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Sem Bolsonaro, Previdência teve um ‘grand finale’

Josias de Souza

12/11/2019 23h48

Jair Bolsonaro exibiu nos oito meses de tramitação da reforma da Previdência um comportamento inadequado. Dividiu quando deveria somar. Socorreu sua tribo numa hora em que a prioridade era suprimir privilégios. Quando se imaginava que o presidente da República coroaria a cerimônia de promulgação da reforma com alguma presença de espírito, Bolsonaro ofereceu ao Congresso sua ausência de corpo. Certas pessoas não perdem a oportunidade de perder oportunidades.

Davi Alcolumbre, presidente do Senado e do Congresso, contemporizou. Declarou que a ausência de Bolsonaro é um sinal de que Executivo e Legislativo trabalham "em harmonia, mas em independência, um respeitando o papel do outro". Conversa fiada. A reforma poderia ter sido promulgada há 20 dias. Mas Alcolumbre disse que aguardaria Bolsonaro, que estava no exterior. O presidente retornou em 1º de novembro. E só informou que não iria à promulgação na última hora.

Bolsonaro estava ocupado organizando sua próxima confusão: a criação de um novo partido político. O que deveria ser apenas mais um caso de falta de senso e de educação acabou se transformando numa nova modalidade de arremesso de dinheiro público pela janela. Numa conta feita pelo economista Paulo Tafner, da USP, a decisão de Alcolumbre de retardar a promulgação da reforma custou R$ 601 milhões. Essa é a cifra que o Tesouro teria economizado se a emenda previdenciária tivesse sido promulgada há 20 dias.

Não é difícil entender porque foi necessário esperar até que a economia brasileira evoluísse da fase do fundo do poço para a etapa do poço sem fundo para que o Congresso aprovasse, finalmente, uma reforma previdenciária ampla, com a fixação de idade mínima para a aposentadoria. Deve haver nos subterrâneos da Praça dos Três Poderes uma escola superior que ofereça cursos de pós-graduação em insensatez. Não é possível que certos agentes políticos consigam fazer o pior o melhor que podem sem algum tipo de formação especial.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.