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Alcolumbre impõe estilo Renan ao governo e STF

Josias de Souza

24/09/2019 03h28

Davi Alcolumbre virou presidente do Senado e do Congresso mais por exclusão do que por preferência. Os votos dos poucos senadores que pensavam como ele foram reforçados pela adesão dos muitos colegas que não admitiam votar em Renan Calheiros. Em fevereiro, quando tomou posse, representava a renovação. Hoje, simboliza o contrário. No estilo, está cada vez mais parecido com Renan.

Em acordos tricotados no final de semana, Alcolumbre colocou em pé uma estratégia para restaurar o espírito de corpo da banda investigada do Legislativo, emparedar o Executivo e fustigar o Judiciário. Adiou para quarta-feira a votação da reforma da Previdência no plenário do Senado. E antecipou para esta terça uma sessão conjunta do Congresso.

São dois os objetivos centrais da reunião em que deputados e senadores tomarão decisões em sessão unicameral: 1) Derrubar parte dos vetos que Bolsonaro aplicou à lei do abuso de autoridade. 2) Aprovar projeto que abre no Orçamento da União um crédito extraordinário de R$ 3 bilhões.

A derrubada de vetos representará uma paulada no ministro Sergio Moro (Justiça). Ele sugeriu a Bolsonaro a supressão de trechos da nova lei que inibem o serviço de juízes, procuradores e investigadores. Alcolumbre e Cia. enxergam as digitais de Moro na operação de busca e apreensão que a Polícia Federal realizou nas dependências do Congresso na semana passada.

Deseja-se, de resto, fustigar a ala lavajatista do Supremo Tribunal Federal. Foi um integrante dessa ala, o ministro Luís Roberto Barroso, quem assinou o mandado judicial que colocou a rapaziada da Polícia Federal dentro dos gabinetes do senador Fernando Bezerra Coelho, líder de Bolsonaro no Senado, e do primogênito dele, o deputado federal Fernando Coelho Filho. A dupla é acusada de receber propinas.

A aprovação do projeto que autoriza o Tesouro Nacional a gastar R$ 3 bilhões que não possui visa obrigar Bolsonaro a pagar com déficit público uma fatura contraída antes do recesso parlamentar do meio do ano. O Planalto prometera liberar emendas orçamentárias a granel em troca dos votos que aprovaram a reforma previdenciária.

Além de estimular Bolsonaro manter o investigado Fernando Bezerra no posto de líder do governo, os congressistas querem receber os cifrões prometidos no primeiro semestre. O compromisso foi avalizado pelo chefe da Casa Civil, ministro Onyx Lorenzoni, um apoiador de Alcolumbre.

A movimentação de Davi Alcolumbre transforma-o numa espécie de conto do vigário no qual o grupo de senadores que defende a renovação das práticas do Senado caiu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.