Blog do Josias de Souza

Categoria : Reportagens

TSE quer barrar Lula antes do horário eleitoral
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Josias de Souza

Fernando Haddad protocola registro da candidatura de Lula, ao lado de Gleisi e Manuela D’Ávila

O Tribunal Superior Eleitoral deseja aplicar a Lei da Ficha Limpa contra Lula até 31 de agosto. Nesse dia, começa a propaganda política no horário eleitoral de TV e rádio. E a maioria dos ministros do TSE avalia que não faria sentido permitir que Lula fosse ao ar como candidato ao Planalto, pois sua inelegibilidade é incontroversa. A defesa de Lula já se movimenta para atrasar o processo.

Tomado pelo pedido de registro de sua candidatura, protocolado nesta quarta-feira no TSE, Lula é um político ficha limpa. A Polícia Federal, a Procuradoria da República e o Judiciário discordam. Graças à discordância, Lula está preso há 133 dias, com uma sentença de 12 anos e um mês de cadeia grudada em sua biografia. Um inocente convencional exigiria uma manifestação rápida da Justiça Eleitoral, para que pudesse pedir votos ao eleitor de fronte erguida. Dá-se, porém, o oposto. Lula não tem pressa.

Com a velocidade de um raio, a procuradora-geral da República Raquel Dodge ingressou no TSE com uma impugnação do pedido de registro do hipotético candidato petista. Em petição enxuta, cuja íntegra pode ser lida aqui, a chefe do Ministério Público solicitou a “rejeição liminar do requerimento” de Lula, “sem qualquer outro efeito jurídico que o habilite a ser considerado candidato sub judice ou a pretender o financiamento de sua candidatura com recursos públicos, que são destinados apenas a financiar campanhas dos elegíveis.”

Por sorteio, o vice-presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, foi escolhido como relator do registro da postulação de Lula. O petismo alarmou-se, pois Barroso vem se notabilizando no Supremo como um magistrado que os malfeitores consideram duro de roer. Sua tendência, informam os colegas, é a de levar a encrenca para o plenário do TSE com toda a brevidade que a legislação permita.

Como que decidida a conspirar contra o excesso de eficiência do TSE, a defesa do presidiário do PT questionou, ainda na noite de quarta, a escolha de Barroso como relator da encrenca. Os advogados insinuam que a relatoria deveria ficar a cargo de outro ministro: Admar Gonzaga.

Por quê? Antes da impugnação formulada por Raquel Dodge, aportaram no TSE outras duas contestações à candidatura de Lula —uma de Kim Kataguiri, do Movimento Brasil Livre; outra do ator Alexandre Frota. Ambas foram à mesa de Admar Gonzaga. Com isso, o ministro teria se tornado o que no jargão jurídico é chamado de “juiz prevento”. Significa dizer que todas as causas relacionadas ao pedido de registro da candidatura de Lula deveriam ser direcionadas a ele.

Em nota, os advogados de Lula alegam que não se opõem à entrega do processo para Barroso. Preocuparam-se em alertar sobre a “prevenção do ministro Admar” apenas para “evitar eventuais nulidades.” Parlamentares petistas não escondem o que está por trás da “manifestação técnica” dos advogados.

Congressistas do PT recordam que, em junho, Admar fez declarações públicas contra a candidatura de Lula. Deu-se em Curitiba, num debate sobre inelegibilidade, promovido pelo Congresso Brasileiro de Direito Eleitoral. “Quando se almeja cargo de presidente da República, não podemos brincar com o país”, disse Admar Gonzaga no evento.

O ministro prosseguiu: “Não podemos fazer com que milhões de brasileiros se dirijam à urna para votar nulo. Não contem comigo para isso. Na hora que ele (Lula) traz uma certidão e uma prova da sua inelegibilidade e eu sou um juiz, e isso já tem jurisprudência de 50 anos, eu posso rejeitar o registro de ofício (sem a necessidade de provocação de terceiros).”

