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PT virou protagonista do ato final da Previdência

Josias de Souza

23/10/2019 15h03

O encerramento da votação da mais ampla reforma previdenciária já aprovada no país foi marcado por um inusitado paradoxo: por iniciativa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, coube ao senador Paulo Paim a honraria de anunciar a conclusão do processo legislativo. Adversário histórico da reforma, Paim é filiado ao PT, partido que cogita questionar as mudanças no Supremo Tribunal Federal. Foi mais ou menos como se o Coringa ganhasse o papel de protagonista de uma festa promovida pelo Batman.

Por acordo, aprovou-se uma emenda de Paim que permite a concessão de aposentadorias especiais a trabalhadores que exercem atividades de risco. Foi a última proposta a ser votada. Alcolumbre chamou o colega petista à mesa. Cedeu a Paim o assento de presidente da sessão, instando-o a anunciar o resultado da votação: 78 votos a favor, nenhum contra. Seguiu-se um longo discurso do petista.

Paim não chegou a ecoar o líder do PT, Humberto Costa, que escalara a tribuna na véspera para atacar a reforma e chamar o ministro Paulo Guedes de "verdugo do povo pobre brasileiro, discípulo de Pinochet, que quer aqui no Brasil aquilo que foi feito lá [no Chile] e está fazendo aquele país viver um ambiente de incerteza e crise social". Mas teve a oportunidade de declarar coisas assim: "Estou muito triste com o que está acontecendo no Chile, onde o presidente da República pediu perdão ao seu povo".

O senador petista recordou que a proposta original do governo continha o modelo de capitalização à moda do Chile. "O Congresso disse não", realçou Paim. "O sistema não deu certo. E o Brasil não pode copiar o que não deu certo".

Animado com o acordo firmado em torno de sua emenda, Paim animou-se a mandar um recado para Jair Bolsonaro: "Oxalá o exemplo que o Senado deu hoje sirva também para o outro lado da rua".

Sem mencionar o nome do presidente da República. Paim reforçou estereótipos associados à imagem do capitão: "É possível, sim, que a gente tenha um país onde se olhe de forma igual para negros, brancos, índios, independentemente da religão e orientação sexual de cada um."

À esquerda de Paim, estava sentado Davi Alcolumbre (DEM-AP), aliado do Planalto. À direita, o líder do governo Fernando Bezerra (MDB-PR). Ao final do discurso, o senador petista pediu uma salva de palmas. Foi atendido.

A sessão foi encerrada sem que Alcolumbre retomasse o assento de presidente. Paulo Paim, que chegou a questionar a existência de déficit na Previdência, deu a última palavra no epílogo da tramitação legislativa da mais abrangente mexida previdênciária feita no Brasil.

Ao se levantar, Fernando Bezerra, o líder de Bolsonaro no Senado, virou-se para o arquirrival da reforma da Previdência, saudando-o assim: "Presidente Paim".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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