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Pesquisas demonstram que Haddad revelou-se um ‘poste’ mais pesado para Lula do que Dilma

Josias de Souza

15/09/2012 05h26

Lula tenta repetir com Fernando Haddad, em escala municipal, o que fez com Dilma Rousseff em âmbito nacional. O histórico de pesquisas do Datafolha demonstra que o desafio tornou-se mais complexo do que supunha seu idealizador. Haddad-2012 revelou-se um 'poste' mais pesado do que Dilma-2010.

Na última sondagem, divulgada há três dias, o petista Haddad amealhou 17% das intenções de voto. Encontra-se tecnicamente empatado com o tucano José Serra, que auferiu 20%. A dupla briga por uma vaga no segundo turno de uma eleição liderada pelo inesperado Celso Russomanno, com 32%.

Nessa mesma época, medindo forças contra o mesmo adversário, Dilma desfrutava de situação infinitamente mais confortável. Em pesquisa presidencial divulgada no dia 15 de setembro de 2010 ela aparecia com 51% das intenções de voto, contra 27% atribuídos a Serra. Marina Silva, a "terceira via" da época, somava 11%.

A comparação é imperfeita, já que São Paulo não é o Brasil. Mas serve para dar ideia dos riscos assumidos por Lula na capital paulista. Na quarta-feira (12), ao discursar em ato público organizado por sindicalistas, o primeiro de que tomou parte na campanha atual, o puxador de votos do PT fez um comentário que ajuda a explicar o seu drama.

"Na campanha da Dilma, uma coisa que discutimos com nossos aliados era se a campanha deveria terminar no enfrentamento direto com nosso adversário ou se precisava ter mais candidaturas para garantir o segundo turno. Achamos que era o enfrentamento direto. E deu certo a tese."

Lula tentou mimetizar em 2012 a fórmula do "nós contra eles". Deu chabu. Há dois anos, empurrara Ciro Gomes (PSB) para fora do tabuleiro com certa facilidade. Agora, não conseguiu demover o vice-presidente Michel Temer da ideia de lançar Gabriel Chalita como candidato do PMDB à prefeitura paulistana. Tampouco logrou retirar da disputa Paulinho da Força Sindical, candidato do governista PDT.

Seduziu apenas o PCdoB, que desistiu de Netinho de Paula para integrar-se à coligação de Haddad. Com isso, o condomínio partidário que dá suporte ao governo em Brasília atomizou-se em São Paulo. Para complicar, o PT descuidou do PRB, partido do ex-vice presidente José Alencar, agora cavalgado por Russomanno.

O petismo torceu o nariz para Dilma quando ela entregou o Ministério da Pesca para o senador Marcelo Crivella, do PRB, sem ao menos esboçar uma negociação que envolvesse a saída de cena de Russomanno. Mas ninguém supunha, nem mesmo o intuitivo Lula, que o personagem viraria um candidato tão duro de roer.

Os arquivos do Datafolha guardam dados que demonstram que Russomanno jamais foi um contendor negligenciável. Em pesquisa do final de janeiro de 2012, o único cenário em que ele não aparecia como líder era aquele em que era confrontado com Serra, que à época ainda hesitava em entrar na briga.

Ainda assim, Russomanno beliscava 17%, apenas quatro pontos a menos do que Serra, com 21%. Nessa sondagem de janeiro, Haddad ainda era um candidato de 4%. Um desempenho que, de novo, o deixava mal quando comparado ao de Dilma.

No final de 2009, a dez dias de ingressar no ano da sucessão de Lula, a então chefe da Casa Civil obtinha no Datafolha 23%. Estava atrás de Serra, com 37%. Mas Ciro Gomes ainda não havia sido retirado do páreo e somava 13%. Marina tinha 8%.

Na temporada atual, imaginou-se que Russomanno definharia. Dizia-se que, com estrutura precária e tempo de tevê exíguo, ele diminuiria de tamanho assim que começasse a propaganda eleitoral. O marketing dos candidatos foi ao ar em 20 de agosto.

No Datafolha da véspera, para generalizado desassossego, Russomanno, com 31%, já figurava numericamente à frente de Serra, com 27%. Haddad ainda comia poeira na casa dos 8%. Nada parecido com Dilma, que fizera a ultrapassagem sobre Serra na sondagem veiculada em 13 de agosto de 2010: 41% contra 33%. Marina somava 10%.

