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Fundão de R$ 2,5 bi continua sendo indignidade

Josias de Souza

11/12/2019 20h17

Dignidade é mais ou menos como virgindade. Perdeu está perdida. Não dá segunda safra. Os parlamentares começaram a se comportar de forma indigna quando imaginaram que seria uma boa ideia reservar para as eleições municipais do ano que vem um valor superior à cifra de R$ 1,7 bilhão que foi aplicada nas eleições gerais de 2018.

O governo se associou à indignidade ao propor um fundo eleitoral de R$ 2 bilhões. O Congresso evoluiu para o escárnio quando os líderes e presidentes de 13 partidos, representando 430 dos 513 deputados e 61 dos 81 senadores, dobraram a aposta, pedindo um fundão eleitoral de R$ 4 bilhões.

O relator do Orçamento da União para o ano de 2020, deputado Domingos Neto, aplicou um redutor na insanidade, mas orçou a loucura em R$ 3,8 bilhões. Agora, os líderes negociam um valor menor como se fizessem um favor à sociedade.

Jair Bolsonaro dispõe do poder de veto. Sinalizou que poderia vetar o fundo de R$ 3,8 bilhões. Mandou dizer que aceitaria inaceitáveis R$ 2,5 bilhões —meio bilhão acima do que a equipe econômica havia considerado admissível. O valor continua sendo uma indignidade.

Num país em que as pessoas morrem nos corredores de hospitais, as escolas caem aos pedaços e mais da metade da população não dispõe de água potável e privada em casa, a simples existência desse debate é um desafio à paciência da sociedade.

Tem-se a impressão de que, no Brasil, a democracia é um extraodinário modelo de organização social composto de três poderes e 210 milhões de impotências.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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