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STF mantém sangria ética da gestão Bolsonaro

Josias de Souza

01/02/2019 11h13

Como previsto, o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, indeferiu o pedido do senador Flávio Bolsonaro para que a investigação judicial sobre o caso Coaf fosse transferida para Brasília. A decisão produz duas consequências. Uma jurídica: o Ministério Público do Rio de Janeiro fica autorizado a dar sequência ao processo sobre a movimentação bancária suspeita do novo senador e do ex-assessor Fabrício Queiroz. Outra política: Flávio Bolsonaro fica desautorizado a manter a pose de "vítima de perseguição".

Em seu recurso ao Supremo, Flávio fizera dois pedidos: foro privilegiado e anulação das provas. O primeiro foi indeferido por Marco Aurélio: "Neste processo, a leitura da inicial revela que o reclamante desempenhava, à época dos fatos narrados, o cargo de deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, tendo sido diplomado senador da República no último dia 18 de dezembro. A situação jurídica não se enquadra na Constituição Federal em termos de competência do Supremo." Quanto ao aniquilamento das provas, o ministro arquivou a demanda sem sequer analisar o mérito.

Nunca é demasiado recordar que entre as esquisitices colecionadas pelos promotores do Rio de Janeiro há a transferência de R$ 24 mil do "amigo" Queiroz para a conta bancária da primeira-drama Michelle Bolsonaro. O marido Jair Bolsonaro alegou tratar-se de parte do pagamento de um empréstimo de R$ 40 mil que fez ao ex-assessor do filho, um correntista milionário.

O credor dispensou o devedor da assinatura de contrato ou promissória. E exonerou-se da obrigação de prestar contas à Receita Federal. Por enquanto, Jair Bolsonaro não explicou como repassou os R$ 40 mil ao "amigo". Tampouco informou se já regularizou sua situação junto ao fisco. Sabe-se apenas que a primeira-dama encontra-se na alça de mira de auditores fiscais.

Nesse contexto, o discurso que fazia de Jair Bolsonaro uma espécie de paladino dos bons costumes perdeu o prazo de validade. Com sua decisão, o ministro da Suprema Corte consolidou a primeira crise ética da nova gestão. Com sua movimentação bancária sub judice e as homenagens que rendeu a milicianos, o primogênito do presidente da República chega ao Senado como um político manco. Tornou-se uma bola de ferro que seu pai terá de arrastar.

Sobre o Autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o Blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.