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Trump vira um caso digno da Lei Maria da Penha

Josias de Souza

02/12/2019 20h17

O anúncio feito por Donald Trump de que a Casa Branca vai sobretaxar o aço e o alumínio que Brasil e Argentina vendem para os Estados Unidos teve o efeito de uma paulada sobre as relações pessoais que Jair Bolsonaro alega manter com o presidente americano. Golpeado, Bolsonaro reagiu à afronta com respeito e compostura. Ou seja, estava completamente fora de si.

"Não vejo isso como retaliação", disse Bolsonaro, ainda meio zonzo. Ora, o pretexto é falso. Mas a retaliação é real. Trump, o amado de Bolsonaro, acusa o Brasil de promover, de caso pensado, uma desvalorização maciça do real. Se Bolsonaro reagisse como Bolsonaro, esfregaria na cara do inquilino da Casa Branca a expressão preferida do próprio Trump: "Isso é fake News, tá ok?".

Mas a ficha de Bolsonaro demora a cair. "Se for o caso, falo com o Trump, tenho um canal aberto com ele." O presidente brasileiro ainda não percebeu que a relação especial com a Casa Branca foi uma espécie de conto do vigário no qual ele caiu. Já entregou tudo a Trump: a base espacial de Alcântara, a liberação da catraca do Brasil para turistas americanos, a importação de uma cota extra de etanol americano e até amor verdadeiro. Em troca, só obteve pauladas.

O presidente americano pede aos brasileiros que façam como ele e se finjam de bobos para acreditar que o Brasil quis derrubar a cotação do real de propósito para se tornar mais competitivo no agronegócio, prejudicando os produtores americanos. Conversa fiada de um Trump que tenta adular o eleitorado interno num instante em que disputa uma reeleição difícil.

Bolsonaro já disse que ama Trump. Mas diplomacia não é coisa para amadores. Em condições normais, a relação pessoal de Bolsonaro com Trump deveria ser regulada pela Lei Maria da Penha. Mas na briga dos Estados Unidos com o Brasil quem apanha não é Bolsonaro, mas o interesse nacional.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.