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Categoria : Colunas

PSDB fez uma opção preferencial pelo vexame
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Josias de Souza

Em política, uma reunião partidária serve apenas para tirar as fotografias de um consenso combinado previamente. O PSDB decidiu inovar. Transformou um encontro de cúpula num espetáculo de autodesmoralização. Presidente provisório da legenda, Tasso Jereissati desperdiçara o tempo alheio vendendo na semana passada a ilusão de que os tucanos saltariam da frigideira do governo Temer. Encerrada a reunião, descobriu-se que os tucanos, que já estavam fritos, resolveram esticar sua permanência no óleo quente.

“Minha posição foi vencida”, disse Tasso, lamentando a trinca. “A pior coisa para o Brasil e o partido é o PSDB se dividir”, declarou José Serra, tentando disfarçar a rachadura. Defensor do rompimento, o deputado Eduardo Cury (SP) escancarou a fenda ao antecipar que votará a favor da abertura da ação penal contra Temer quando o STF enviar à Câmara a denúncia da Procuradoria contra o presidente: “Eu não sou governo.”

O PSDB acorrentou sua reputação —ou o que resta dela— a um governo em franca erosão moral. Fez isso sob a alegação de que está preocupado com o país e com as reformas econômicas. O patriotismo reformador tornou-se uma espécie de pé-de-cabra ideológico. Abre as portas para todo tipo de aliança e maracutaia praticada em nome da “governabilidade”.

Os diálogos de Aécio Neves com o delator Joesley Batista ofereceram ao tucanato 2 milhões de motivos para expulsá-lo. A presença de Geraldo Alckmin, de José Serra e do próprio Aécio no escândalo da Odebrecht já intimava a legenda a adotar providências saneadoras. Ao se fingir de morto, o PSDB repete o erro que cometera com Eduardo ‘Valerioduto’ Azeredo. E estimula na plateia a suspeita de que é a corrupção que aproxima o PSDB do PMDB, não o interesse público.

Num cenário decente, político pilhado em escândalo como a Lava Jato é expurgado do partido ofendido. Quando isso não acontece, é o partido que ofende o eleitorado. Se o partido vincula-se a outra legenda ainda mais apodrecida, o propósito não é o de combater a bandalheira, mas institucionalizá-la.

O PSDB ainda se considera a medida de todas as coisas. Mas as pesquisas presidenciais indicam que o eleitorado já está adotando outros sistemas de medição. O mais irônico é que os tucanos se abraçam a Temer sem levar em conta que o PSDB nasceu de uma dissidência que abandonou o PMDB para não chamar bandoleiro de companheiro. Ao fazer sua opção preferencial pelo vexame, o tucanato reforça dois ensinamentos:

1) Quem sai aos seus não endireita.

2) Em política, nada se cria, nada se copia, tudo se corrompe.


Temer não sai nem é retirado, ele se degrada
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Josias de Souza

O Brasil já teve o Getúlio, que se matou. Teve o Tancredo, que morreu. Teve o Jânio, que saiu. Teve o Collor e a Dilma, que foram retirados. Quando Temer declarou numa entrevista “se quiserem me derrubem, porque eu não renuncio”, ficou entendido que o drama agora é diferente. Não é o Brasil que tem um presidente é o presidente que acha que tem o Brasil. A crise atingiu um estágio de paralisia institucional. Temer não sai nem é retirado, ele se degrada no cargo.

Um presidente com a ética sub judice que, depois dos três anos em que a Lava Jato vem informando que o país foi saqueado pelos esquemas que continuam no poder, consegue dizer que todos têm que aturar a podridão para não comprometer as reformas ou é um cínico ou é um lunático —em nenhum dos dois casos é o presidente que o Brasil precisa.

Temer permanece no cargo porque se tornou o presidente mais conveniente para a banda podre da política, hoje majoritária e hegemônica. Seu governo virou uma superestrutura a serviço do acobertamento do ilícito. Depois de ser absolvido no Tribunal Superior Eleitoral por excesso de provas, Temer ajeita as coisas para que a Câmara impeça, por insuficiência de votos, o Supremo Tribunal Federal de convertê-o em réu. O presidente celebra com seus aliados suspeitos acordos do tipo uma mão suja a outra.

