Blog do Josias de Souza

Categoria : Outros

Briga de Temer e Joesley não pode ser apartada
Comentários 60

Josias de Souza

O presidente da República e o dono da JBS decidiram trocar insultos na frente das crianças. Joesley Batista disse que Temer é “o chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil”. Em resposta, Temer declarou que Joesley é “o bandido notório de maior sucesso na história brasileira.” Atônita, a platéia observa o espetáculo em silêncio. Não convém discutir com peritos no assunto, pois ambos podem ter razão.

Muita gente está preocupada em Brasília com os desdobramentos políticos do arranca-rabo. A turma do deixa-disso ameaça entrar em cena. A interrupção da desavença é o pior que poderia acontecer. A multidão vaiaria. E talvez gritasse, em uníssono: “Tem que manter isso, viu?”

Arranca-rabo nascido de um encontro fraternal do “chefe da quadrilha” com o “bandido notório” no escurindo do Palácio do Jaburu é um tipo de briga que pede para não ser apartada. Há um enorme interesse dos brasileiros pela continuidade do rififi. Estão todos ávidos para saber até onde os contendores permitirão que o melado escorra.

O espetáculo ficaria muito melhor se Lula e Aécio Neves —que Joesley acusa, respectivamente, de ter “institucionalizado a corrupção” e de ser “tão corrupto quanto os outros”— entrassem na confusão com a mesma disposição de cuspir fogo exibida por Temer.

As crianças na faixa etária de 5 a 90 anos ficariam esacandalizadas. Mas uma briga generalizada talvez ajudasse a esclarecer esse estranho período da história brasileira em que um governo em decomposição do PT foi substituído por uma administração podre do PMDB e a alternativa a ambos, representada pelo PSDB, não consegue demonstrar a diferença entre tucanos e protozoários.


Joesley soa como virgem de Sodoma e Gomorra
Comentários 215

Josias de Souza

De passagem pelo Brasil, o corruptor confesso Joesley Batista falou à revista Época. Apresentou-se na conversa como uma vítima de políticos achacadores. Nessa versão, se não distribuísse mimos e propinas os interesses do seu grupo empresarial seriam prejudicados. A tese da extorsão é cansativa e ofensiva. Ela cansa porque já foi usada à exaustão pelas empreiteiras pilhadas na Lava Jato. Ofende porque supõe que a plateia é feita de imbecis.

Na definição do dono da JBS, “Temer é o chefe de uma organização criminosa” que inclui Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves, Eliseu Padilha e Moreira Franco. “Essa turma é muita perigosa. Não pode brigar com eles. Nunca tive coragem de brigar com eles.” Por quê? “Para não armarem alguma coisa contra mim.” Há, hã… O problema dessa formulação é que, guiando-se por autocritérios, Joesley participa do enredo da rapinagem no papel de um anjo cercado de demônios.

As asas angelicais do entrevistado abriram-se com maior entusiasmo no instante em que ele explicou por que pagava pelo silêncio de Eduardo Cunha e Lúcio Funaro, que estão atrás das grades. “Virei refém de dois presidiários. Combinei quando já estava claro que eles seriam presos, no ano passado. O Eduardo me pediu R$ 5 milhões. Disse que eu devia a ele. Não devia, mas como ia brigar com ele? Dez dias depois ele foi preso.”

O anjo prosseguiu: “Eu tinha perguntado para ele: ‘Se você for preso, quem é a pessoa que posso considerar seu mensageiro?’. Ele disse: ‘O Altair procura vocês. Qualquer outra pessoa não atenda’.  Passou um mês, veio o Altair. Meu Deus, como vou dar esse dinheiro para o cara que está preso? Aí o Altair disse que a família do Eduardo precisava e que ele estaria solto logo, logo. E que o dinheiro duraria até março deste ano. Fui pagando, em dinheiro vivo, ao longo de 2016. E eu sabia que, quando ele não saísse da cadeia, ia mandar recados.”

Que a política virou apenas mais um ramo do crime organizado, ninguém ignora. Nessa matéria, a Lava Jato eliminou até o benefício da dúvida. Mas Joesley só está solto para dar entrevistas porque sua delação foi superpremiada pela Procuradoria-Geral da República. O delator faria um favor aos brasileiros se não exagerasse na pose.

