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Dilma propõe mudar de status sem trocar o quo

Josias de Souza

01/05/2014 06h32

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A seis meses do seu reencontro com as urnas, Dilma Rousseff olhou no espelho e teve um sobressalto. Em timbre ríspido, fez à sua imagem refletida uma pergunta: afinal, o que diabos você está fazendo aí? Percebeu que ocorrera algum engano, concluindo que três anos e quatro meses de poder é muito pouco para produzir toda a felicidade que o povo merece.

Chamou o João Santana e pediu que ele redigisse uma mensagem alusiva ao Dia do Trabalhador. Algo que convidasse o brasileiro a entrar no novo clima. O marqueteiro caprichou. E a presidenta do governo democrático e popular levou ao ar, em cadeia nacional de rádio e tevê, uma súplica. Rogou à nação que apoie Dilma 2, a Caída em Si. Por favor, gente. Vamos lá. Pela pátria. E, dessa vez, sem corrupção!

Dilma informou que já não é a mesma Rousseff. A exemplo do padrinho Lula, aderiu à oposição. Só que adotou a linha Gabrielli, mais realista que o Aécio Neves. A mandatária assumiu suas responsabilidades. "É com esse sentimento que garanto a vocês que temos força para continuar na luta pelas reformas mais profundas que a sociedade brasileira tanto precisa e tanto reclama", ela leu no teleprompter, aquele aparelhinho que permite ao orador dizer textos alheios com a naturalidade de um autor.

Depois de escolher governar com os mesmos que há anos transferem o progresso nacional para seus patrimônios e de trocar a biografia de ex-guerrilheira por uma aliança com o Sarney e o Renan, Dilma se viu obrigada a fazer um pronunciamento veemente contra si mesma. Vamos fazer as "reformas para aperfeiçoar a política, para combater a corrupção, para aumentar a transparência, para fortalecer a economia e para melhorar a qualidade dos serviços públicos", ela jurou, ainda cercada de PMDB, PDT, PTB e PR por todos os lados.

"Nosso governo tem o signo da mudança", disse Dilma, controlando-se para não cair na gargalhada. "Junto com vocês, vamos continuar fazendo todas as mudanças que forem necessárias para melhorar a vida dos brasileiros, especialmente dos mais pobres e da classe média."

Dilma não se ilude. Sabe o que a espera. "Continuar com as mudanças significa também continuar lutando contra todo tipo de dificuldades e incompreensões, porque mudar não é fácil, e um governo de mudança encontra todo tipo de adversários." A maioria dos inimigos está dentro do governo. "Querem manter seus privilégios e as injustiças do passado", declarou a nova Dilma. "Mas nós —eu e o João Santana— não nos intimidamos."

Dilma era portadora de novidades alvissareiras. Acabara de assinar "uma medida provisória corrigindo a tabela do Imposto de Renda". Mais: "Assinei também um decreto que atualiza em 10% os valores do Bolsa Família recebidos por 36 milhões de brasileiros". Não resolve tudo. Mas como a Rousseff mantém a inflação no teto da meta, as providências ajudam a atenuar o fim do mês perpétuo a que foram condenados os mais pobres.

Nesse novo começo, o governo "será sempre o governo do crescimento com estabilidade, do controle rigoroso da inflação e da administração correta das contas públicas". Afinal, "nos últimos anos, o Brasil provou que é possível e necessário manter a estabilidade." Daí para transformar o necessário em realidade é um pulo.

Depois que a autocrítica apresentou Dilma a si mesma, ela já soa mais realista: "Em alguns períodos do ano, sei que tem ocorrido aumentos localizados de preço, em especial dos alimentos. E esses aumentos causam incômodo às famílias, mas são temporários e, na maioria das vezes, motivados por fatores climáticos." Maldito São Pedro! Abandonou o governo junto com o Eduardo Campos.

Adepto insuspeitado do "quanto pior melhor", São Pedro decretou uma seca que "baixou o nível dos reservatórios". Isso forçou o governo a "acionar as termoelétricas, o que aumentou muito as despesas". Sim, é verdade: a conta de luz está subindo. Sim, também é verdade: a mordida será ainda maior em 2015. Mas esse exu tranca-nuvens não é páreo para o ebó da supergerente. "Imaginem se nós —eu e o João Santana— não tivéssemos baixado as tarifas de energia em 2013."

Dilma 2, a Caída em Si, jurou aos que "vivem honestamente do suor do seu trabalho" que manterá "o compromisso com o combate incessante e implacável à corrupção". Como o PDT continua na pasta do Trabalho, o PR teve de ser devolvido ao Ministério dos Transportes e a bancada do Youssef não dá refresco, "novos casos têm sido revelados." Mas a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União enfrentarão essa gente.

Reenergizada pela atmosfera eleitoral, Dilma tornou-se a gestora mais corajosa que Dilma conhece. Mesmo sabendo que o PMDB e o PT mantêm suas posições ao lado dos cofres. "Sei que a exposição desses fatos causa indignação e revolta a todos, […] mas isso não vai nos inibir —nem a mim nem ao João Santana— de apurar mais, denunciar mais e mostrar tudo à sociedade, e lutar para que todos os culpados sejam punidos com rigor." Os malfeitores não perdem por esperar. Ganham.

Dilma 2 falou "com franqueza" sobre a estatal petroleira. "A Petrobras é a maior e mais bem-sucedida empresa brasileira. A Petrobras jamais vai se confundir com atos de corrupção ou ação indevida de qualquer pessoa. O que tiver de ser apurado deve e vai ser apurado com o máximo rigor, mas não podemos permitir, como brasileiros que amam e defendem seu país, que se utilize de problemas, mesmo que graves, para tentar destruir a imagem da nossa maior empresa." O Paulo Roberto Costa era chamado por Lula de "Paulinho". Mas ele está preso, gente.

O espelho e o João Santana fizeram muito bem a Dilma. Alguma coisa subiu à cabeça da presidenta. "Não transigirei, de nenhuma maneira, em combater qualquer tipo de malfeito ou atos de corrupção, sejam eles cometidos por quem quer que seja." Novas Pasadenas no pasarán! Mais do que isso: "Não vou ouvir calada a campanha negativa dos que, para tirar proveito político, não hesitam em ferir a imagem dessa empresa que o trabalhador brasileiro construiu com tanta luta, suor e lágrimas." Mais um pouco e o Sérgio Machado será arrancado da Transpetro, embrulhado para presente e devolvido ao Renan.

Dilma e João Santana encerraram o pronuncuimento em tom apoteótico. "Viva o 1º de Maio! Viva a trabalhadora e o trabalhador brasileiros! Viva o Brasil!" As próximas pesquisas dirão se o brasileiro está disposto a fazer de conta que o governo Dilma começou de novo. Porém, a presidenta e o marqueteiro parecem crer que, em outubro, o Brasil saberá mudar o status sem destruir o quo.

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Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.


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