Sem alarde, o Planalto faz um mapeamento da composição da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, primeira escala da denúncia criminal que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, fará contra Temer. Líderes de partidos que compõem a infantaria governista combinaram de substituir na CCJ eventuais defensores da investigação.

Temer está cada vez mais parecido com Eduardo Cunha. A diferença é que Cunha usava a estrutura da Câmara. E Temer abusa da engrenagem de todo o governo. É um caso clássico de obstrução da Justiça. Se não desfrutasse das imunidades inerentes ao cargo, Temer talvez estivesse preso na companhia do ex-assessor Rodrigo Rocha Loures, na penitenciária da Papuda.

O presidente, seus principais auxiliares e apoiadores não enxergam culpados no espelho. Acham que o governo é vítima de uma conspiração. Impossível governar assim, dizem. Fica um ambiente desagradável, o presidente tendo que (não) responder a interrogatório da Polícia Federal, dando satisfação a qualquer pé de chinelo da imprensa… Quem é que consegue encaminhar as reformas desse jeito?


Uma lápide para o TSE: ‘Coveiro de prova viva!’
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Josias de Souza


Ao concluir a leitura do voto em que recomendou a cassação da chapa Dilma-Temer, o relator Herman Benjamin soou fúnebre. Suas frases tiveram o peso de uma de lápide. Foi como se o ministro desejasse espargir a atmosfera malcheirosa do plenário do Tribunal Superior Eleitoral, borrifando no noticiário o cheiro de enxofre. “Eu, como juiz, recuso o papel de coveiro de prova viva”, disse Benjamin. “Posso até participar do velório. Mas não carrego o caixão.”

A maioria dos ministros do TSE decidiu mandar à sepultura as provas testemunhais e documentais referentes à Odebrecht e ao casal de marqueteiros João Santana e Monica Moura. Benjamin, entretanto, fez questão de manter em seu voto todo o pulsante conjunto probatório. Com isso, escancarou o que já estava na cara: a política brasileira tem código de barras.

O TSE esbarra no óbvio há tempos. Nos útlimos dois anos, o óbvio agigantou-se. E parte do tribunal resolveu passar adiante, fingindo não enxergar o óbvio. Pior: decidiu enterrar o óbvio. O número mais constrangedor do momento histórico vivido pela Justiça Eleitoral é este julgamento que não pode ser feito porque as provas foram eliminadas do espetáculo. Tribunal que mata provas comprova ter certa vocação para a morte. Para salvar Michel Temer, o TSE suicida-se. O relator forneceu a inscrição para a lápide: “Aqui jaz um coveiro de provas vivas.”


No TSE, placar é conhecido antes do fim do jogo
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Josias de Souza


Relator do processo sobre as ilegalidades atribuídas à campanha da chapa Dilma-Temer, Herman Benjamin iniciou às 15h16 a leitura do pedaço do seu voto referente ao mérito da causa. O texto expõe algo que o representante do Minitério Público, Nicolao Dino, chamou de metástase. Num julgamento convencional, os ministros do TSE aguardariam o final da leitura para proferir os seus votos. Deu-se, porém, o que todos suspeitavam. O jogo já estava jogado. Horas antes, pela manhã, os debates sobre questões preliminares esboçaram um placar de 4 a 3 a favor das teses da defesa, que salvarão o mandato de Michel Temer e os direitos políticos de Dilma Rousseff.

Os julgamentos no TSE sempre foram muito parecidos com as partidas de futebol. Mas o campo não é bem demarcado, a bola é quadrada, vale impedimento, caneladas contam ponto a favor e os juízes não expulsam senão jogadores pernas de pau. No processo sobre a chapa Dilma-Temer, o tribunal tinha a oportunidade de modificar o velho hábito de conviver com a impostura. Mas prevaleceu o conchavo. Depois de transformar a auditoria nas contas do comitê vitorioso em 2014 num marco histórico, o TSE decidiu marcar um gol contra. Jogou no lixo o grosso do resultado do trabalho. Já não se sabe nem mesmo se o caixa dois deve ser penalizado.


