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No voto de Toffoli, Saci-Pererê tem múltiplas pernas

Josias de Souza

20/11/2019 15h46

O ministro Dias Toffoli começou com dois pés esquerdos a leitura do seu voto no caso sobre o repasse de dados sigilosos de órgãos de controle como o Coaf para o Ministério Público. Depois de congelar em todo país processos recheados com dados repassados pelo Coaf sem autorização judicial, entre eles o inquérito contra Flávio Bolsonaro, Toffoli chamou de "lendas urbanas" as interpretações derivadas da liminar que ele esculpiu em julho.

Na leitura da primeira parte do seu voto, o presidente do Supremo Tribunal Federal produziu duas pérolas. Numa disse: "Aqui não está em julgamento o senador Flávio Bolsonaro". Noutra declarou que "poucos processos" foram paralisados por sua decisão, acusando seus críticos de tentar criar um "clima de terrorismo".

Foi graças a um habeas corpus da defesa de Flávio Bolsonaro que Toffoli enfiou o Coaf dentro de um processo que envolvia apenas a Receita Federal. Foi por conta do mesmo recurso que Toffoli congelou o inquérito que corre contra o filho do presidente e outros 935 processos fornidos com dados do Coaf.  

Toffoli jura que o vínculo do filho do presidente com o processo, assim como o Saci-Pererê, jamais existiu. Mas o advogado de Flávio Bolsonaro está presente na sessão da Suprema Corte. Assim como as autoridades que cuidam dos outros 935 processos travados por Toffoli, o defensor do Zero Um esfrega as mãos na perspectiva de que o caso do seu cliente seja anulado.

Quer dizer: Ao contrário do saci, o interesse dos encrencados é real e tem múltiplas pernas. Dependendo da decisão a ser tomada pelo Supremo, o Coaf é que pode sair do julgamento como uma "lenda urbana", um órgão de controle mudo e sem pernas.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.