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Garotinho é levado à cadeia: ‘Estão de sacanagem. Querem me matar, porra!'

Josias de Souza

18/11/2016 04h05

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Ao ser transferido do hospital para a cadeia, na noite desta quinta-feira (17), Anthony Garotinho (PR-RJ) esperneou e esbravejou. Deitado numa maca, foi carregado por bombeiros, sob a vigilância de agentes federais. Parecia calmo. Transtornou-se ao ser conduzido para o interior da ambulância. Sob refletores e ao som dos protestos da mulher Rosinha e da filha Clarissa, o ex-governador protagonizou a coreografia do medo.

"Vocês estão de sacanagem. Querem me matar, porra!", vociferou Garotinho, de acordo com reportagem do Globo. Ele lembrou aos bomberios e policiais que, durante o seu governo, grandes traficantes foram enviados para o complexo penitenciário de Bangu. O novo hóspede do presídio soou como se temesse por sua segurança. Garotinho debatia-se com tal vigor que seus movimentos desautorizavam suas palavras: "Me solta, me solta. Eu sou um enfartado", dizia o preso, submetendo as coronárias de seus condutores a um teste involuntário de esforço.

Numa evidência de que o destino não é tão aleatório quanto parece, Garotinho amanhece nesta sexta-feira no mesmo complexo prisional para onde foi mandado seu ex-aliado e agora arqui-inimigo Sérgio Cabral, recebido sob fogos. A unidade onde estão assentadas as celas destinadas a presos com curso superior, Bangu 8, foi inaugurada, suprema ironia, por Cabral. Se suspeitassem que o futuro seria tão perverso, os dois ex-governadores talvez tivessem desperdiçado um naco de suas agendas para discutir a melhoria das condições carcerárias.

Prefeita do município de Campos, Rosinha Garotinho queixava-se na porta do hospital da falta de cuidados médicos a que o marido seria submetido na cadeia. Suas reclamações eram ecoadas pela filha, a deputada federal Clarissa Garotinho. Entretanto, no despacho em que ordenou a trasnferência, o juiz eleitoral Glaucenir Silva de Oliveira, da 100ª Zona Eleitoral de Campos, realçou que a "suposta" debilidade no quadro de saúde do preso poderá ser tratada na cadeia. Incomodado com as informações de que Garotinho estava cercado de regalias no hospital, o magistrado anotou:

"Mostra-se imperioso fazer cessar quaisquer regalias que o réu, ora custodiado, possa estar recebendo, assim como, em atenção à sua suposta situação inadequada de saúde, determino sua imediata transferência para o Complexo Penitenciário de Bangu – Presídio Frederico Marques, onde poderá receber assistência médica. Esclareço que o referido complexo penitenciário é provido de uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento)."

Nesse ritmo, o Brasil acabará subvertendo a impunidade. E os políticos não tardarão a encampar propostas que revolucionarão a rotina dos presídios. Protagonistas dessa nova Era, Garotinho e Cabral poderiam ajudar sugerindo melhorias no cardápio. Em Bangu, a quentinha contém arroz ou macarrão, feijão, farinha, carne branca ou vermelha e salada. No café da manhã, há pão com manteiga e café com leite. Faltam frutas e sucos no desjejum. E opções light para as refeições. Dono de gostos refinados, Cabral saberá recomendar os vinhos.

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Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.


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