Blog do Josias de Souza

Categoria : Vídeos

Tucanato engasga com Bonifácio e engole Aécio
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Josias de Souza

Num esforço para tomar distância do relatório que servirá de base para o enterro da segunda denúncia contra Michel Temer, o PSDB executa uma coreografia confusa. Afastou da Comissão de Justiça da Câmara o deputado Bonifácio de Andrada, o tucano escalado pelo Planalto para fazer o papel de coveiro. O afastamento é cenográfico, pois Bonifácio continua responsável pela redação do relatório fúnebre da denúncia. Mas os tucanos gritam: “Já não temos nada a ver com isso.”

Do outro lado da Praça dos Três Poderes, despacha Michel Temer, um presidente com duas denúncias nas costas, que se orgulha de manter no seu ministério quatro representantes do PSDB. O coordenador político de Temer, por exemplo, é o ministro Antonio Imbassahy, um deputado tucano. Os partidos do centrão, enciumados, pedem a cabeça de Imbassahy. Mas Temer não entrega.

Enquanto lava as mãos em relação a Bonifácio de Andrada, o pedaço anti-governista do PSDB assiste inerte ao derretimento de Aécio Neves, o grão-tucano que mantém com Michel Temer uma fraternidade penal do tipo ‘uma mão suja a outra’. Ao fazer barulho contra Bonifácio e silenciar sobre Aécio, o bloco anti-Temer do PSDB acomoda no final da sua coreografia um abraço fraternal entre a pureza e a incoerência. Eles parecem supor que a plateia é composta de bobos.


Endividado? Declare-se extinto e vire uma igreja!
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Josias de Souza

Às vésperas do enterro da segunda denúncia contra Michel Temer, a Câmara arranca do governo todas as vantagens que o déficit público pode financiar. Insatisfeitos com tudo o que já obtiveram em cargos e verbas, os deputados querem mais. Aprovaram na noite passada a penúltima versão do Refis, o programa de refinanciamento de débitos tributários. Armou-se uma grande farra.

Nos últimos 15 anos, foram lançadas sucessivas versões do Refis. Como a carga tributária no Brasil é exorbitante, imagina-se que a iniciativa seja boa. Engano. Hoje, há dois guichês na Receita. Num, quem deve paga suas dívidas. Noutro, quem sonega é premiado com descontos generosos e financiamentos camaradas. Ao notar que é tratado como imbecil, o contribuinte em dia com o fisco interrompe o pagamento e entra na fila do próximo Refis, que deveria se chamar Programa de Estímulo à Sonegação.

O novo Refis parcela dívidas tributárias com perdão de 90% dos juros e 70% das multas. A medida inclui uma automamata: Há na Câmara 291 deputados pendurados na Receita. Devem R$ 1 bilhão. No Senado, há 46 sonegadores. Devem R$ 2 bilhões.

A bancada da Bíblia enfiou na proposta o perdão de dívidas de igrejas e escolas a elas vinculadas, incluindo débitos com a Previdência, já quebrada. A falta de pudor oferece uma saída ao brasileiro endividado. Declare-se extinto como pessoa física. E se reorganize como igreja. Você passará a viver em permanente estado de graça. Amém.

– Atualização feita às 14h54 desta quinta-feira (5): Aprovado na Câmara, o Refis foi enviado ao Senado. Os senadores aprovaram a encrenca em votação simbólica. Por acordo, retiraram do texto o refresco que a bancada da Bíblica servira às igrejas. Outras mamatas sobreviveram. A proposta seguiu para a sanção de Michel Temer.


Cármen Lúcia faz do STF puxadinho do Senado
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Josias de Souza

Sob a presidência de Cármen Lúcia, o Supremo Tribunal Federal parece trilhar um caminho novo e perigoso. Muito já se ouvir falar da judicialização da política. Pois Cármen Lúcia promove a politização da Justiça. Desde a semana passada, quando a Primeira Turma do Supremo suspendeu o mandato de Aécio Neves e proibiu o tucano de sair de casa à noite, a ministra atua mais como articuladora política do que como magistrada.