O que há de novo no país que a força-tarefa de Curitiba desencavou é que, pela primeira vez desde as caravelas, a polícia, a Procuradoria e a Justiça invadiram os salões do clube dos corruptores, do qual Joesley Batista é sócio-atleta. O barão da carne ainda não se deu conta da aversão que sua despudorada figura passou a despertar.

Hoje, só há dois tipos de brasileiros: os desinformados e os que torcem para que os lucros que a JBS obteve no mercado financeiro manipulando a própria delação resultem em nova ação judicial. Coisa séria o bastante para levar gente como Joesley à cadeia sem prejuízo da utilização de tudo o que foi delatado para fins criminais.

Até lá, convém a Joesley não diminuir sua importância como corruptor no maior esquema de rapinagem sob investigação no planeta. Do contrário, sua voz soará nos depoimentos e nas entrevistas como ladainha de uma virgem de Sodoma e Gomorra.


Funaro diz à PF que Temer tinha pleno conhecimento de corrupção do PMDB
Comentários 70

Josias de Souza

Interessado em firmar um acordo de colaboração com a Justiça, o doleiro Lúcio Bolonha Funaro prestou depoimento à Polícia Federal no inquérito que investiga Michel Temer. Ele admitiu ter atuado como operador de esquemas que abasteceram o caixa dois do PMDB com verbas de corrupção. Declarou que Temer tinha pleno conhecimento de que as campanhas da legenda eram vitaminadas com recursos provenientes de propinas.

O depoimento de Funaro ocorreu na última quarta-feira. O conteúdo foi noticiado no site da revista Veja e no Globo. Presidente licenciado do PMDB, Temer comandou a legenda por 15 anos, até 2016. Procurado, mandou dizer que não teve conhecimento senão das doações oficiais ao partido. Funaro disse que chegou a conversar com o próprio Temer sobre o dinheiro que azeitava as arcas do PMDB. Mas o presidente da República assegura que nem conhece o doleiro.

Preso há 11 meses na penitenciária da Papuda, em Brasília, Funaro foi ouvido por cerca de quatro horas. Já se sabia que ele havia atuado como operador de esquemas de corrupção encabeçados por Eduardo Cunha, preso em Curitiba. Interessado em se tornar delator, ele jogou o PMDB na fogueira. Negou, porém, que tivesse recebido dinheiro do Grupo JBS para se manter calado.

Funaro não teve como negar, porque está filmado, o repasse de R$ 400 mil em dinheiro vivo para sua irmã , Roberta Funaro. O doleiro alegou que se trata de pagamento por serviços que ele teria prestado licitamente à empresa. Difícil será explicar por que sua irmã recebeu a verba não por meio de transferência bancária, mas num encontro sorrateiro com executivo da JBS, num estacionamento.


Mandato de Temer está salvo, avalia o Planalto
Comentários 164

Josias de Souza

Depois que o Tribunal Superior Eleitoral enterrou o processo contra a chapa Dilma-Temer e o PSDB congelou a ideia de desembarcar do governo, reina no Palácio do Planalto a tranquilidade. A calma do presidente e dos ministros palacianos contrasta com a ebulição do noticiário. Temer e seu staff avaliam que o mandato presidencial já não corre riscos. Um auxiliar do presidente declarou ao blog: “Pode anotar para me cobrar depois: não há a menor hipótese de o Rodrigo Janot [procurador-geral da República] conseguir na Câmara os 342 votos de que precisa para abrir uma ação penal contra o presidente da República no Supermo Tribunal Federal”.

Para enterrar a denúncia de Janot na Câmara, os articuladores do Planalto recorrem a uma tática ofídica. Assim como o soro que anula os efeitos da picada de cobra é extraído do veneno da própria serpente, também o antídoto utilizado para livrar Temer da Lava Jato é fornecido pela operação anticorrupção. Há na Câmara cerca de 150 deputados que respondem a inquéritos ou ações penais no Supremo. Destes, 58 foram pilhados na Lava Jato. O governo apela para o instintito de sobrevivência de sua turma.

