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Bolsonaro virou ‘penetra’ na festa da Previdência

Josias de Souza

23/10/2019 03h50

A reforma da Previdência, finalmente aprovada no Senado, é digna da festa que se realiza em torno dela. O que surpreende é a tentativa de Jair Bolsonaro de se autoatribuir o mérito pela aprovação. Entre risos, o presidente declarou, em Tóquio: "Não articulei nada, não sei articular. Quem articulou foi o Delegado Waldir". Foi como se o capitão recorresse à ironia para declarar, com outras palavras, o seguinte: "Embora meu correligionário me chame de vagabundo, consegui articular a aprovação de uma extraordinária reforma." É uma pena, mas a insinuação de Bolsonaro não fica em pé. A reforma saiu apesar das trapalhadas do presidente, eis a realidade.

A despeito de todas as imperfeições, produziu-se em oito meses a mais ampla mexida previdenciária já realizada no país. Militares, estados e municípios ficaram de fora. Permanece intocado o grosso dos privilégios do setor público. Mas a economia a ser obtida em dez anos, estimada em R$ 800 bilhões, está longe de ser negligenciável. Rompeu-se, de resto, o tabu da fixação de uma idade mínima para a aposentadoria. Tudo isso apesar de Bolsonaro que, após entregar a proposta, disse que a bola estava com o Congresso. Não articulou nada, exceto a concessão de um benefício para policiais, brindados com uma idade mínima mais baixa.

A exemplo do que fizera na Câmara, o ministro Paulo Guedes (Economia) compareceu ao plenário do Senado para usufruir dos refletores na sessão em que o texto principal foi aprovado em segundo turno. Na versão original, a reforma de Guedes previa economia de R$ 1,2 trilhão em uma década. Meses depois de acusar a Câmara de "abortar a Nova Previdência", o Posto Ipiranga declarou-se satisfeito com o parto da cifra de R$ 800 bilhões, inferior aos R$ 933 bilhões que os deputados imaginavam ter assegurado.

Ironicamente, Guedes deu seus maiores faniquitos justamente numa fase da tramitação em que a reforma foi mais aperfeiçoada do que deformada. Os deputados retiraram veneno da proposta ao excluir a mudança pretendida no BPC, o Beneficio de Prestação Continuada. A ideia de retardar até os 70 anos o pagamento de um mísero salário mínimo para os brasileiros pobres era maldade injustificável. O ministro também não gostou do sepultamento do seu modelo de capitalização. Bem esmiuçado, o sistema pode ser uma alternativa. Mas uma autorização concedida no escuro, como desejava Guedes, seria uma temeridade.

No final das contas, a reforma tornou-se uma obra coletiva, como convém numa democracia. Ela traz o suor da assessoria técnica da pasta da Economia. Mas não teria saído do lugar sem o empenho das cúpulas da Câmara e do Senado, controladas pelo DEM. Os relatores foram do PSDB nas duas Casas. A maioria de três quintos jamais teria sido obtida sem os votos do rebotalho do centrão. Nesse contexto, Jair Bolsonaro conseguiu a façanha de se tornar um penetra numa festa em que deveria ser o anfitrião. Ironicamente, pode virar o principal beneficiário político da reforma.

Vivo, o ex-presidente da Câmara Ulysses Guimarães repetiria uma de suas frases prediletas: "Político é como cozinheiro: quem faz o melhor bocado nem sempre o come". Com a inflação abaixo da meta, os juros cadentes e os bilhões proporcionados pelos leilões de petróleo, o governo melhora suas contas e estimula investimentos privados.

Tudo o que Bolsonaro precisa fazer para não estragar as coisas é fechar a usina de polêmicas, domesticar os filhos, tomar distância dos rolos judiciais que assediam o primogênito Flávio, desligar o polemista Olavo de Carvalho da tomada, trazer na coleira as declarações da ala circense da Esplanada (MEC, Itamaraty e Direitos Humanos) e higienizar certos ministérios (o do Turismo é um bom começo).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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