Topo

Dilma seleciona reféns políticos, não ministros

Josias de Souza

15/03/2013 18h03

Se a história do Brasil moderno ensina alguma coisa é que a eficiência administrativa nunca foi o objetivo primordial de nenhuma reforma ministerial. Num moto-contínuo que empobrece até a rima, os presidentes nomeiam os ministros mais convenientes, não os mais eficientes.

A nova reforma ministerial de Dilma Rousseff, a penúltima, ficará como um marco na involução do seu primeiro mandato. Livre de todos os pruridos de consciência, a presidente ajusta sua equipe para formar não um gabinete dos que considera melhores, mas dos que acha politicamente mais rentáveis.

A maioria da plateia vê a movimentação de Dilma como algo normal. Ela apenas ajusta-se à tradição. Ao compor o gabinete da reeleição, faz o que todos os outros fizeram: chama fisiologismo de pragmatismo. Tudo verdade. Mas são justamente essas evidências que permitem concluir: Dilma pulou o corguinho.

Ao tomar posse, ela nomeara o gabinete herdado de Lula. Na pseudofaxina de 2011, simulara autonomia. Agora, Dilma assume perante a nação: a exemplo dos antecessores, trabalha com um gabinete de reféns. Os ministros serão ministros enquanto seus partidos estiverem associados ao projeto de poder do PT.

É tudo muito explícito. O PMDB de Minas exigia uma pasta, sob pena de aliar-se ao tucano Aécio Neves. Queria os Transportes. Na bacia das almas, levou a Agricultura, que já era do PMDB. Jura que esquecerá Aécio. Melhor: compromete-se a apoiar o petista Fernando Pimentel para o governo de Minas.

Dilma já não faz a sua hora. Ela adota o estilo Zeca 'Deixa a Vida me Levar' Pagodinho. No alvorecer do governo, o PMDB atravessou na mesa o nome de Moreira Franco. A presidente torceu o nariz. Temer insistiu. Dilma cedeu, mas empurrou o indicado para a decorativa poltrona dos Assuntos Especiais.

Súbito, Moreira passa da condição de organizador de seminários à de ministro-chefe dos negócios da Secretaria de Aviação Civil. Ex-governador do Rio, o promovido pode dar conta do recado. Mas a interrogação é outra: o que Dilma vê hoje em Moreira que não via em janeiro de 2011?

Varrido do Trabalho, Carlos Lupi foi trocado por Brizola Neto –escolha pessoal de Dilma, dizia-se em dezembro de 2011, para realçar a 'independência' da faxineira. De repente, o neto de Brizola vai ao meio-fio. E Lupi volta a dar as cartas, terceirizando o ministério a Manoel Dias, um deputado que é seu chegado. Por quê? Ora, para tentar evitar que Lupi enfie o PDT na caravana do oposicionista Aécio ou, pior, na canoa pós-governista de Eduardo Campos.

Eis um resumo da cena: nos primeiros dois anos, Dilma acreditava que presidia o ministério. No biênio final, ela começa a se dar conta de que é presidida pelo gabinete. Dilma ainda imagina que está nomeando reféns. Logo descobrirá que está se deixando sequestrar. Faz isso sem nenhuma garantia de que o resgate será pago.

Aos mais incomodados, a história informa: a julgar pelos acordos que PSDB e PSB negociam com outras legendas, seja qual for o próximo presidente –Dilma ou qualquer outro— a desfaçatez tende a se perpetuar.

Comunicar erro

Comunique à Redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Dilma seleciona reféns políticos, não ministros - UOL

Obs: Link e título da página são enviados automaticamente ao UOL

Ao prosseguir você concorda com nossa Política de Privacidade

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.


Josias de Souza