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Blog do Josias

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Ao antecipar 2022, Bolsonaro acerta o próprio pé

Josias de Souza

04/09/2019 19h12

O PIB continua no chão? Há mais de 12 milhões de desempregados no país? O Tesouro Nacional foi à breca? Dane-se! Jair Bolsonaro só pensa naquilo: a reeleição.

No momento, o capitão concentra-se na demolição de potenciais adversários no centro e à direita. Ataca João Doria e Luciano Huck. Vira Sergio Moro, já bem passado, na frigideira. Sonha com uma disputa que reproduza o cenário polarizado de 2018, de preferência com um petista no córner adversário.

O flerte de Bolsonaro com a reeleição não é apenas um erro. É uma temeridade. Na recentíssima campanha eleitoral, o recandidato havia jurado que não disputaria um segundo mandato. Dissera que a reeleição tem sido "péssima" para o país, pois os governantes "se endividam, fazem barbaridade, dão cambalhota" para se reeleger.

De repente, Bolsonaro desistiu de pegar em lanças por uma reforma política que acabe com a "barbaridade". Pior: apaixona-se pela irresponsabilidade fiscal. Aponta a "ejaculação precoce" de Doria enquanto engrena uma campanha antes de descer do palanque da disputa anterior.

Em condições normais, seria apenas constrangedor assistir a um presidente que acabou de se eleger com a promessa de ser o coveiro de velhos hábitos políticos comprometendo o seu governo com uma disputa pelo Poder que, além de prematura, pode ser paralisante. Quando isso ocorre nos primeiros meses de uma Presidência precária, o constrangimento evolui para a insanidade.

Se em 2022 Bolsonaro tiver realizações para expor na vitrine e boa aprovação popular, haverá gente na rua pedindo a sua permanência. Resta saber quando pretende parar de atirar contra o próprio pé. Político que não ambiciona o poder vira alvo. Mas político que só ambiciona o poder erra o alvo. Hoje, a única ambição que Bolsonaro deveria acalentar é ambição de trabalhar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.