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General pró-intervenção vai à reserva com elogio

Josias de Souza

28/02/2018 14h53

O general Antonio Hamilton Mourão, crítico ácido de Michel Temer e partidário da intervenção militar como remédio contra o "caos" e a "impunidade" de corruptos, pendurou a farda. Passou à reserva sob elogios do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas. "Todos te agradecemos, amigo Mourão, os exemplos de camaradagem, disciplina intelectual e liderança pelo exemplo", anotou Villas Bôas no Twitter, nesta quarta-feira.

Mal terminou a cerimônia, Mourão já liberou o verbo. Disse ser necessário que o Poder Judiciário "expurgue da vida pública" Michel Temer e todas as pessoas que "não tem condições" de participar da vida pública. Minutos antes, ao discursar no Salão de Honras do comando do Exército, o general chamara de "herói" o coronel Brilhante Ustra, que participou de sessões de tortura durante a ditadura militar. (veja abaixo o post veiculado no Twitter pelo comandante Villas Bôas para homenagear Mourão)

Na cerimônia de passagem para reserva do Gen Ex Mourão – soldado na essência d'alma! – sentimos emoção genuína e reconhecimento ao @exercitooficial. Todos te agradecemos amigo Mourão os exemplos de camaradagem, disciplina intelectual e liderança pelo exemplo. #ObrigadoSoldado pic.twitter.com/b8S7ivjMfE

Mourão contava os dias para a aposentadoria desde 9 de dezembro, quando foi destituído do cargo de secretário de Economia e Finanças do Comando do Exército após declarar numa palestra que Temer fez do governo um "balcão de negócios" para se manter no poder. "Não há dúvida que, atualmente, nós estamos vivendo a famosa sarneyzação [alusão à fase final do governo de José Sarney]. O nosso atual presidente vai aos trancos e barrancos buscando se equilibrar e, mediante o balcão de negócios, chegar ao final de seu mandato", dissera o general. (reveja abaixo)

Tratava-se de uma reicindiência. Três meses antes, Mourão defendera em outra palestra a hipótese de intervenção militar: "Ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso". Nessa ocasião, o comandante Villas Bôas passou a mão sobre a cabeça do "comandado", livrando-o de punições.

A despeito dos pendores intervencionistas, Mourão disse nesta quarta-feira que a crise política só se resolverá por meio do voto e com a atuação do Judiciário. Hoje, disse ele, "as pessoas entram na política não para servir, mas para ser servido." Cabe ao Judiciário, disse o general, "expurgar da vida pública aquelas pessoas que não tem condições de dela participar." Indagou-se a Mourão se suas palavras se aplicavam a Michel Temer. E ele: "Inclui, sim senhor."

Durante o governo de Dilma Rousseff, Mourão acionara a língua também contra a presidente petista. As críticas renderam-lhe a remoção do comando militar da região Sul para o cargo burocrático em Brasília, do qual foi apeado em dezembro. Na palestra do final do ano, feita no Clube do Exército, em Brasília, Mourão disse meia dúzia de palavras sobre a candidatura presidencial de Jair Bolsonaro:

"O deputado Bolsonaro já é um homem testado, é um político com 30 anos de estrada, conhece a política. E é um homem que não tem telhado de vidro, não esteve metido aí nessas falcatruas e confusões. Agora, é uma realidade, já conversamos a esse respeito, ele tem uma posição muito boa nessas primeiras pesquisas que estão sendo feitas, ele terá que se cercar de uma equipe competente, ele terá que atacar esses problemas todos, não pode fazer as coisas de orelhada, e obviamente, nós, seus companheiros dentro das Forças, olharmos com muito bons olhos a candidatura."

O telhado de Bolsonaro já exibe as primeiras trincas (veja aqui, aqui e aqui). Mas Mourão, agora livre dos rigores impostos pela disciplina militar, poderá mover os lábios com maior desenvoltura. No limite, pode até marchar rumo a uma candidatura. Para testar sua sorte nas urnas, basta que o general sente praça em algum partido até o dia 7 de abril.

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Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.


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