Não é a primeira vez que isso ocorre. Cármen Lúcia já havia trocado a toga pela articulação política no final do ano passado, quando se mobilizou para evitar o afastamento do réu Renan Calheiros da Presidência do Senado. Agora, a presidente do Supremo parece buscar uma porta de emergência pela qual o denunciado Aécio Neves possa escapar da fornalha da Primeira Turma do tribunal.

A situação é simples. Uma turma do Supremo impôs sanções cautelares a um senador que recebeu R$ 2 milhões de um corruptor. Fez isso com base na lei. O Senado se rebelou. Decisão do Supremo se cumpre, deveria ter dito Cármen Lúcia. Os insatisfeitos, que recorram ao próprio Supremo. Mas a ministra preferiu reunir-se com parlamentares e desengavetar uma ação de ex-aliados de Eduardo Cunha, que pode ser útil para Aécio. Com isso, transformou o Supremo num puxadinho do Senado. Fica-se com a sensação de que a democracia brasileira é feita de três Poderes: o Executivo, o Judiciário, e os aécios, intocáveis do Legislativo.


Suposta prosperidade não dispensa honestidade
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Josias de Souza

Num instante em que a Câmara inicia o funeral da segunda denúncia criminal contra Michel Temer, a procuradora-geral da República Raquel Dodge pede ao Supremo Tribunal Federal que autorize a Polícia Federal a interrogar o presidente da República. Deseja-se ouvi-lo sobre a suspeita de recebimento de propina da Rodrimar, empresa que atua no Porto de Santos. Ou seja: a ocultação de cadáveres não impedirá que o melado continue escorrendo.

A reputação dos políticos é o resultado da soma dos palavrões que eles inspiram nos bares, nas calçadas, nas salas de visita. Pesquisa do Datafolha ajuda a entender o mau humor. O brasileiro rejeita a ideia do mal menor, do ‘rouba, mas faz’: 74% disseram discordar da tese segundo a qual “se um governante administra bem o país, não importa se ele é corrupto ou não.”

O Datafolha informa que 89% dos brasileiros são favoráveis à abertura de investigação contra Temer por formação de organização criminosa e obstrução à Justiça. O presidente dá de ombros. Sua equipe diz que tudo vai melhorar, pois a economia reage e o Planalto prepara campanha de marketing para apresentar Temer como presidente da virada. É como se Temer considerasse que a suposta prosperidade dispensa o governante da honestidade. É mesmo inesgotável o desejo de fazer o brasileiro de idiota. Mas começa a faltar material.


Em vez de salvar o Aécio, deveriam matar o foro
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Josias de Souza

Há no Brasil mais de 220 mil presos provisórios. São brasileiros pobres que mofam esquecidos nas cadeias à espera de um julgamento. Mas Brasília vive um curto-circuito desde que a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal proibiu Aécio Neves de sair de casa à noite. Num esforço para desligar a crise da tomada, a presidente do Supremo, Cármen Lúcia, prometeu ao presidente do Senado, Eunício Oliveira, que levará a julgamento em 11 de outubro uma ação que sustenta que as sanções contra parlamentares têm de ser aprovadas pela Câmara e pelo Senado. Numa palavra: deseja-se a restauração da impunidade.

Aécio e sua irmã foram gravados pedindo R$ 2 milhões ao corruptor Joesley Batista. Um primo de Aécio foi filmado recebendo mochilas com dinheiro. Um amigo de Aécio foi pilhado ocultando parte da verba. Diante de tudo isso, ministros que chegaram ao Supremo com o aval do Senado aplicaram uma lei aprovada pelos senadores para afastar Aécio do mandato e proibi-lo de sair de casa à noite. E os senadores agora informam que a lei que eles aprovaram para criar punições diferentes da prisão clássica vale para qualquer brasileiro, menos para eles.

Enquanto o plenário do Supremo se equipa para decidir que as punições impostas a Aécio pela Segunda Turma do mesmo Supremo não valem, permanece na gaveta há 115 dias o processo que impõe restrições ao foro privilegiado. Esse processo, se fosse julgado pelo Supremo, atenuaria o problema, pois investigações como a de Aécio desceriam para a primeira instância do Judiciário, onde mofam os 220 mil brasileiros presos sem uma sentença.

