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STF gosta de falar, mas tem de aprender a ouvir

Josias de Souza

24/10/2019 00h39

Abriu-se no julgamento do Supremo sobre a prisão na segunda instância, nesta quarta-feira, uma janela para que o decano da corte, Celso de Mello, acenasse para a rua. Numa manifestação feita à margem dos autos, a pretexto de festejar os dez anos da posse do colega Dias Toffoli, o ministro mais antigo da Suprema Corte despejou diante das lentes da TV Justiça palavras que soaram como uma bronca no pedaço da opinião pública que pressiona pela manutenção da regra que permite prender condenados na segunda instância.

É curioso notar o encadeamento da retórica de Celso de Mello. Ele falou de "espectros", um outro nome para assombrações. Mencionou "surtos autoritários", "manifestações de grave intolerância que dividem a sociedade". Citou "delinquentes" que vivem "no submundo digital". Insinuou que essa gente que ele não identifica tem um projeto de poder que ameaça "a República democrática e laica". Depois, disse que o Supremo, a despeito das pressões, não deixará de cumprir o seu papel constitucional.

O ministro precisa dar nome às suas assombrações. Uma coisa é a delinquência, outra bem diferente é o sacrossanto direito à livre manifestação. Se há delinquentes rondando o Supremo, que sejam abertos os inquéritos, com a participação do Ministério Público. Se o que chega ao Supremo são mensagens com críticas à possibilidade de recuo na regra que permitiu o encarceramento da delinquência com pedigree, os ministros que abram os olhos. Que abram, sobretudo, os ouvidos.

O Supremo gosta muito de falar. Mas precisa começar a aprender a ouvir. As punições do mensalão e do petrolão fizeram brotar na alma dos brasileiros uma espécie de mania de justiça, um sentimento civilizatório. Para satisfazer esse sentimento, a Justiça precisa levar às últimas consequências o princípio segundo o qual todos são iguais perante a lei. E esse princípio não estará assegurado se for restabelecido o ambiente em que, acima de um certo nível de renda e poder, ninguém será punido no Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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