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Com luz acesa, Toffoli desiste de xeretar o Coaf

Josias de Souza

19/11/2019 01h35

Tancredo Neves, raposa das mais felpudas da política brasileira, deixou para a eternidade preciosos ensinamentos. Dias Toffoli, o presidente do Supremo Tribunal Federal, aprendeu da pior maneira o valor de uma das lições de Tancredo: "A esperteza, quando é muita, come o dono." O doutor tornou-se protagonista de um recuo muito parecido com um cavalo de pau.

Com a curiosidade de um voyeur, Toffoli planejara observar a silhueta bancária de autoridades e políticos fisgados pelo antigo Coaf em movimentações suspeitas. Faria isso no escurinho do sigilo processual. De repente, reportagem da Folha acendeu a luz. E Toffoli meteu-se numa coreografia de maluco, que espantou até alguns de seus colegas de toga.

Ao congelar o processo que inferniza Flávio Bolsonaro, Toffoli travou 935 investigações turbinadas pelo Coaf. Alegando que precisava livrar a sociedade de abusos dos órgãos de controle, requisitou sem justa causa dados sigilosos colecionados nos últimos três anos. De posse da senha que daria acesso aos segredos de 600 mil pessoas e empresas, o mandachuva do Supremo absteve-se de usá-la.

Na última sexta-feira, o procurador-geral da República Augusto Aras pediu a revogação da ordem que escancarou para Toffoli os arquivos que o Ministério Público está impedido de usar desde julho. Além de indeferir o pedido, Toffoli dobrou a aposta, requisitando novas informações. Nesta segunda-feira, após receber os dados que poderia ter solicitado bem antes, decidiu dar meia-volta.

Eis o que escreveu Toffoli em novo despacho: "Diante das informações satisfatoriamente prestadas pela UIF [novo nome do Coaf], em atendimento ao pedido dessa Corte, em 15/11/19, torno sem efeito a decisão na parte em que foram solicitadas, em 25/10/19, cópia dos Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs), expedidos nos últimos três anos".

Ministros do Supremo costumam falar uma língua que ninguém entende, salvo nos instantes em que se insultam diante das câmeras da TV Justiça. No português das ruas, deu-se o seguinte: Toffoli saiu de fininho porque o uso da senha fornecida pelo Coaf deixaria gravado no sistema um rastro que denunciaria os objetos do seu desejo.

Nesta quarta-feira, o plenário do Supremo decide o que fazer com a liminar que travou investigações contra potenciais criminosos encrencados em 935 processos. As onze togas terão de decidir também qual é o prazo de validade da blindagem que impede o país de conhecer em toda a sua plenitude os subterrâneos das relações político-monetárias do filho do presidente da República com o policial militar Fabrício Queiroz, velho amigo do seu pai.

A essa altura talvez já tenha ficado claro para Toffoli e seus pares que as duas coisas mais perigosas de uma democracia são a imprensa livre e a afeição das autoridades pelo escurinho. Juntas, elas levam fatalmente a estes clarões repentinos que tornam poderosos impotentes.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.