Em tese, essas declarações fornecem boa matéria-prima para que os advogados de Lula apresentem uma arguição de suspeição contra Admar. Com isso, atrasariam o relógio do TSE. Com Barroso na relatoria, a manobra protelatória ficaria inviabilizada.

Há um ano, Barroso defendeu em público a Lei da Ficha Limpa. Disse que ela “atende algumas demandas importantes da sociedade brasileira por valores como decência política e moralidade administrativa.” Mas jamais comentou publicamente o que pensa sobre a situação jurídica da candidatura de Lula.

Ou seja: o petismo prefere Admar por avaliar que, com ele na relatoria, fica mais fácil atravessar no TSE um debate sobre a suspeição do magistrado, protelando a decretação da inelegibilidade de Lula. É como se o candidato-fantasma e seu Estado-Maior considerassem que Justiça boa é um TSE bastante lento.


Rosa sinaliza que TSE negará registro a inelegíveis mesmo sem ser provocado
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Josias de Souza

Em rápida entrevista concedida após sua posse na presidência do Tribunal Superior Eleitoral, a ministra Rosa Weber declarou que qualquer ministro da Corte pode negar, em decisão solitária, o pedido de registro de um candidato ficha-suja. Não mencionou nomes. E fez questão de realçar que falava em tese. Mas o pano de fundo da conversa era o pedido de registro da candidatura presidencial de Lula, a ser formalizado pelo PT nesta quarta-feira.

Perguntou-se à ministra se o TSE pode negar prontamente o registro de candidatos que, condenados na segunda instância do Judiciário, estejam enquadrados na Lei da Ficha Limpa. E ela: “Pode haver ou não impugnação. Se não houver, há resolução no TSE de que pode haver o exame de ofício. Não será impugnação, será um indeferimento de ofício à compreensão de que não estão presentes ou as condições de elegibilidade ou alguma causa de inelegibilidade. Eu estou falando em tese e observados os termos legais. Agora, cada caso é um caso”.

Traduzindo para o português do asfalto: A impugnação é a contestação que uma candidatura pode sofrer de adversários ou do Ministério Público. Mesmo que nenhum questionamento chegue ao TSE, esclareceu Rosa Weber, resolução do tribunal autoriza o relator do pedido de registro de determinada candidatura a promover o indeferimento por conta própria. No jargão técnico, o ministro decidirá “de ofício.” Antecessor de Rosa no comando do TSE, o ministro Luiz Fux dissera que, no caso de Lula, a inelegibilidade é “chapada”. Ou seja: o indeferimento do registro é incontornável.

Antes da entrevista, Rosa Weber dissera, em discurso: “Os desvios, as deficiências na educação e na cultura, a desigual distribuição da riqueza, a corrupção de agentes públicos e privados não podem obscurecer a ideia de um poder que emana do povo e em seu nome será exercido.” Mencionou a necessidade de assegurar a “lisura” e a “transparência” do processo eleitoral. Emendou: “A certeza que tenho é de que o TSE cumprirá a sua missão, com firmeza.” (assista abaixo)

A hipótese de um indeferimento rápido do registro da candidatura de Lula vai na contramão dos desejos do PT. Embora não admita, a cúpula do partido já trata a negativa da Justiça Eleitoral como fava contada. Mas a defesa de Lula equipou-se para empurrar a decisão do TSE com a barriga até meados de setembro. O petismo quer apresentar Lula como candidato na propaganda eleitoral da TV, que começa a ser exibida em 31 de agosto. No limite, o PT gostaria que a foto de Lula fosse implantada na urna eletrônica antes do indeferimento do pedido de registro.

A procuradora-geral da República Raquel Dodge também discursou na cerimônia de posse de Rosa Weber. Sem mencionar Lula nem o PT, ela deixou bem claro que a Procuradoria pegará em lanças contra a estratégia petista: “É tarefa da Justiça Eleitoral anunciar ao eleitor, o quanto antes e com segurança jurídica, quem são os reais concorrentes, ou seja, os que têm capacidade eleitoral passiva e podem ser votados.”