Os trangressores consagraram um bordão: “Eu não sabia”. Com a ajuda da Lava Jato, o TSE soube. Mas optou por fechar os olhos. Decidiu, por exemplo, que tudo o que foi descoberto sobre os R$ 150 milhões em verbas sujas que a Odebrecht empurrou para dentro das arcas eleitorais deve ser ignorado. Além de se autodesmoralizar, os magistrados eleitorais decidiram ofender a inteligência da plateia.

Diante de tudo o que a Lava Jato deixou evidente, alguns ministros do TSE flertam com a cumplicidade. A omissão dos magistrados virou inconsciência. Impossível a qualquer ser humano que não tenha chegado há cinco minutos de Marte negar a promiscuidade. Ela não está apenas na campanha. E não adianta pular as páginas do processo ou dos jornais. De repente, a promiscuidade está na imagem refletida no espelho. Ela exige pelo menos um sentimento das autoridades, nem que seja uma cara de nojo. Mas certos ministros preferem imitar o avestruz.


Relator do voto que impediu em 2015 o arquivamento do processo contra a chapa Dilma-Temer, Gilmar Mendes, hoje presidente do TSE, dissera há dois anos que a investigação era indispensável para evitar que a Justiça Eleitoral fizesse o papel de “São Jorge em prostíbulo”, fechando os olhos para a promiscuidade ao redor. Aconteceu algo pior. O TSE virou uma espécie de São Jorge que foi salvar a donzela e acabou casando com o dragão. O relator Herman Benjamin ficou rouco de tanto citar trechos do voto daquele Gilmar de dois anos atrás. Chamou o texto do colega, referendado pelo plenário do TSE por 5 votos a 2, de “bíblia”


Temer leva a vaca ao brejo nas asas do Aerosley
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Josias de Souza

Michel Temer aprende da pior maneira que um homem público jamais deve dizer uma mentira que não possa provar. Menos de 24 horas depois de desmentir, o presidente foi forçado pelas evidências a admitir que voou num jato de Joesley Batista, da JBS, em janeiro de 2011. Ele não foi o primeiro grão-duque a requisitar asas amigas. Mas inovou nas explicações.

A nota divulgada pelo Palácio do Planalto vale o desperdício dos 30 segundos necessários para sua leitura: “O então vice-presidente Michel Temer utilizou aeronave particular no dia 12 de janeiro de 2011 para levar sua família de São Paulo a Comandatuba, deslocando-se em seguida a Brasília, onde manteve agenda normal no gabinete. A família retornou a São Paulo no dia 14, usando o mesmo meio de transporte. O vice-presidente não sabia a quem pertencia a aeronave e não fez pagamento pelo serviço.”

O melhor pedaço do texto é a última frase. Nela, o Brasil foi informado de que é presidido pela única pessoa no planeta que desconhece a identidade de um amigo capaz de lhe ceder um jato gratuitamente. A coisa fica mais complicada quando se verifica que o autor da generosidade é o mesmo sujeito que Temer recebeu no escurinho do Jaburu e com quem manteve o diálogo vadio que lhe rendeu um inquérito criminal.

O sobrenome Batista não traz boa sorte aos nobres do PMDB. No mesmo ano de 2011, Eike Batista admitiu o empréstimo do seu jatinho Legacy para que o então governador Sérgio Cabral se deslocasse até um resort na Bahia, onde se realizava a festa de aniversário de outro amigo: Fernando Cavendish, dono da Delta. Temer já deve ter notado que Cabral, seu companheiro de partido, não é um bom exemplo. Mas tornou-se um fantástico aviso. Coleciona dez ações penais e leva a vida atrás das grades. Seus amigos arrastam tornozeleiras eletrônicas em casa.

Temer precisa tomar cuidado. A tal orquestração de que ele tanto se queixa realmente existe. Mas está no governo, não na Procuradoria-Geral de Rodrigo Janot ou no Supremo Tribunal Federal de Edson Fachin. Participam da orquestração ministros que levam investigações na flauta, aliados montados na gaita, ex-assessor pegando uma nota preta, Jucá batendo o bumbo anti-Lava Jato, Renan desafinando com a boca no trombone, a JBS na regência e o presidente dançando conforme a música, sem se dar conta de que virou uma caricatura de pouco discernimento – um ser incapaz de perceber o óbvio: alguém que leva a vaca para o brejo nas asas do Aerosley dispensa conspirações inimigas.


