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Blog do Josias

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Ataque do capitão a Bachelet apequena o Brasil

Josias de Souza

04/09/2019 20h48

É falsa a impressão de que Jair Bolsonaro leva o seu governo para a direita quando ataca críticos e adversários. Na verdade, ele puxa o governo para baixo. E leva o Brasil junto. Mal comparando, o que Bolsonaro disse sobre a ex-presidente chilena Michelle Bachelet e o pai dela, o general Alberto Bachelet, é a repetição em escala internacional de uma vergonha doméstica.

O presidente repetiu com Bachelet o vexame que impôs aos brasileiros que deveria representar ao atacar o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, desqualificando a biografia do pai do seu alvo, Fernando Santa Cruz, desaparecido durante a ditadura militar. Ex-presidente do Chile, Bachelet ocupa no momento o posto de Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos. Merece respeito.

Numa entrevista, Bachelet foi instada a falar sobre o  Brasil. E disse coisas que não chegaram bem nos ouvidos de Bolsonaro. Disse que houve uma redução do espaço democrático no Brasil, que aumentaram os ataques contra defensores dos direitos humanos, que há problemas ambientais e cresceu a violência policial, especialmente no Rio.

Como presidente, Bolsonaro teria todo o direito de responder às críticas. O que ele fez? Escreveu no Twitter: "Se não fosse o pessoal do [Augusto] Pinochet derrotar a esquerda em 1973, entre eles o seu pai [de Bachelet], hoje o Chile seria uma Cuba".

Em uma frase, o presidente cometeu três atrocidades: defendeu o Pinochet, algo que até a direita chilena hesita em fazer, sapateou sobre a memória de Bachelet e tripudiou sobre a biografia do pai dela, morto sob tortura.

Bolsonaro revelou-se capaz de tudo, memos de demonstrar que há uma noção qualquer de compostura por trás da faixa presidencial que ele vestiu em janeiro. Ele não rebaixou apenas a sua própria figura, apequenou o Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.