Nas palavras da chefe do Ministério Público Federal, “recursos protelatórios também não podem ter efeitos suspensivos com o propósito de influenciar o resultado das eleições, sobretudo quando temos um calendário eleitoral tão curto.” Para ela, a Lei da Ficha Limpa, chamada tecnicamente de Lei das Inelegibilidades, “deve ser assegurada, para que só os elegíveis concorram e os inelegíveis não financiem suas pretensões com recursos públicos.” (veja abaixo)


Lula receberá de Rosa no TSE apenas espinhos
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Josias de Souza

Rosa Weber assume nesta terça-feira a presidência do Tribunal Superior Eleitoral. Leva para o comando do processo eleitoral de 2018 duas notáveis qualidades: a discrição e a coerência. A ministra não cultiva o hábito de falar fora dos processos. Dentro deles, expressa-se com rara congruência. Para azar de Lula, Rosa participou, em fevereiro de 2012, do julgamento em que o Supremo Tribunal Federal avalizou a constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa. Tomada pelo teor do seu voto, Rosa não oferecerá a Lula senão espinhos.

Nas pegadas da posse de Rosa, o PT protocolará no TSE o pedido de registro da suposta candidatura presidencial de Lula. A pretensão política do líder máximo do petismo esbarra numa legislação que a nova mandachuva da Justiça Eleitoral aprecia: “A Lei da Ficha Limpa foi gestada no ventre moralizante da sociedade brasileira, que está agora a exigir dos poderes instituídos um basta”, disse Rosa no julgamento de seis anos atrás.

A defesa de Lula preparou-se para sustentar no TSE a tese segundo a qual a candidatura do pajé do PT não pode ser impugnada enquanto não forem julgados todos os recursos contra sua condenação no caso do tríplex. Sob pena de violação do princípio da presunção da inocência. Nessa versão, o nome de Lula poderia ser levado às urnas mesmo que sua candidatura estivesse sub judice. No voto de 2012, sem conhecer as trapaças que o destino lhe reservava, Rosa vacinou-se contra esse tipo de argumentação.

Para a nova presidente do TSE, a presunção de inocência vincula-se ao Direito Penal. A imposição de restrições eleitorais a políticos condenados em segunda instância não configuraria nenhuma afronta ao direito do processado de ser tratado como presumivelmente inocente. Na esfera eleitoral, falam mais alto os direitos da sociedade.

Eis o que disse Rosa no julgamento do Supremo: “Na seara eleitoral, precisamente no campo das inelegibilidades, cujos princípios constitucionais prevalentes informam, antes do individual e do privado, a proteção do público e da coletividade, em última análise a proteção do próprio Estado Democrático de Direito, reputo não afrontar o princípio da não culpabilidade a dispensa do trânsito em julgado na hipótese de haver condenação colegiada.”

A “hipótese” mencionada por Rosa é, precisamente, a que se aplica ao caso de Lula. Ele foi condenado por um colegiado —a Oitava Turma do TRF-4— a 12 anos e um mês de cadeia por corrupção e lavagem de dinheiro. Tornou-se um ficha-suja. Em consequência, ficou inelegível. Rosa soou taxativa no plenário do Supremo: “…Havendo condenação colegiada, nos termos em que exige a Lei da Ficha Limpa, mostra-se de todo razoável a restrição da capacidade eleitoral passiva do candidato, porque preenchida a condição negativa de elegibilidade.”

Rosa acabara de chegar ao Supremo quando a Corte julgou as ações que questionavam a constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa. Egressa da Justiça do Trabalho, a ministra fora indicada —suprema ironia— pela então presidente Dilma Rousseff. E a lei que passou a exigir dos candidatos a exibição de prontuários higienizados, nascida de um projeto de iniciativa popular, havia sido sancionada —mais ironia— por Lula. O mesmo Lula que agora tenta escapar das sanções que avalizou e rubricou.