TSE: relator desnuda acordo para salvar Temer
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Josias de Souza


Tomado pelo teor de suas manifestações no julgamento sobre a chapa Dilma-Temer, o ministro Herman Benjamin parece empenhado em impedir o Tribunal Superior Eleitoral de se matar. Armou-se no plenário da Corte máxima da Justiça Eleitoral uma encenação destinada a salvar o mandato de Michel Temer e, de cambulhada, preservar os direitos políticos de Dilma Rousseff. Parte do TSE deseja julgar o caso num país alternativo, um Brasil sem Odebrecht. E Benjamin, relator do processo, desnuda a manobra. É como se ele quisesse escancarar o comportamento de alto risco, oferecendo aos julgadores a oportunidade de livrar a Justiça Eleitroal da autodesmoralização.

Conforme já noticiado aqui, as defesas de Temer e Dilma se juntaram para excluir do processo todas as provas recolhidas sobre as doações tóxicas da Odebrecht à campanha vitoriosa na disputa presidencial de 2014. Alega-se que, ao interrogar delatores da construtora, Benjamin injetou no processo fatos novos, o que seria ilegal. O relator demonstrou que não fez senão investigar tópicos inseridos na petição inicial do PSDB, autor da ação. Fez isso, segundo deixou claro como água de bica, respaldado por jurisprudência do STF e seguindo deliberações tomadas pelo próprio TSE. Escorou-se especialmente em decisão tomada em 2015 a partir de um voto de Gilmar Mendes, amigo de Temer e presidente da Corte Eleitoral. Sob atmosfera eletrificada, Benjamin e Gilmar voltaram a trocar farpas (repare no vídeo abaixo).

A certa altura, Benjamin declarou, com outras palavras, que ignorar a Odebrecht corresponderia a algo como fechar os olhos para uma manada de elefantes: “Só os índios não contactados da Amazônia não sabiam que a Odebrecht havia feito colaboração premiada. Se isto não é fato notório e público, não existirá outro. […] Todos nós sabíamos disso —todos nós que estamos aqui, fato público e notório.”

Benjamin já insinuara na noite da véspera que escoraria seus argumentos contra o expurgo das provas da Odebrecht em voto proferido por Gilmar Mendes. Foi com base nesse voto que o TSE rejeitou, em 2015, por 5 votos a 2, o arquivamento da ação do PSDB contra a chapa Dilma-Temer. Mais: o tribunal decidiu aprofundar a investigacão. Antes de inquirir delatores do petrolão, Benjamin requisitou ao STF e ao juiz Sergio Moro informações sobre a Lava Jato. Na sessão desta terça-feira, realçou o inusitado que seria ignorar a essa altura o resultado da apuração.

“O que fazer com isso?”, indagou o relator. E Gilmar Mendes: “Agora, Vossa Excelência teria mais um desafio: manter o processo aberto e trazer as delações da JBS. E talvez, na semana que vem, as delações de Palocci —para mostrar que o argumento de Vossa Excelência é falacioso”. Benjamin rebateu o colega. Disse que se ateve aos termos da petição que deu origem ao processo, que falava de Petrobras e Odebrecht, mas não mencionava JBS nem Antonio Palocci.


Só a partir da manhã desta quarta-feira, Benjamin começará a ler a parte do seu voto referente ao mérito da causa. Deve posicionar-se a favor da cassação do mandato de Temer e da inabilitação de Dilma para pedir votos pelo período de oito anos. Mas a exclusão das provas relacionadas à Odebrecht deixaria manco o voto do relator, abrindo caminho para livrar Temer e Dilma de punições.

Considerando-se as manifestações iniciais, apenas dois ministros soaram como se tendessem a acompanhar o relator: Luiz Fux e Rosa Weber. Outros três deram a entender que pendem para o outro lado: Gilmar Mendes, Napoleão Nunes Maia e Admar Gonzaga. O Planalto espera que o ministro Tarcísio Veira Neto engrosse esse bloco, formando uma maioria de 4 a 3 contra a condenação.