Nesse época, Dilma já despontava no noticiário como um poste eletrificado. Excluindo-se os indecisos e os entrevistados que diziam ao Datafolha que votariam nulo ou branco, a candidata de Lula obtinha 47% dos votos válidos. Se a eleição fosse naquele 13 de agosto, ela estaria a três pontos de uma vitória no primeiro turno.

Pois bem. Retorne-se ao cenário de São Paulo-2012. Decorrida uma semana do início da propaganda eletrônica, sobreveio o Datafolha de 29 de agosto. E nada da queda de Russomanno. O ex-azarão reteve os 31% da pesquisa anterior. Com uma diferença. Serra, que estava tecnicamente empatado com ele, sofreu hemorragia de cinco pontos. Caiu de 27% para 22%. Haddad deu um salto de seis pontos. De 8% foi a 14%. Súbito, a velha polarização PSDB versus PT reduzira-se a um embate pelo segundo lugar.

No Datafolha de 20 de agosto 2010, uma semana depois do início da propaganda presidencial, Dilma também dera um pulo de seis pontos. Só que noutro patamar. Do índice de 41% escalara os 47%. Serra deslizara três pontos, estacionando em 30%. E Marina escorregara um ponto, batendo em 9%. Considerando-se apenas os votos válidos, Dilma tornara-se um portento. Prevaleceria no primeiro round com 54% se a eleição fosse naquele dia.

Dilma acabou derrotando Serra no segundo turno. Agora, em seus diálogos privados Lula ainda se revela otimista quanto às chances de seu pupilo se manter em pé no ringue. Mas lamenta ter de conviver com a hipótese enfrentar Russomanno em vez de Serra no embate final.  Avalia que o enfrentamento com o tucano seria mais simples.

Ao perscrutar os cenários da segunda fase, o Datafolha de três dias atrás trouxe dados inquietantes. As estatísticas indicam que se a eleição ocorresse agora Russomanno bateria qualquer adversário. Venceria Serra 57% a 30. Contra Haddad, iria à cadeira de prefeito com 54% dos votos, contra 31% do preferido de Lula.

No discurso à militância sindical, Lula disse que teve de suar a camisa para impor Haddad ao partido. "Muita gente dizia pra mim: 'ô, Lula, o Fernando Haddad nem cumprimenta a gente'. E eu respondia: é porque ele tem vergonha, ele é tímido, não está habituado. A Dilma também era assim. Ela abraçava as pessoas de um jeito que eu dizia: ô, Dilma, aperta! Ela apertou. E gostou."

Haddad também começa a tomar gosto pelo abraço. A três semanas da eleição, já é um candidato de língua solta. Porém, afora a divisão da infantaria governista, Haddad leva outra desvantagem na comparação com Dilma. Saído da pasta da Educação, menos vistosa do que a Casa Civil, foi improvisado como candidato na última hora. E seu padrinho teve de lidar com o câncer antes de levá-lo aos ombros.

Com Dilma, deu-se coisa bem distinta. Lula ainda dispunha da máquina federal. E não teve pejo de usá-la. Já em 2009, exibia a sucessora como "mãe do PAC" em inaugrações de obras convertidas em comícios.

Os petistas afirmam que um segundo turno em São Paulo sem Serra representará o início da derrocada do PSDB no seu principal reduto. Meia verdade. Geraldo Alckmin ficou pelo caminho em 2008 e, dois anos depois, elegeu-se governador do Estado.

De resto, na eventualidade de o apadrinhado de Lula morrer na praia do segundo turno afogado na onda Russomanno, o constrangimento não será menor para o PT. Muita gente vai dizer: 'ô, Lula, francamente! Nós bem que avisamos."

Antes de nariz torcido, a preterida Marta Suplicy passou a enxergar em Lula a figura de uma divindade. "O trio é capaz de alavancar [Haddad]: a presidente Dilma, o Lula e eu. Eu, porque tenho o apelo de quem fez; eu sou a pessoa que faz. O Lula porque é um deus e a presidente Dilma porque é bem avaliada. Então, com a entrada desse trio, vai dar certo", disse a companheiro depois de ganhar de Dilma o prémio de consolação da Cultura.

O diabo é que, numa derrota para Russomanno, nem deus se salva.

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Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.


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