Blog do Josias de Souza

Um dos donos da nova gestora da Delta, Júnior do Friboi disputa governo na terra de Cachoeira

Josias de Souza

Sócio da nova gestora da Delta diversifica suas atividades cabalando votos no Estado de Cachoeira

Dona da J&F Participações, que assume a gestão da Delta Construções dentro de quatro dias, a família Batista leva às fronteiras do paroxismo a diversificação de suas atividades. Além do inusitado interesse pelo ramo da construção civil, os Batista aventuram-se no universo da política. Mais velho de um grupo de seis irmãos, José Batista Júnior é candidato ao governo de Goiás, o Estado de Carlinhos Cachoeira, epicentro do Cachoeiragate.

Júnior Friboi, como prefere ser chamado, presidiu o frigorífico JBS-Friboi, carro-chefe do conglomerado do clã, por 25 anos. Assumiu os negócios com 20 anos. Manteve-se no comando até os 45, completados em 2005. Entregou o leme aos irmãos, manteve-se no conselho administrativo da empresa e passou a dispor de tempo livre para dar vazão às suas pulsões políticas.

Em julho do ano passado, o capitalista Júnior Friboi descobriu-se um insuspeitado socialista. Coproprietário da maior processadora de carne bovina do planeta, com faturamento anual superior a R$ 50 bilhões, ele sentou praça no PSB, partido presidido pelo neto de Miguel Arraes, o governador pernambucano Eduardo Campos.

Guindado à vice-presidência da legenda em Goiás, Júnior Friboi declara-se, desde logo, candidato à sucessão do governador tucano Marconi Perillo, em 2014. Há dez meses, não faz senão equipar-se. Converteu o site do PSB goiano em plataforma eletrônica de suas ambições eleitorais. Ali, noticia-se cada passo de Júnior Friboi –da participação no fechamento de alianças com candidatos a prefeito de outras legendas a anúncios de candidaturas próprias.

Júnior Friboi desfila sua candidatura pelo mapa de Goiás. Em 1o de Maio, o PSB inaugurou uma sede própria na cidade de Iaciara. Lá estavam o candidato e a equipe de “reportagem'' do site. No dia seguinte, o neosocialista participou de cavalgada em Bela Vista de Goiás. Brindaram-no com o título de “cidadão belasvistense”. Duas semanas antes, recebera no município de Mineiros o diploma de “cidadão mineirense”.

Nessa ocasião, numa entrevista amistosa, Júnior Friboi revelou laivos do seu estilo. Faz questão de misturar os negócios privados ao empreendimento político. Explicou assim a profusão de honrarias municipais: “A gente sempre tem prestado um grande serviço aqui na região. […] Nós compramos muito boi aqui dos produtores, dos pecuaristas da região. […] Então, essas cidades que estão me propondo esses títulos, é mais pelos serviços prestados que a empresa, a JBS, o Friboi, tem feito aí, em detrimento (sic) do crescimento da pecuária, da melhora dos preços…”

Instado a comentar a situação política do Estado, disse: “Está tendo aí (sic) algumas denúncias, investigações. Para Goiás, avalio que não é bom. O Estado perde muito. […] Por outro lado, acredito que essas CPIs que estão abrindo, vão apurar os fatos. Acredito que quem for culpado vai ser punido, não tenho dúvida. O melhor tribunal para julgar isso é a Justiça e o povo.”

Júnior Friboi parece enxergar no Cachoeiragate uma correnteza alvissareira. Declarou-se “otimista” em relação às suas chances eleitorais. Vaticinou a formação de uma coligação encharcada de legendas pró-Dilma Rousseff. “Creio que nas eleições vamos criar um bloco de renovação. Um grupo de renovação liderado pelo PSB, pelo PMDB, grandes partidos. Nós precisamos de alternância, faz parte da democracia. Quero me colocar como um candidato de renovação.”

