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Capitão vive com a China a fase da caída em sí

Josias de Souza

13/11/2019 15h48

Jair Bolsonaro vive em relação à China a fase da caída em si. Em outubro de 2018, ainda candidato à Presidência, Bolsonaro disse: "A China não compra no Brasil. A china está comprando o Brasil." Cinco meses depois, já com a faixa de presidente no peito, Bolsonaro participou de uma aula magna para formandos do Itamaraty. E assistiu sem reação ao discurso em que o chanceler Ernesto Araújo deseducou os novos diplomatas afirmando que o Brasil não iria "vender sua alma" para "exportar minério de ferro e soja" para a China comunista.

Hoje, o Brasil de Bolsonaro roga aos chineses que comprem não a alma brasileira, mas as estatais, os aeroportos, as ferrovias, os portos e toda sorte de empreendimentos de infraestrutura. Há algo como 200 projetos sobre a mesa. Dias atrás, o Brasil mendigava uma participação mixuruca de estatais chinesas em leilões de petróleo dos quais as grandes petroleiras do mundo preferiram se abster.

Quanto à soja e ao minério de ferro, commodities mencionadas na antiaula do suposto chanceler Araújo, não resta ao Brasil senão agradecer à China por continuar comprando, porque é só o que o Brasil tem a oferecer. Soja, petróleo e minério respondem por 70% de toda a pauta de exportação a para a China, maior parceiro comecial do Brasil há dez anos. Vendemos produtos básicos e compramos dos chineses manufaturados. Coisas como plataformas de exploração de petróleo, motores, geradores, circuitos de telefonia e um interminável etcétera.

Agora, o ministro da ecomomia, Paulo Guedes bate bumbo em torno de uma zona de livre comércio com a China. Não se sabe se virá. Mas é alvissareiro notar a revolução no comportamento do governo em relação à China. Resta torcer para que não haja reviravolta, porque certos cérebros do governo começam a funcionar quando acordam e param no instante em que encontram a ideologia ou enxergam uma foto do Donald Trump.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.