A estratégia adotada por Benjamin é óbvia. Ao expor a manobra, o ministro tenta reverter o resultado. A tática é arriscada. Pode agravar a situação. Quanto mais o relator desnuda o TSE, mais desmoralizado o tribunal fica. A Corte talvez já não consiga resistir aos impulsos autodestrutivos. Submetido a um processo inédito, envolvendo irregularidades cometidas por uma chapa presidencial, o TSE poderia fazer história. Mas alguns ministros parecem mais inclinados a pôr fogo às vestes, suicidando a Justiça Eleitoral.

O julgamento pode se arrastar até sexta-feira. Entretanto, Michel Temer já discursa como se tivesse a certeza de que o TSE não ousará levar seu escalpo à bandeja (ouça abaixo).


Crise do governo Temer não terminará no TSE
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Josias de Souza

A crise que desnorteia o governo de Michel Temer sobreviverá ao julgamento do Tribunal Superior Eleitoral sobre a chapa vitoriosa em 2014. Há 20 dias, a pergunta que incomodava o presidente era: “Será que ele conseguirá aprovar as reformas?” Hoje, a interrogação que persegue Temer é outra: “Será que ele terminará o mandato?” E o espetáculo do TSE, seja qual for o veredicto, não modificará essa realidade.


Na hipótese que o governo considera mais benigna, os prognósticos de Temer se confirmarão e o TSE afastará a lâmina do seu pescoço. Neste caso, Temer continuaria com a cabeça a prêmio no inquérito que responde no Supremo Tribunal Federal. Ali, o presidente está na bica de subir de status: passará de investigado a denunciado até a próxima semana.

Na pior hipótese, o TSE passará o mandato Temer na lâmina. E o presidente lançará mão de todos os recursos judiciais ao seu alcance para tentar reverter a sentença —primeiro, no próprio TSE. Depois, no Supremo. Neste cenário, o presidente ficaria tão absorvido pela crise que não teria tempo nem disposição para tratar de tarefas menores como, digamos, governar.

Noutros tempos, o governo soltaria fogos se alcançasse no TSE a graça divina de um pedido de vista que adiasse o julgamento. Hoje, a fuga já não serve de lenitivo para Temer. O PSDB, principal aliado do governo no Congresso, não parece disposto a acrescentar aos seus incômodos o fardo da cumplicidade em movimentos inexplicáveis.

“Se houver manobras dilatórias no TSE, o PSDB correrá o risco de coonestar o que o povo não quer e a economia não suporta, ajudando o governo a empurrar a situação com a barriga?”, indagou Fernando Henrique Cardoso, o sábio do ninho, em artigo publicado no domingo.

O próprio FHC cuidou de sinalizar a resposta: “…Apoiei a travessia e espero que a pinguela tenha conserto. E se não? E se as bases institucionais e morais da pinguela ruírem? Então caberá dizer: até aqui cheguei. Daqui não passo. Torçamos para que não sejamos obrigados a tal. Se o formos, e o tempo corre, assumamos nossas responsabilidades históricas com clareza diante do povo e das instituições.”

Ao assumir a poltrona de Dilma, há um ano, Temer fazia pose de restaurador econômico. Esforçava-se para imprimir na sua biografia a marca das reformas liberais. Desprezado pelas ruas, adulou o condomínio fisiológico do Congresso e ganhou a simpatia do empresariado. A plutocracia fingiu não ver o rastro pegajoso de PMDB que Temer carregava atrás de si.

Depois que a delação hiper-premiada de Joesley Batista, da JBS, ganhou as manchetes, ficou ainda mais evidente que Temer faz parte da gosma. Fragilizando-se o seu suporte Legislativo, ficará claro também que a reforma da Previdência foi para as cucuias. E a nata do PIB brasileiro não dará a Temer nem bom dia.

No momento, são três as prioridades máximas de Temer: manter fechada a boca de Rodrigo Rocha Loures, o ex-assessor filmado correndo com a mala da propina de R$ 500 mil da JBS, fingir que ainda preside e não cair. Temer enxerga fantasmas em toda parte: no STF, na Procuradoria-Geral da República, na Polícia Federal… Todos são culpados pela crise, menos o presidente.

O que ainda mantém Temer na Presidência é o desentendimento dos seus aliados quanto à escola de um substituto. Antes de responder à pergunta incontornável — ‘Será que ele que termina o mandato?’— os protagonistas da eleição indireta terão de decodificar a senha que pode livrar o sistema do beco-sem-saída. Passa pela resolução do seguinte mistério: quem colocar no lugar?


