversar com os repórteres na saída do palácio residencial do Alvorada. Algo que já se tornou um hábito. A certa altura, sem que ninguém perguntasse, declarou:  "Vou mudar o superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro. O motivo? É questão de produtividade". A declaração surpreendeu o comando da PF duplamente. Primeiro porque o presidente grudou um selo de ineficiência na biografia de Ricardo Saadi, um delegado respeitado na corporação. Segundo porque o capitão tratou a PF como uma repartição reles, não como um órgão de Estado.

Para piorar, o presidente não forçou uma porta qualquer. O Rio de Janeiro é o berço eleitoral da dinastia Bolsonaro. Ali, o Ministério Público estadual está grudado nos calcanhares de vidro do primogênito Flávio Bolsonaro. Embora a PF local não atue diretamente nesse caso, o delegado Saadi supervisionaria investigações contra milícias. Uma encrenca com potencial para roçar no PM aposentado Fabrício Queiroz, o "faz-tudo" da família Bolsonaro, que serviu como assessor do gabinete do filho Zero Um quando ele dava expediente como deputado estadual. A radioatividade do cenário levou o comando da PF a reagir de forma inusual.

O diretor-geral Valeixo mandou soltar uma nota cujo teor desmentiu o presidente da República. O texto informou que a troca do superintendente Saadi "já estava sendo planejada há alguns meses". Nada a ver com "desempenho", como alegara Bolsonaro. Atribuiu-se a saída ao "desejo" do delegado de "trabalhar em Brasília". Num esforço para apresentar a novidade como coisa corriqueira, a PF esclareceu que já trocou 11 superintendentes estaduais desde janeiro. Absteve-se de informar que Saadi deixaria o cargo apenas no final do ano. Como que antevendo o que estava por vir, apressou-se em trombetear o nome do substituto: o delegado Carlos Henrique Oliveira Sousa, atual superintendente regional em Pernambuco.

Nesta sexta-feira, em novo encontro matinal com o presidente, os repórteres retomaram o assunto que o inquilino do Alvorada tomara a iniciativa de puxar na véspera. Bolsonaro não se deu por achado. Desmentiu o desmentido da PF. Afirmou que o substituto de Saadi não viria de Pernambuco, mas do Amazonas. "Pelo que eu sei, pelo que fiquei sabendo, é o que está em Manaus. É superintendente de Manaus para lá", declarou, referindo-se ao superintendente amazonense da PF, Alexandre Silva Saraiva.

Bolsonaro teve o cuidado de soar mais Bolsonaro do que o habitual. Do modo como se expressou, parecia decidido a enquadrar Maurício Valeixo ou Sergio Moro. "Se ele resolver mudar, vai ter que falar comigo", declarou, sem esclarecer se falava do diretor-geral da PF ou do ministro da Justiça. "Quem manda sou eu. Deixar bem claro. Eu dou liberdade para os ministros todos, mas quem manda sou eu. Pelo que está pré-acertado, seria o lá de Manaus."

Diante da insistência dos repórteres, o presidente aconselhou: "Pergunta para o Moro. Já estava há três, quatro meses para sair o cara de lá. O que acontece? Quando vão nomear alguém, falam comigo. Ué, eu tenho poder de veto. Ou vou ser um presidente banana agora? Cada um faz o que bem entende e tudo bem? Não." Mencionou substituições que estão para acontecer no comando de hospitais federais do Rio. Perguntou aos repórteres se dariam a mesma atenção à dança de cadeiras hospitalar. E emendou: "Querem me indispor com a PF. Não vão me indispor com a PF. Não vai me indispor".

As novas declarações de Bolsonaro levaram às fronteiras do paroxismo a indisposição que se instalara na sede da PF no dia anterior. Alexandre Saraiva, o superintendente do Amazonas, é ligado a Bolsonaro. Por muito pouco não foi nomeado ministro do Meio Ambiente no início do governo. Avaliou-se que a imposição do nome aniquilaria a independência funcional da PF, que passaria da condição de órgão de Estado para a de repartição a serviço das conveniências do presidente. Optou-se por dobrar a aposta. Reiterou-se que o novo comandante do órgão no Rio viria mesmo de Pernambuco. Simultaneamente, Valeixo informou a Moro que, confirmando-se a desautorização presidencial, não se sentiria em condições de permanecer no cargo.

Informado sobre o ânimo de Valeixo, Bolsonaro abespinhou-se em privado. Mas piscou em público. Apenas três horas depois de haver declarado que seria "um presidente banana" se deixasse a PF fazer "o que bem entende", o presidente serviu aos repórteres uma declaração que soou em timbre, digamos, bananeiro. "Se querem o de Pernambuco, não tem problema, não", afirmou, numa entrevista improvisada no Planalto. "Está há três meses programado, eu acho que ele vai para o exterior, o que estava lá. Tanto faz para mim. Eu sugeri o de Manaus. Se vier o de Pernambuco, não tem problema".

O recuo tático de Bolsonaro evitou um desfecho explosivo. Mas não apagou o pavio da crise. Ouvido pelo blog no início da madrugada deste sábado, por telefone, um delegado que mantém relações com o diretor-geral Maurício Valeixo resumiu assim o atual estágio da encrenca: "Instalou-se um ambiente de insuportável desconfiança. O presidente Bolsonaro fez com a PF algo que nem Lula, investigado e preso, ousou fazer. O último que tentou desmoralizar a PF foi Michel Temer, que também foi investigado, indiciado e denunciado. Deu no que deu."

Sob Temer, o Planalto acomodou na poltrona de diretor-geral da PF o delegado Fernando Segóvia. Em sua primeira entrevista, no mês de novembro de 2017, Segóvia desqualificou as investigações que fizeram do então presidente um denunciado por corrupção. O delegado ecoou críticas feitas pelo próprio Temer. Para ele, a investigação contra Temer é que era suspeita, não o investigado.

Segóvia atacou o ex-procurador-geral Rodrigo Janot, que denunciara Temer ao Supremo Tribunal Federal. Ele engrossou o coro de críticas à delação da JBS. No afã de agradar ao novo chefe, jogou na lata do lixo, por assim dizer, dois relatórios produzidos pela corporação que passaria a comandar. Num deles, a PF informara ao STF sobre evidências que indicavam "com vigor" a prática de corrupção por Temer no caso da mala com a propina de R$ 500 mil.

Noutro relatório, a PF concluíra que Temer tinha poder de decisão sobre o chamado 'quadrilhão do PMDB.' Alheio a todas as evidências, Segóvia chegou a dizer que uma mala com propina não permitia saber se houve ou não corrupção. Foi como se o chefe da PF imaginasse que seria possível tratar o Brasil como um país de bobos. Tudo isso num instante em que as evidências indicavam que Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala, ex-assessor de Temer, não agira por conta própria, mas a mando do chefe.

Em fevereiro de 2018, Segóvia fez novas declarações tóxicas. Afirmou que a investigação contra Temer, por inconsistente, seria arquivada. Foi intimado a prestar esclarecimento ao ministro Luis Roberto Barroso, relator do inquérito contra Temer no Supremo Tribunal Federal.

Admoestado, Segóvia assumiu o compromisso de não fazer novas afirmações sobre o caso. Entregou ao ministro uma manifestação por escrito. Nela, alegou que suas declarações haviam sido "distorcidas e mal interpretadas". Anotou que não pretendeu "interferir no andamento do inquérito, antecipar conclusões ou induzir o arquivamento". Foi demitido por Temer no mês seguinte. A menção ao caso de Segóvia dá uma ideia do sentimento que Bolsonaro instilou na PF ao intervir na superintendência do Rio de Janeiro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.