O Brasil será outro país no dia em que matar excrecências como o foro privilegiado for mais importante do que salvar da extinção a tribo dos aécios. (Relembre no vídeo abaixo pedaços da conversa vadia de Aécio com seu mecenas Joesley Batista)


Defesa da Constituição ou apego à impunidade?
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Josias de Souza

Uma das vítimas da atual crise moral é a semântica. Quando os senadores chamam a gritaria contra as restrições que o Supremo Tribunal Federal impôs a Aécio Neves de defesa da Constituição, você sabe que está diante de uma crise de significado ou numa roda de cínicos. Quando a supostra defesa da Constituição tem como principal porta-voz o senador Renan Calheiros, você percebe que a crise de significado é terminal.

Quatro dezenas de senadores investigados no Supremo circulam pelo Senado como se nada tivesse sido descoberto sobre eles. Desmascarados, continuam apresentando projetos, votando leis, mordendo verbas do orçamento e indicando apadrinhados para cargos públicos. Além do escudo do foro privilegiado, protegem-se uns aos outros.

O Senado e seus investigados tomam as dores de Aécio Neves num esforço para voltar à rotina pré-Lava Jato, restabelecendo a imensa margem de manobra que assegurava a autoproteção do sistema político. Os senadores querem voltar a um tempo em que eles mesmos faziam as leis, eles mesmos cometiam os crimes, eles mesmos se absolviam nos seus conselhos de ética. Nesse mundo particular que os senadores querem de volta, a defesa da Constituição vira um outro nome para a luta pela impunidade.


Já não dá para desancar político e poupar eleitor
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Josias de Souza

A política brasileira vive uma realidade de ópera-bufa. Mas o desfecho pode ser de tragédia. O país assiste a três atos da ópera-bufa: o nariz de palhaço que o Lula aplicou em si mesmo ao desqualificar as revelações devastadoras de Antonio Palocci, a indignação do Senado com o recolhimento domiciliar noturno que o STF impôs a Aécio Neves e o desinteresse da Câmara pela investigação de Michel Temer e a organização criminosa que a Procuradoria vê ao seu redor.

O excesso de imoralidade parece ter anestesiado a sociedade. E o sistema político aproveita para cultivar o insolúvel como uma flor do lodo. Num instante em que o Brasil vai a pique, a Câmara aprovou a medida provisória que garantiu foro privilegiado a Moreira Franco, um dos ministros denunciados junto com Temer. E o Senado gasta suas melhores energias para aprovar o fundo que derramará verbas públicas nas campanhas eleitorais sem cortar gastos.

A tragédia que pode surgir no fim de tantos atos burlescos é o descaso do eleitor brasileiro. A essa altura, seria uma irresponsabilidade desancar os políticos e poupar os eleitores. Chegou a hora de parar de tratar a política como um conto do vigário no qual o país cai a cada quatro anos. O trágico só será evitado se você tratar a eleição de 2018 como oportunidade para um acerto de contas. No foro privilegiado da urna, o juiz é você. É a hora em que o brasileiro de bem pode impedir que o político pilhado com os bens continue se dando bem.


Temer prefere perder o nexo a ser investigado
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Josias de Souza

Brasília testemunhou dois fatos que ajudam a explicar a tragédia nacional. Na Câmara, foi lida a denúncia que acusa Temer de integrar uma organização criminosa. No Planalto, Temer lançou o programa Progredir, que oferece microcrédito a brasileiros pobres. “Tudo o que fazemos é pelo bem-estar dos brasileiros”, disse o presidente.

Temer estimou em seu discurso que, dentro de 10 ou 15 anos, o Brasil talvez não precise mais de programas como o Bolsa Família, porque todos estarão empregados e felizes. Nos últimos 15 anos, houve um instante em que os brasileiros imaginaram que um novo país poderia nascer. Mas a corrupção abortou o progresso.

Contra esse pano de fundo, o Temer quadrilheiro da denúncia da Procuradoria não combina com o Temer que se autoproclama benfeitor dos pobres. Para descobrir qual é o verdadeiro, seria necessário investigar. Mas Temer prefere se tornar um presidente sem nexo a permitir que o investiguem. Assim, o país real da corrupção sonha com o país artificial do pleno emprego arrastando atrás de si o passado obscuro como um casulo pegajoso à espera de investigação.