Temer falará à PF como presidente ou suspeito?
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Josias de Souza

O que assusta no tsunami político-policial que engolfa Michel Temer é a rapidez com que seu governo vai virando destroço. Há duas semanas, Temer guerreava pelas reformas modernizantes. Nesta segunda-feira, recebeu da Polícia Federal 84 perguntas sobre uma recaída arcaica: o encontro noturno que manteve com o corrupto confesso Joesley Batista, no Palácio do Jaburu. Temer terá 24 horas para responder. As questões são aviltantes e constrangedoras.

Autorizado pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, o interrogatório é aviltante porque o brasileiro não merecia uma nova crise envolvendo a autoridade máxima da República. O depoimento é constrangedor porque as perguntas que Temer recebeu da PF são mais embaraçosas do que as respostas que o presidente não terá condições de dar.

A hipótese de Temer sair ileso de uma experiência como esta é inexistente. Seus advogados alegam que o interrogatório é prematuro, pois ainda não ficou pronta a perícia no áudio da conversa que Joesley gravou às escondidas. Porém, conforme realçado aqui, o presidente endossou trechos do diálogo, incriminando-se.

Fachin recusou-se a postergar o depoimento. Lembrou que, se quiser, Temer pode usufruir do direito constitucional de calar para não se autoincriminar. Nesta hipótese, assumirá um comportamento típico dos culpados.

A grande dúvida nacional deixou de ser: ‘com gás ou sem gás?’ Ou ainda: ‘com açúcar ou adoçante?’ A pergunta que inquieta os brasileiros é: Michel Temer ainda tem condições de responder ao interrogatório da PF como presidente da República ou foi reduzido à condição de suspeito?


Temor de delação expõe a fragilidade de Temer
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Josias de Souza

A prisão de Rodrigo Rocha Loures potencializou um fenômeno surgido há duas semanas em Brasília. Tomados por uma espécie de Loresfobia, Michel Temer, seus ministros e apoiadores políticos mais próximos vivem o temor de uma delação que está por vir. O presidente poderia imunizar-se contra o risco de intoxicação. Bastaria romper com o amigo e ex-assessor, desqualificando-o. Mas Temer faz o oposto. Elogia publicamente um personagem que foi preso por traficar influência e receber do Grupo JBS uma mala com propina de R$ 500 mil. Temer soa como refém do potencial delator. É como se o adulasse em troca de proteção.

Temer e seus operadores esboçam o discurso que pretendem esgrimir na hipótese de Rocha Loures se tornar um colaborador da Justiça. Dirão que ele foi vítima de uma cilada urdida por um empresário desonesto, Joesley Batista, em parceria com uma Procuradoria que conspira contra a estabilidade do governo. Afirmarão, de resto, que não há na atual gestão nenhum vestígio de favores que o governo possa ter prestado à JBS em troca da mala de dinheiro que Rocha Loures, num misto de confissão e arrepemento, devolveu depois de ter sido filmado.

A versão do procurador-geral Rodrigo Janot é mais simples. Para ele, Rocha Loures agiu como um “verdadeiro longa manus” do presidente. Quer dizer: indicado por Temer como a pessoa de sua “estrita confiança” a quem Joesley deveria encaminhar as pendências da JBS no governo, Rocha Loures representa um prolongamento da mão do próprio presidente. Nessa versão da Procuradoria, as digitais que aparecem na mala são do preposto de Temer. Mas o dinheiro destinava-se ao próprio presidente —exatamente como informaram os delatores da JBS em seus depoimentos.

Temer pode espernear como quiser. Pode repetir que o áudio em que soou indicando Rocha Loures a Joesley foi editado. Pode afirmar que os delatores da JBS foram tratados a pão de ló por Janot. Pode insistir na tese de que o ministro Edson Fachin, que mandou prender Rocha Loures, não é o juiz natural do caso. Mas nada vai apagar a impressão de que falta alguma coisa à reação oficial. Há no discurso do governo como um todo e nas palavras do presidente em particular um déficit de indignação.