Sem suspeitar que seus raciocínios desabariam sobre Lula, um presidente que deixara o Planalto com taxa de aprovação de 83%, Rosa declarou na sessão de 2012: “O homem público, ou que pretende ser público, não se encontra no mesmo patamar de obrigações do cidadão comum. No trato da coisa pública, o representante do povo, detentor de mandato eletivo, subordina-se à moralidade, probidade, honestidade e boa fé, exigências do ordenamento jurídico que compõem um mínimo ético condensado pela Lei da Ficha Limpa, através de hipóteses concretas, objetivas de inelegibildade.”

Além de Rosa, integrarão o colegiado que julgará o caso Lula no TSE outros dois ministros do Supremo indicados por Dilma: Luís Roberto Barroso e o relator da Lava Jato Edson Fachin. A trinca é vista pela força-tarefa que desbaratou o petrolão como aliada no combate à corrupção. Rosa, Barroso e Fachin compuseram a maioria de 6 a 5 que indeferiu na Suprema Corte o habeas corpus que pretendia livrar Lula da cadeia em abril.

Completam o quadro do TSE outros quatro ministros. Em privado, sinalizam a intenção de render homenagens à Lei da Ficha Limpa. O único que poderia considerar a hipótese de autorizar o registro da candidatura de Lula seria Napoleão Nunes Maia, do STJ. Mas ele será substituído por um colega tido por rigoroso: Og Fernandes, também do STJ. Ou seja: Lula não deve ter vida fácil na Justiça Eleitoral.


Parlamentares também cogitam elevar salários
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Josias de Souza

Sem alarde, deputados e senadores tramam adicionar aos seus próprios contracheques o reajuste salarial de 16,38% reivindicado pelo Supremo e pelo Ministério Público Federal. Com isso, a remuneração dos congressistas também saltaria dos atuais R$ 33,7 mil para R$ 39,2 mil. A ideia é votar o pacote no final do ano, depois das eleições de outubro, para entrar em vigor a partir de 2019.

O tema, por impopular, é discutido longe dos reflertores. O blog conversou com dois líderes partidários —um da Câmara, outro do Senado. Só concordaram em conversar, na noite desta sexta-feira, sob a condição do anonimato. Disseram que não há, por ora, uma decisão categórica. Falta consenso. Mas reconheceram que não são negligenciáveis as chances de aprovação dos reajustes.

Um dos líderes atribuiu o surto sindical ao Supremo, que decidiu incluir em sua proposta de Orçamento para 2019 o reajuste de 16,38%. Nessa versão, o Congresso não estaria senão reagindo, para evitar que os parlamentares recebam salário inferior ao dos ministros do Supremo, teto remuneratório do serviço público.

O outro líder insinuou que, na verdade, caciques políticos e magistrados da Suprema Corte discutem em segredo a a pauta salarial há semanas. Seja qual for a hipótese verdadeira, a falta de transparência dará à eventual aprovação do pacote salarial de fim de ano uma aparência de emboscada contra o eleitor.

Num instante em que a principal ferramenta do Tesouro é a tesoura, a movimentação parece inconsequente. Considerand0-se que mais de 13 milhões de brasileiros estão no olho da rua, a irresponsabilidade fiscal passa a ser o outro nome de escárnio.


Lula já constrói sua ‘candidatura’ a cabo eleitoral
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Josias de Souza

O PT ensaia uma coreografia grandiosa para o registro da candidatura de Lula na Justiça Eleitoral. Será na próxima quarta-feira (15). Nesse dia, haverá manifestações nas principais capitais. Três marchas de movimentos sociais devem chegar a Brasília no início da semana. A multidão gritará ‘Lula livre’. Mas o PT já não cultiva a ilusão de que a cela de Curitiba será aberta antes da eleição. Embora seus dirigentes não admitam publicamente, o que está em curso é a montagem da ‘candidatura’ de Lula ao posto de cabo eleitoral, não mais à Presidência da República. O enquadramento de Lula na Lei da Ficha Limpa é tratado internamente como fava contada.

