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Blog do Josias

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Capitão trata a PGR como apêndice do Planalto

Josias de Souza

03/09/2019 18h46

Jair Bolsonaro confunde as estações ao falar sobre a escolha do sucessor de Raquel Dodge. Ele diz que o procurador-geral da República é o segundo posto mais importante do governo federal.

Pela Constituição, embora o presidente tenha a prerrogativa de indicar o seu chefe, o Ministério Público Federal não é um apêndice do Poder Executivo. Dispõe de independência funcional. E o escolhido do presidente precisa ser referendado pelo Senado.

Bolsonaro não ignora as regras. Assim, é preciso compreender o real sentido de suas palavras. Num país em que a corrupção tornou-se endêmica e dois presidentes já sofreram impeachment, é natural que o inquilino do Planalto preste atenção redobrada à escolha do procurador-geral.

O problema é saber quais são as motivações da inquietação. Se Bolsonaro ainda tivesse algum apreço pela coerência, indicaria um procurador de mostruário, implacável com a corrupção. Mas não parece ser esse o objetivo.

Enigmático, o presidente disse encarar a escolha do futuro chefe da Procuradoria como um jogo de xadrez. Ele seria o rei. O procurador-geral, a rainha. A coisa é muito sofisticada, mas, a julgar pelos movimentos, Bolsonaro parece querer impor ao Ministério Público uma regra que, no jogo de xadrez, favorece os jogadores que, como ele, se sentem ameaçados.

Consiste no seguinte: no final de uma partida, se um jogador só pode mexer o rei e, embora não esteja em xeque, qualquer movimento que faça o conduz à morte, o jogo acaba empatado.

Se não pode ter uma Procuradoria que realize o sonho do incômodo zero, o capitão tenta providenciar um procurador-geral do empate. Alguém que, pelo menos, não realize os seus pesadelos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.