Ao referir-se a Rocha Loures numa entrevista com pessoa “de boa índole, de muito boa índole”, Temer abusou da paciência da plateia. Ao sustentar noutra entrevista que o ex-assessor, não é senão “vítima de uma armação”, o presidente ofendeu a inteligência alheia. É como se a autoridade máxima da República pedisse ao brasileiro para fazer o papel de bobo. É como se rogasse aos patrícios que, pelo bem da nação, fingissem não notar a fragilidade do presidente.


2018 trava as articulações para substituir Temer
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Josias de Souza

De todas as definições sobre política, a que mais se aplica ao cenário atual é uma de Jânio Quadros. “Política é como fotografia, se mexe muito não sai”, dizia Jânio. Nas últimas duas semanas, caciques do Congresso se mexeram freneticamente à procura de um substituto para o presidente da República. E o nome não saiu. Em consequência, Temer foi ficando. Mesmo crivado de suspeições, ele se tornou o presidente mais conveniente para os atores que se imaginam em condições de participar da disputa presidencial de 2018 em contraposição ao PT e seus satélites.

Principal escora do Palácio do Planalto no Legislativo ao lado do PMDB, o PSDB aproximaria Temer da porta de saída se abandonasse o governo à própria sorte. Mas o tucanato, um agrupamento de amigos 100% feito de inimigos, não consegue se entender nem consigo mesmo. O senador Tasso Jereissati adoraria sentar-se na poltrona de Temer. Já se deu conta, porém, de que não se elegeria porteiro do Congresso numa eleição indireta. Tasso nem precisa de inimigos. Seu maior adversário é o amigo Geraldo Alckmin.

Imaginando-se menos ferido na Lava Jato do que os correligionários Aécio Neves e José Serra, o governador tucano de São Paulo reivindica o primeiro lugar na fila de presidenciáveis do PSDB. E Alckmin concluiu que, se fosse acomodado no lugar de Temer, Tasso não desocuparia o assento em 2018. Agora, todos dizem estar preocupados com o país, não com a reeleição. Mas Alckmin não ignora que, em política, a suprema ambição é não tê-la.

Estimulado por outros governadores e por apologistas do seu projeto presidencial, Alckmin pensou em disputar, ele próprio, o cargo de presidente pela via indireta. Desistiu depois de constatar que entraria na disputa como candidato favorito a fazer do deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) o próximo presidente da República.

No comando da Câmara, Rodrigo Maia assumiria o Planalto em caso de queda de Temer, para convocar a eleição indireta em 30 dias. Assim determina a Constituição. Com a caneta de presidente e o Diário Oficial à disposição, Maia compraria a simpatia dos colegas para esticar sua permanência no Planalto. E sua prioridade, para desassossego de Alckmin, passaria a ser a reeleição.

A desunião entre PSDB e DEM retarda a formação de um complô parlamentar capaz de abreviar o mandato de Temer. Parte da infantaria do tucanato ameaça tomar distância do governo na próxima semana. Mas não há, por ora, sinais de que a cúpula da legenda se associará a uma hipotética insurreição. E mesmo os deputados sublevados informam que um eventual rompimento não significará o abandono da pauta de reformas econômicas. Quer dizer: para Temer, o jogo pode terminar em zero a zero.

O Congresso Nacional abdicou da prerrogativa de governar a crise. Prefere ser governado por ela. Só deve agir se Temer for cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral —uma hipótese que parece preocupar cada vez menos o Planalto. O procurador-geral da República Rodrigo Janot assa no forno da Lava Jato uma denúncia contra Temer, a ser protocolada no Supremo Tribunal Federal nos próximos dias. Entretanto, essa denúncia só irá adiante se a Câmara autorizar. E Temer começa a oferecer aos deputados milhões de razões para enterrar a iniciativa.

No mais, como Temer não se dispõe a repetir Jânio Quadros, que entrou na história pela porta da renúncia, o grande risco à estabilidade de sua Presidência é a ação de amigos como o ex-assessor Rodrigo Rocha ‘Imponderável’ Loures. O homem da mala de R$ 500 mil frequenta a crise como uma delação premiada esperando na fila para acontecer. Dependendo do que disser, Loures pode revolucionar a condição penal de Temer. De primeiro presidente da história a ser investigado por corrupção, organização criminosa e obstrução de justiça, Temer passaria à condição de denunciado e candidato a réu em pleno exercício do cargo.