Para vitaminar o poder de transferência de votos de Lula, o petismo aposta na comoção. Na noite desta terça-feira, o PT levou às redes sociais um vídeo que insinua o que está por vir (assista acima). O mote para a elaboração da peça foi um conjunto de frases pronunciadas por Lula defronte do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo em 7 de abril, dia em que se entregou à Polícia Federal. “Eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia misturada com as ideias de vocês”, disse o condenado, antes de ser conduzido para a cela especial de Curitiba. “Minhas ideias já estão no ar… Agora vocês são milhões de Lulas”.

Lula e seus operadores mantêm em pé o plano de empurrar a impugnação da candidatura presidencial para uma data tão próxima do dia da eleição quanto possível. Consumado o indeferimento do registro no TSE, o partido recorrerá —primeiro à própria Corte eleitoral; depois, ao Supremo. Assim, a golpes de barriga, o PT espera esticar a corda até meados de setembro. Nesse intervalo, enverniza-se a pose de vítima de Lula.

Simultaneamente, alimenta-se o noticiário com matéria-prima para a mistificação do preso. Coisas como o estado de saúde dos seis militantes que dizem fazer greve de fome em Brasília e as evoluções da chapa tríplex (Lula—Fernando Haddad—Manuela D’Ávila), a ser convertida em chapa convencional (Haddad—Manuela) depois que a Justiça interromper, finalmente, a pantomima.

O poder de transfusão de votos de Lula será aquilatado pelas próximas pesquisas eleitorais. Em sua última sondagem, divulgada em junho, o Datafolha informara o seguinte: 30% do eleitorado dizia que votaria com certeza em um nome apoiado pelo pajé do PT. Outros 17% afirmavam que talvez votariam. Uma terceira fatia do eleitorado, estimada em 51%, declarava que não votaria num poste de Lula.

Além de elevar o índice dos eleitores que se deixam influenciar por Lula, o PT tenta reduzir as taxas de migração de votos do seu líder preso para candidatos de outros partidos. Segundo esse Datafolha de junho, 17% dos eleitores de Lula manifestavam a intenção de votar em Marina Silva se a candidatura do petista fosse barrada. Outros 13% prefeririam Ciro Gomes. Fernando Haddad, o poste de Lula, herdaria apenas 2% do eleitorado do padrinho. Até Jair Bolsonaro beliscaria uma fatia maior do cesto de votos de Lula: 6%.


PSDB de Alckmin se junta a Collor em Alagoas
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Josias de Souza

Candidato a vice na chapa de Collor, o tucano Kelmann Vieira (de amarelo) celebra a aliança tóxica

A radioatividade da aliança de Geraldo Alckmin com o centrão alastra-se da seara nacional para os Estados. Em Alagoas, o PSDB do presidenciável tucano cedeu seu tempo de propaganda no horário eleitoral para um personagem tóxico: Fernando Collor, candidato ao governo do Estado. O acerto do tucanato com Collor compôs o pacote de exigências do PP na negociação que encostou o centrão em Alckmin.

Em Alagoas, o PP é comandado pelo senador Benedito de Lira, que integra a chapa de Collor como postulante à reeleição para o Senado. O PSDB se estruturava para lançar seu próprio candidato ao governo estadual. Contudo, rendido à conveniência do projeto nacional, indicou o vereador tucano Kelmann Vieira para ocupar a vice de Collor. E acomodou o deputado estadual Rodrigo Cunha na segunda vaga de candidato ao Senado.

