Topo

Brasília não é o lugar para Guaidó se estabelecer

Josias de Souza

13/11/2019 19h19

Invasão ou ocupação? Pouco importa. Não é preciso recorrer a um grande esforço de reflexão para perceber que não havia para o governo brasileiro senão a opção de zelar para que a embaixada da Venezuela fosse restituída à equipe credenciada pelo governo do ditador Nicolás Maduro.

Embora o governo de Jair Bolsonaro tenha reconhecido a legitimidade do autoproclamado presidente venezuelano, a presidência paralela de Juan Guaidó é uma ficção. Quem controla o Estado na Venezuela, goste-se ou não, é o ditador Maduro. Ponto!

O Brasil é signatário da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. E deve prover às representações estrangeiras instaladas no país a mesma segurança que exige para as embaixadas do Brasil no exterior.

Tudo isso parece óbvio. Mas o óbvio, sob Bolsonaro, demora a ser reconhecido. Há sempre um filho empoleirado no caixote das redes sociais para provlemar que o óbvio não é o óbvio. O deputado Eduardo Bolsonaro, o quase-embaixador, apressou-se em postar que a ocupação da embaixada da Venezuela por partidários de Guiadó é "o certo, o justo." Ai, ai, ai.

A manifestação destrambelhada do Zero Três forçou o Gabinete de Segurança Institucional, do general Augusto Heleno, e o próprio presidente a se manifestarem em sentido inverso. Mas a demora em tomar providências deixou o governo brasileiro em posição constrangedora diante dos chefes de Estado dos países do Brics, que visitam Brasília.

Excetuando-se o Brasil, nenhuma das letras que compõem a sigla enxerga legitimidade em Guaidó. Ao contrário, duas delas —Russia e China— apoiam com vigor a ditadura de Nicolás Maduro.

Preferências à parte, não é hora para brincadeiras. Num instante em que fervem as ruas do Chile, Equador e Bolívia, não convém ao Brasil permitir que grupos rivais da Venezuela transformem o Brasil em Casa da Mãe Joana. O local correto para que a presidência paralela de Juan Guaidó se converta em poder oficial é o Palácio de Miraflores, em Caracas, não o prédio da embaixada, em Brasília.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.