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Blog do Josias

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Lava Jato disputa com Vaza Jato e Abafa a Jato

Josias de Souza

13/09/2019 14h58

A Lava Jato está na berlinda. Enfrenta a concorrência de outras duas operações: a Vaza Jato e a Abafa a Jato. Nelas, juntaram-se numa aliança tácita o governo de Jair Bolsonaro, o centrão, o petismo e o pedaço do Judiciário adepto da política de celas abertas. Houve muitos ataques anteriores. Mas nenhum teve tanta chance de êxito como os atuais. Ironicamente, os próprios operadores da força-tarefa de Curitiba forneceram o material usado na desconstrução do maior e mais bem sucedido esforço anticorrupção já realizado no país.

As mensagens trocadas entre o então juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol já produziram um estrago político inédito. O pedido de CPI protocolado na Câmara pela oposição é parte desse processo. No momento, os responsáveis pela Lava Jato vivem a síndrome do que está por vir. O dano pode evoluir da seara política para a área jurídica.

Uma série de julgamentos pendentes na Segunda Turma e no plenário do Supremo Tribunal Federal podem resultar na reversão de sentenças como a de Lula no caso do tríplex e na revisão de regras como a que autorizou a prisão de larápios condenados na primeira e na segunda instância do Judiciário.

Roubado dos celulares de autoridades e trazido à luz pelo Intercept e seus parceiros, o conteúdo da comunicação privada de Moro e dos procuradores de Curitiba ofereceu à oligarquia corrupta o tecido, a linha e a agulha para a confecção do figurino de vítima. Portanto, o dano político já ocorreu e é irreversível. Ele aparece no esvaziamento do ministro Sergio Moro (Justiça), na ofensiva de Bolsonaro para aparelhar os órgãos de controle e em iniciativas como o pedido de CPI protocolado na Câmara.

A reviravolta judicial exigirá uma dose extra de ousadia, pois a proximidade tóxica que Moro desenvolveu com Deltan não apagou a corrupção que devastou o Brasil. Ainda que houvesse uma perícia validando o uso judicial de conversas sobre cuja autenticidade já não pairam tantas dúvidas, será necessário lançar mão de algum malabarismo jurídico para ignorar a roubalheira colossal que a Lava Jato retirou debaixo do tapete da República.

A morte da Lava Jato não será súbita. Virá como resultado de um lento e degradante processo. Participam da organização do velório culpados, cúmplices e enrolados que aguardavam na fila como condenações esperando para acontecer. A essa altura, talvez nem as ruas consigam salvar a Lava Jato.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.