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Moro vê culpas do STF, mas não enxerga o chefe

Josias de Souza

12/12/2019 21h17

Dados coletados pelo Datafolha indicam que piorou a avaliação do governo Bolsonaro no quesito combate à corrupção. Em entrevista à Folha, Sergio Moro foi convidado a explicar o fenômeno. E ele atribuiu 100% da culpa ao Supremo Tribunal Federal. Na visão do ministro da Justiça, a avaliação piorou porque vários condenados foram libertados da cadeia depois que o Supremo revogou a regra que permitia a prisão na segunda instância. E as pessoas tendem a atribuir ao governo culpas que são do Supremo. Isso é verdade. Mas é sempre mais fácil escolher culpados do que assumir culpas.

Hoje, quando a corrupção domina a conversa numa rodinha, é impossível mudar de assunto. Pode-se, no máximo, mudar de suspeito. Nesse ambiente, o governo deveria lidar com os maus costumes com tolerância zero. E não é o que ocorre. Bolsonaro está cercado de suspeitos: o filho investigado, ministro denunciado no escândalo do laranjal, um líder enrolado na Lava Jato, o diabo.

Sergio Moro disse na entrevista que "o governo está trabalhando com afinco para o restabelecimento da prisão em segunda instância". Não é bem assim. O ministro até frequenta o debate do lado certo. Mas o líder de Bolsonaro no Senado, Fernando Bezerra, coleta assinaturas para evitar que seja votado entre os senadores o projeto sobre prisão. E Bolsonaro encara a encrenca da segunda instância com um semblante de ex-Bolsonaro. Quando não cala, o presidente faz declarações flácidas.

Num cenário assim, em que a memória fraca se confunde com a consciência limpa, o brasileiro tem dificuldade para enxergar inocentes no palco. Consolida-se a sensação de que os corruptos são encontrados em várias partes do mundo —quase todas no Brasil. E a leniência do Supremo não explica tudo. Eleito como parte da solução, Bolsonaro oferece material para que seus próprios eleitores comecem a enxergá-lo como parte do problema.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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