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Governo Bolsonaro vira um martírio para generais

Josias de Souza

06/11/2019 01h06

Era de vidro a estima que Jair Bolsonaro parecia nutrir pelos militares que convocou para ajudá-lo a governar. Em dez meses, trincou seis vezes. O capitão expurgou do seu governo meia dúzia de generais. O penúltimo foi o quatro estrelas Maynard Marques de Santa Rosa, que deixou a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência.

Depois que Bolsonaro mandou para o olho da rua um amigo de três décadas, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, desalojado do comando da Secretaria de Governo da Presidência, ficara entendido que a lâmina seria implacável. Mas não se imaginou que, sob o capitão, farda viraria um outro nome para instabilidade no emprego.

Já ficaram pelo caminho os generais Franklimberg de Freitas (Funai), Juarez Cunha (Correios), João Carlos Jesus Corrêa (Incra) e Marco Aurélio Vieira (Secretaria Especial de Esporte). Agora, Maynard Santa Rosa (Secretaria de Assuntos Estratégicos). Santos Cruz, o precursor, foi substituído por outro general: Luiz Eduardo Ramos. Que já recebeu da deputada Joyce Hasselmann um alerta: "Você será o próximo".

A conversão de generais da reserva em funcionários civis despertara muita expectativa. Os pessimistas apostavam na militarização camuflada de um governo supostamente civil. Os otimistas contavam com o talento dos ex-companheiros de caserna para civilizar um presidente que se considera militar a despeito de ter sido excluído da tropa por indisciplina.

Frustraram-se todas as apostas. Nem o governo se militarizou nem o presidente foi civilizado. Abriu-se uma terceira via, que conduz os generais gradativamente à porta de saída sob dois pretextos, ambos humilhantes: hipotética incompetência ou manifesta incompatibilidade com o alto-comando ideológico do governo, chefiado por Olavo de Carvalho desde o estado americano da Virgínia.

Virou fumaça a suposição de que algum general ilustrado faria ao Brasil o favor de tutelar um capitão indomável. Sucede o contrário. Um general como Augusto Heleno, por exemplo, segura-se na chefia do Gabinete de Segurança Institucional contemporizando com ideias amalucadas como a de Eduardo Bolsonaro.

O filho Zero Três do presidente sugeriu um "novo AI-5" como resposta a uma eventual radicalização de esquerda. E Heleno: "Se ele falou, tem de estudar como vai fazer, como vai conduzir. Acho que, se houver uma coisa no padrão do Chile, é lógico que tem de fazer alguma coisa para conter. Mas até chegar a esse ponto tem um caminho longo".

Quer dizer: o governo Bolsonaro tornou-se um martírio para os generais. Ou saem com a fama de incompetentes ou com a pecha de melancia (verde por fora, vermelho por dentro). Para ficar, precisam se infiltrar no meio dos insensatos. O problema é que as pessoas que observam à distância já não conseguem distinguir quem é quem.

Num governo assim, convertido em palco de guerra, bater em retirada passou a ser uma grande vitória para os generais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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