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PT prega diretas, mas elege Gleisi indiretamente

Josias de Souza

01/06/2017 13h14

Começa nesta quinta-feira, em Brasília, o 6º Congresso Nacional do PT. Lula será, como de hábito, a estrela. Dilma Rousseff, eternal coadjuvante, fará uma participação especial no papel de vítima. Até sábado, dia do encerramento do encontro, o petismo baterá bumbo pela convocação imediata de eleições presidenciais diretas. No final do Congresso, o partido elegerá a senadora paranaense Gleisi Hoffmann como sua nova presidente, para um mandato de dois anos. A eleição interna será, supremo paradoxo, indireta. Pela primeira vez desde 2001, o PT deixa de escolher seus dirigentes por meio do PED, Processo de Eleição Direta. Avaliou-se que o mecanismo foi infectado por fraudes.

De saída do comando partidário, Rui Falcão veiculou no site do PT seu último artigo como presidente da legenda. A certa altura, resumiu o sentimento que permeia o Congresso partidário: "Durante os 13 anos que o PT governou o Brasil, com Lula e Dilma, o país sofreu transformações profundas, principalmente nas condições de vida do povo. Deixamos um legado histórico incomparável que nos credencia a pleitear, com um novo programa democrático-popular, o retorno ao governo do país através de eleições livres e diretas."

A avaliação é reveladora do grau de alienação que marca a trajetória do PT rumo à desmoralização. As transformações de que se vangloria Falcão foram feitas nos dois mandatos de Lula. E desfeitas nos dois governos incompletos de Dilma. O legado deixado pelo ciclo de poder petista é, de fato, incomparável. Mas não chega a representar boa credencial. Inclui o mensalão e o petrolão, escândalos nunca antes vistos na história do país. A cúpula do PT passou pela cadeia ou ainda está atrás das grades. Lula é uma condenação judicial esperando para acontecer. E Dilma, delatada pelo casal do marketing João Santana e Monica Moura, virou uma biografia sub judice.

A hipótese de o PT aproveitar o seu Congresso para realizar uma autocrítica é inexistente. Gleisi Hoffmann, ungida por Lula como a melhor pessoa para seguir suas orientações na presidência do partido, também é protagonista de inquérito no Supremo Tribunal Federal. Sua eleição é uma garantia de que os dirigentes enlameados continuarão a ser saudados como "guerreiros do povo brasileiro." Lula será aclamado como candidato às eleições presidenciais de 2018. Entretanto, suas pretensões políticas dependem das delações companheiras de Antonio Palocci e Renato Duque. Estão condicionadas também aos veredictos do juiz Sergio Moro e dos desembargadores do TRF-4, que podem fazer de Lula um inelegível ficha-suja.

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Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.


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