O repórter testemunhou a conversa telefônica de um ministro de Temer com um congressista do Partido Progressista, campeão no ranking da Lava Jato, com 21 deputados encalacrados. “Se a Procuradoria e o Supremo querem derrubar o presidente da República, imagine o que não farão com os parlamentares!”, disse o ministro ao interlocutor. Com esse tipo de abordagem o Planalto transforma a batalha pessoal de Temer numa guerra entre investigados e investigadores. E estimula os deputados a escolherem sua turma.

O esforço de Temer é menor que o de Janot. Para evitar que a denúncia do procurador-geral obtenha 342 votos, como exige a Constituição, o governo só precisa seduzir 172 dos 513 deputados. E eles nem precisam aparecer no plenário. Subtraídos os votos contrários, as abstenções e as ausências, se a acusação do procurador-geral arrastar 341 votos, estará derrotada. Sem novas delações e com as ruas vazias, disse o articulador do presidente, essa encrenca é “página virada”.

Nos próximos dias, fingindo não notar que o doleiro Lúcio Funaro, um dos operadores de Eduardo Cunha, negocia sua delação, o governo tentará devolver às manchetes a pauta de reformas. A proposta trabalhista, que mexe na CLT, está avançada no Senado. Mas a emenda constitucional que altera as regras da aposentadoria subiu no telhado e o governo não dispõe de votos para retirá-la de lá. Temer amarga um paradoxo: embora fragilizado, ainda reúne forças para evitar que Janot cave 342 votos na Câmara. Mas não tem musculatura para levar ao painel eletrônico os 308 votos necessárioa à aprovação da emenda da Previdência.


Cabral é um fabuloso aviso para PSDB e PMDB
Comentários 27

Josias de Souza

Tucanos e peemedebistas fingem desconhecer Sérgio Cabral. Mas o destino do presidiário não lhes é estranho. Num instante em que os gênios do PSDB renovam o acordo de cumplicidade com o PMDB para preservar o mandato de Michel Temer, o primeiro presidente da história a ser denunciado por corrupção em pleno exercício do cargo, vale a pena atrasar o relógio para iluminar a trajetória de Cabral. O personagem começou a enriquecer no PSDB. E consolidou a fortuna no PMDB

Condenado nesta terça-feira pelo xará Sergio Moro a 14 anos e 2 meses de cana, Sérgio Cabral despontou para a política na década de 90. Chegou à presidência da Assembleia Legislativa do Rio como um cavaleiro da ética. Nessa época, era um jóquei do PSDB. Gente como FHC e José Serra levava a cara à propaganda eleitoral do Rio para recomendar o menino de ouro do tucanato ao eleitorado.

Cabral agigantou-se tanto que, em 1998, começou a fazer sombra ao seu principal aliado, o então governador fluminense Marcello Alencar, cacique do PSDB. Incomodado, Allencar atirou para dentro do ninho, montando um dossiê contra Cabral. Revelou que o paladino da moralidade acumulava uma fortuna imoral. Tornara-se dono de uma casa no condomínio Portobelo, em Mangaratiba, incompatível com sua renda.

Há 19 anos, quando a encrenca veio à luz, a avaliação de mercado da casa de Mangaratiba era R$ 1 milhão. Cabral dizia ter desembolsado R$ 200 mil. Atribuía o preço camarada ao fato de ter fechado negócio “com um amigo de 15 anos”, o empresário Carlos Borges. Abespinhado, Cabral trocou o PSDB pelo PMDB, fez uma paçoca política da liderança de Marcello Alencar e foi colecionar amizade$ empresariais na poltrona de governador. O mimo de Mangaratiba virou troco.

Nos seus dois mandatos como governador, Cabral levou o Rio à breca. O Estado piorou muito. Mas seu governador melhorou extraordinariamente. Impulsionado pelas verbas federais envidas por Lula e Dilma, Cabral semeou obras e colheu propinas. Hoje, é o maior colecionador de processos da Operação Lava Jato. Responde a uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez ações penais. A sentença de Sergio Moro foi a primeira. Restam nove.

Sérgio Cabral não é um bom exemplo para ninguém. Mas tornou-se um fabuloso aviso para tucanos e peemedebistas alcançados pela ferrugem política. A coisa funciona com a simplicidade de um sinal de trânsito. Na fração de segundo em que o sinal muda de verde para amarelo, a decisão de parar ou avançar pode significar a redenção ou a cadeia.