Esforça-se para transplantar o êxito empresarial para a incursão política: “Até por ser empresário, até por ter sido bem sucedido nos meus negócios, eu jamais largaria os meus negócios para entrar na vala comum… Estou querendo é propor algo diferente. Que a gente possa valorizar mais o Estado no sentido da família, resgatar os bons valores das pessoas.”

Filho de pais mineiros, Júnior Friboi nasceu em 1960 na cidade goiana de Anápolis. Justamente o berço da Operação Vegas, a primeira investida da Polícia Federal no submundo criminoso da jogatina de Carlinhos Cachoeira. O clã dos Batista extrai da superexposição da quadrilha todos os dividendos que o escândalo pode proporcionar.

Em movimentos simultâneos, Júnior Friboi ajusta o discurso à atmosfera de crise e assiste ao mergulho do seu grupo empresarial na contabilidade tóxica da Delta –uma empresa que, no dizer da PF, tem em Cachoeira e no seu principal agente político, o senador Demóstenes Torres, “sócios ocultos”. Considerando-se o comunicado divulgado nesta quarta (9), a J&F Participações fechou com a Delta do empreiteiro Fernando Cavendish algo que pode ser chamado de um negócio da China.

A controladora da JBS-Friboi credenciou-se para empurrar a 6a maior construtora do país para baixo do seu guarda-chuva sem desembolsar um mísero ceitil. Fechada pelo goiano Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central nos dois reinados de Lula, a transação tem contornos inusitados.

A J&F vai comandar a Delta, nomeará novos dirigentes, varejará as contas e os contratos numa auditoria. Depois, se achar que é vantajoso, fixará o preço e comprará a empreiteira com o compromisso de pagar a Cavendish com os dividendos que a própria Delta for capaz de gerar. Repita-se: os Batista não se dispõem a retirar da caixa registradora um único centavo.

Com a biografia encharcada, Demóstenes Torres tornou-se testemunha da ascenção de um personagem que frequentava seus pesadelos. Na época em que ainda podia alimentar sonhos, o senador planejava candidatar-se a governador de Goiás. E via em Júnior Friboi uma ameaça. Tramou contra o antagonista uma CPI. Queria investigar os aportes do BNDES no frigorífico do cristão novo do socialismo.

Demóstenes chegou a coletar assinaturas para a CPI. O senador Pedro Taques (PDT-MT), um dos signatários do requerimento, olha para o retrovisor e destila uma suspeita: “Acho que fui usado.” Depois de esboçar interesse pela investigação parlamentar, Demóstenes arquivou o tema. E não foi por falta de matéria prima.

Em 2009, ao adquirir o concorrente Bertin, o frigorífico Friboi trocou a logomarca para JBS e recebeu aportes do BNDES. No total, o bom e velho bancão de fomento do governo injetou na casa de carnes dos Batista coisa de R$ 8,1 bilhão. Tornou-se dono de 31,4% da empresa.

Agora, a despeito do lero-lero segundo o qual as finanças da J&F não se confundem com a caixa da JBS, sua controlada mais pujante, é incontronável a constatação de que o governo tornou-se sócio indireto da Delta. Uma empresa que belisca 99% dos seus contratos no setor público –R$ 4 bilhões em obras contratadas— e está na bica de ser declarada “inidônea” pela Controladora-Geral da União.

Alheio ao falatório, Júnior Friboi busca associar ao governo também a sua empreitada política. A bordo do PSB, vai às urnas de 2014 como candidato do condomínio que, em Brasília, provê suporte congressual a Dilma Rousseff, cuja gestão o partidário de Eduardo Campos não se farta de elogiar.

Os Batista nunca foram alheios à política. A diferença é que, antes, compareciam às eleições como financiadores de comitês de terceiros. Em 2014, terão a oportunidade de bancar um candidato da casa. Sem o inconveniente da concorrência de Demóstenes Torres. Bem posto nas pesquisas antes da revelação dos diálogos vadios que mantinha com Cachoeira, o senador tornou-se agora um candidato à perda do mandato. Para felicidade de Júnior Friboi, também o tucanato de Marconi Perillo encontra-se com água pelo nariz.