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Nomeação de Lula à Casa Civil teria evitado impeachment de Dilma, diz Temer

Josias de Souza

17/09/2019 03h00

Dilma Rousseff teria concluído o seu segundo mandato presidencial se o Supremo Tribunal Federal não tivesse barrado a posse de Lula na chefia da Casa Civil. Foi o que disse o ex-presidente Michel Temer em entrevista ao programa Roda Viva, na noite desta segunda-feira (16). "Se ele fosse chefe da Casa Civil, é muito provável —ele tinha bom contato com o Congresso Nacional— que não se conseguiria fazer o impeachment. Disso não tenho dúvida".

Com sua avaliação, Temer realçou indiretamente o papel de dois protagonistas da deposição de Dilma: Sergio Moro e Gilmar Mendes. Como juiz da Lava Jato, Moro levantou em março de 2016 o sigilo do célebre grampo em que Dilma avisa a Lula que o "Bessias" estava a caminho, levando o ato de sua nomeação para o ministério. Coube a Gilmar, na pele de ministro do Supremo Tribunal Federal, expedir a liminar que sustou a posse de Lula. Seis meses depois, Dilma foi deposta.

A divulgação do áudio da fatídica conversa desceu ao verbete da enciclopédia como uma transgressão de Moro. O então juiz já havia ordenado à Polícia Federal a suspensão da escuta. O diálogo soou antes que a ordem fosse executada. Nele, Dilma disse a Lula que o ato de nomeação deveria ser usado em caso de necessidade. Ficou subentendido que o documento serviria como um salvo-conduto para evitar a prisão de Lula, que passaria a dispor do foro privilegiado do Supremo.

Temer lembrou que Moro foi censurado na época pelo então relator da Lava Jato no Supremo, ministro Teori Zavascki, morto num acidente aéreo. Pediu "escusas" à Suprema Corte. Alegou que não tivera a intenção de causar "polêmicas e constrangimentos desnecessários". Hoje, sabe-se que essa desculpa é falsa. O vazamento de mensagens trocadas entre Moro e procuradores revela que a intenção era mesmo a de jogar a conversa no ventilador para evitar que Lula se escondesse atrás do escudo do foro privilegiado.

A despeito da dúvida quanto à legalidade dos procedimentos de Moro, Gilmar Mendes não hesitou em barrar a posse de Lula. Valeu-se de um raciocínio ardiloso. Sustentou que o grampo tornara-se secundário depois que Dilma e Lula reconheceram em manifestações públicas a autenticidade do diálogo. Durante a gestão de Temer, Gilmar consolidou-se como um conselheiro do presidente. Hoje, é um crítico da heterodoxia judicial da Lava Jato e adepto da política de celas abertas.

Temer avalia que a conversão de Lula em ministro era mesmo uma manobra: "Tudo indicava que o chamamento do ex-presidente Lula para a Casa Civil não tinha exatamente a finalidade de nomeá-lo para a Casa Civil, mas, eventualmente, impedir que houvesse algum embaraço de natureza judicial em relação a ele." Com atraso de mais de três anos, tachou de "equívoco muito grande" a divulgação ordenada por Moro.

"Se divulgou um telefonema, dever-se-ia liberar por inteiro", afirmou Temer, referindo-se a duas dezenas de conversas telefônicas que Lula mantivera após a suspensão do grampo. Dialogara com o próprio Temer. Dizia estar impressionado com a manifestação que arrastara dias antes 3,6 milhões de pessoas às ruas, para apoiar a Lava Jato e protestar contra o governo Dilma. Buscava uma aliança com parceiros de infortúnio, pois a Lava Jato cercava também o MDB de Temer.

"Ele estava preocupado com o impeachment", relatou Temer na entrevista. "Depois, ele esteve comigo, conversando sobre o impedimento. Pedia que eu colaborasse com o PMDB. Afinal, a derrubada da ex-presidente não seria útil para o país. O fundamento básico dele foi tentar trazer o MDB e outros a quem eu pudesse influenciar no sentido de negar a possibilidade do impedimento."

Perguntou-se a Temer se estava disposto a socorrer Dilma na ocasião em que Lula o procurou. E ele: "Quando o presidente da Câmara era o Eduardo Cunha eu trabalhei muito. […] Houve um dia em que eu fui à Presidência da República e disse: 'presidente, eu acho que o Eduardo Cunha não vai propor nenhum pedido de impeachment".

Havia nas gavetas de Cunha duas dezenas de pedidos de afastamento de Dilma. "Dois são complicadíssimos", disse Temer à então presidente. "Mas ele não vai pedir, deve arquivar todos. Ela disse: 'Que coisa boa, Temer'. Chamou um ministro que estava ao nosso lado e disse: 'Olha o que o Temer está dizendo!'. Ou seja, na verdade eu jamais imaginei que chegaria à Presidência, sobretudo por essa via". O repórter ironizou: O senhor nunca conspirou nem um pouquinho? "Não".

Instado a avaliar a gestão de Jair Bolsonaro, Temer referiu-se ao capitão como um continuador de sua obra: "O governo Bolsonaro tem um ponto positivo. Esse ponto positivo, modéstia de lado, é porque ele está dando sequência a tudo aquilo que eu fiz".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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