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Bolsonaro leva gestão para trás, não para direita

Josias de Souza

05/06/2019 12h42

Jair Bolsonaro não leva o seu governo para a direita. Na economia, leva-o para baixo. Nas outras áreas, para trás. Por decreto, afrouxou o controle de armas e munições num instante em que cresce o número de mortos a bala. Por projeto de lei, sugere que sejam premiados os motoristas infratores num país que ocupa a quarta colocação no ranking mundial das mortes no trânsito. Com o decreto, esquartejou o Estatuto do Desarmamento. Com o projeto, tenta esmigalhar o Código Nacional do Trânsito.

Dizer que o presidente assumiu o volante sem definir um itinerário não traduz adequadamente o que se passa. Sabia-se que o capitão rumava para a direita. Mas não se imaginou que faria uma opção preferencial pela contramão. Imaginou-se menos ainda que governaria em marcha à ré.

Alega-se que a volta ao passado foi avalizada pelas urnas. Conversa fiada. No segundo turno, o eleitorado de Bolsonaro foi tonificado pelo voto de pessoas que não admitiam votar de jeito nenhum no adversário Fernando Haddad. Elegeram o rival do flagelo petista, não o demolidor de marcos civilizatórios.

Argumenta-se, de resto, que Bolsonaro apenas assegura direitos. Com as armas, o direito do brasileiro à autodefesa. Com os mimos aos infratores, o direito ao trabalho de categorias como os caminhoneiros, penalizados a granel. Ignora-se o essencial: na escala de direitos, a sociedade prevalece sobre o indivíduo. Sobretudo quando a vida alheia está em jogo.

Armar civis não elimina a matança que produz 65 mil cadáveres por ano. Elevar o número de pontos para a perda da carteira não injeta responsabilidade na cabeça do mau motorista. Eliminar o exame toxicológico de caminhoneiros não resolve o drama da sobrecarga de trabalho. Acabar com a multa para o transporte irregular de crianças não melhora os pais. É como se Bolsonaro quisesse tratar o câncer destruindo os exames.

O furor retroativo do presidente deixa mal até os seus melhores ministros. Ao justificar os retrocessos no trânsito, Tarcísio de Freitas, titular da pasta da Infraestrutura, declarou: "O Código já é antigo. Tem mais de 20 anos. Ele necessita de atualização." Ora, o hábito de comer ovo frito também é antigo. E não há na praça ninguém sugerindo às pessoas que comecem a desfritar ovos.

Tarcísio prosseguiu: "Dois terços das penalidades do Código Brasileiro de Trânsito são graves e gravíssimas. Acaba sendo muito fácil o cidadão perder a carteira, atingir a pontuação. E isso tem se mostrado ineficaz, porque os Detrans não conseguem operacionalizar os processos para a suspensão do direito de dirigir." Não seria o caso de aparelhar os Detrans para assegurar as punições?

Enquanto Bolsonaro desperdiça energia com a volta ao passado, deixa de se concentrar nos projetos que apontam para o futuro, como a reforma da Previdência. Costuma dizer que o caos econômico não é obra do atual governo. Verdade. Mas a perda de tempo já puxou para baixo o PIB no primeiro trimestre. O crescimento econômico de 2019 foi para o saco, como se diz. O capitão logo estará na alça de mira. Se bobear, acaba atropelado pelas circunstâncias.

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Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.


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