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Gleisi diz ser legal voo de Lula nas asas do erário

Josias de Souza

11/11/2019 02h16

Os partidos, como se sabe, viraram empreendimentos políticos financiados pelo déficit público. Gastam a verba do Fundo Partidário, extraída do bolso do contribuinte, como se fosse dinheiro grátis. E não admitem questionamentos. Presidente do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann abespinhou-se com o blog por ter realçado o fato de Lula ter voado de Curitiba para São Paulo nas asas do erário. Ela foi ao Twitter para acusar o repórter de estar "sem assunto". Segundo Gleisi, o fretamento do jato de luxo que transportou Lula da cadeia para casa foi feito "dentro da lei".

Considerando-se a quantidade de petistas investigados, denunciados ou condenados por corrupção, o repórter não ousaria questionar Gleisi sobre as coisas que ela acha natural acomodar "dentro da lei". Não se deve discutir com especialistas. É preciso reconhecer, de resto, que Gleisi não está sozinha. Sempre que se enfia um contrabando na contabilidade de um partido ocorre uma conciliação entre a esperteza de quem leva o gato para a tuba e a negligência da Justiça Eleitoral, que o aceita.

O uso da verba do Fundo Partidário para o custeio de serviços dissociados das atividades da legenda, como o fretamento do jato que levou Lula da capital paranaense para São Paulo, não encontra amparo na legislação convencional. Mas Gleisi há de ter encontrado na Lei da Selva um artigo qualquer que classifica a tuba como habitat natural dos gatos.

Gleisi reclama que o repórter "não deu um pio quando a PF gastou fortuna com helicóptero e viaturas públicas para executar uma [condução] coercitiva desnecessária do Lula e depois fazer sua prisão ilegal." Faltou definir ilegal. Condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, Lula recorreu à farta. O veredicto foi confirmado na segunda e na terceira instância.

A defesa de Lula atravessou um habeas corpus na Suprema Corte para tentar evitar o encarceramento da divindade petista. Perdeu. Só então, munida de mandado de prisão, a PF recolheu o condenado no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Transportou-o de carro até São Paulo. Na sequência, levou-o até Curitiba a bordo de um monomotor mequetrefe. Tudo dentro do manual. Mas Gleisi acha que o repórter deveria ter tratado o xilindró de um sentenciado em três instâncias como "prisão ilegal".

A presidente do PT ainda não percebeu. Mas o papel do repórter é adequar as aparências à realidade, não adaptar a realidade às aparências construídas pelo petismo. Sempre que analisa os desmandos praticados pelo PT no poder, Gleisi confunde sua falta de memória com consciência limpa. Mas não pode exigir do repórter que exclua dos seus hábitos o ponto de exclamação.

É certo que o excesso de escândalos faz com que os brasileiros se espantem cada vez menos. A própria imprensa vai se tornando uma atividade de pouquíssimos espantos. Se alegarem que é "legal" o aluguel de um jato para o transporte de um condenado com todo o requinte que o déficit público pode financiar, poucos farão a concessão de uma surpresa. Este repórter, entretanto, jamais ficará "sem assunto". Partidos como o PT e assemelhados não permitem.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.