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Bolsonaro e Witzel brigam para ver quem mente

Josias de Souza

02/11/2019 02h49

Há um incômodo detalhe na briga entre Jair Bolsonaro e Wilson Witzel: a matéria-prima dessa desavença é a mentira. Falta saber quem é o mentiroso. Em transmissão ao vivo pela internet, o presidente sustentou que o governador do Rio de Janeiro participa da "confecção" do inquérito sobre a execução de Marielle Franco. Assegurou que Witzel vazou dados sigilosos sobre o porteiro que, em dois depoimentos, enfiou seu nome dentro do processo. O governador jura que não se mete no trabalho da polícia civil. E negou ter vazado informações.

O palavreado de Bolsonaro e Witzel não orna com as funções públicas que ambos exercem. O presidente diz que seu novo desafeto ambiciona "o poder pelo poder" e "se acha gostosão". O governador rebate afirmando o seguinte: "Não tenho bandido de estimação —seja ele político, filhos de todo-poderoso, miliciano." Quer dizer: Bolsonaro insinua que Witzel é um político inescrupuloso, capaz de tudo para chegar ao Planalto. E Witzel acomoda na mesma frase a família Bolsonaro —o chefe do clã e os filhos— e a palavra "miliciano", com tudo o que está embutido no seu significado. A cena é de enorme desqualificação.

Bolsonaro soou bastante específico. Declarou que, no dia 9 de outubro, às 21h, estava no Clube Naval do Rio de Janeiro quando Witzel chegou. Nesse encontro, sustenta o presidente, Witzel lhe informou sobre o porteiro, a menção ao seu nome e a subida do caso ao Supremo Tribunal Federal. "O porteiro está sendo usado pelo delegado da Polícia Civil, que segue ordem do senhor Witzel", disse Bolsonaro.  O governador responde que as declarações do presidente "são levianas".

A esse ponto chegamos: depois de quase 600 dias de investigação em torno do assassinato de Marielle Franco e do seu motorista Anderson Gomes, o inquérito, além de não oferecer conclusões categóricas, deságua numa polêmica em que as autoridades máximas da República e do Estado chamam-se mutuamente de mentirosos. Em política, a verdade é aquilo que sobra depois que se esgota o estoque de mentiras. Mas às vezes exagera-se. Parece claro que Bolsonaro e Witzel não se respeitam. Mas deveriam respeitar um pouco mais a família dos mortos e a plateia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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