Até ontem, o tucanato alagoano era inimigo de Collor. Ex-presidente nacional do PSDB e ex-governador de Alagoas, Teotônio Vilela Filho, conversou com Alckmin para tentar impedir a aliança. Teve de engolir o sapo. Despejou no Facebook algo muito parecido com o resultado de uma indigestão: “Desde o primeiro instante, manifestei minha posição contrária a aliança do PSDB com o PTC de Collor, sobretudo pela forma impositiva como ela ocorreu. Os meus correligionários sabem que não voto em Collor em nenhuma hipótese.”

A despeito da cara feia, Teotônio parece rendido à evidência de que, em política, nada se cria, nada se transforma, tudo se ajeita. “Continuarei trabalhando firme para elegermos as nossas candidaturas na eleição deste ano, as proporcionais, a de Rodrigo Cunha ao Senado e a de Geraldo Alckmin à Presidência do Brasil.”

Escorraçado do Planalto em 1992, no primeiro impeachment da história, Collor frequenta novamente as manchetes político-policiais. Seu conflito com a ética detectado pela Lava Jato. Ex-inimigo figadal do petismo, Collor tornou-se nos 13 anos de poder petista um feliz apoiador das gestões de Lula e Dilma Rousseff. Em retribuição, participou do saque à Petrobras.

Denunciado pela Procuradoria-Geral da República por corrupção e lavagem de dinheiro, Collor foi convertido em réu pelo Supremo Tribunal Federal. Enquanto aguarda o veredicto, vai à sorte das urnas em Alagoas com o inusitado apoio do PSDB. Collor não tem muito a perder, pois seu mandato de senador vigora até 2022. Derrotado, volta para os arredores dos cofres brasilienses.

Antes de entrar na briga pelo governo alagoano, Collor foi malsucedido numa articulação para indicar o vice na chapa do governador Renan Filho, que pleiteia a reeleição. Primogênito do senador Renan Calheiros, o governador alardeia em sua campanha o apoio do PT de Lula. Se realizar incursões eleitorais em Alagoas, Alckmin não terá com ignorar Collor.


Não é unânime no PT a adesão à tática de Lula
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Josias de Souza

As máscaras de Lula que o PT aplicou sobre o rosto de seus militantes deu à convenção nacional do partido uma aparência de uniformidade. “Somos milhões de Lulas, como ele pediu”, discursou Gleisi Hoffmann. Contudo, a euforia numérica da presidente do PT e o nivelamento teatral da multidão não traduzem com precisão o que se passa nos subterrâneos do partido. Ali, uma minoria inquieta manifesta contrariedade com a tática eleitoral ditada pelo bunker carcerário de Curitiba.

A banda dos insatisfeitos inclui, entre outros grão-petistas, Jaques Wagner e Tarso Genro —ambos serviram ao governo Lula como ministros. Um petista explicou ao blog: “Somos todos solidários a Lula. Mas isso não nos impede de enxergar a realidade. O que une os divergentes é a percepção de que o freio imposto por Lula, retardando o Plano B, prejudica o partido. O que divide o grupo é a falta de consenso quanto ao melhor plano alternativo.”

O incômodo da ala minoritária aumentou depois que Lula deu uma rasteira em Ciro Gomes, empurrando o PSB para fora da coligação do presidenciável do PDT. Um pedaço da oposição interna avalia que, em vez de hostilizar, Lula deveria considerar a hipótese de uma aliança com Ciro ainda no primeiro turno. Outra banda não se conforma com o custo do acerto de Lula com o PSB. Foi ao mar a competitiva candidatura da petista Marília Arraes ao governo de Pernambuco.

Proliferam também as críticas à decisão de Lula de retardar a indicação do candidato a vice na chapa do PT. O grande receio é o de que, cutucado por Lula com o pé, o Tribunal Superior Eleitoral resolva morder o PT. No limite, conforme avaliação dos técnico do tribunal, o PT pode ser privado de participar da eleição presidencial.

A chance de Lula levar em conta as opiniões da minoria inquieta é pequena. No momento, a prioridade de Lula é Lula. A segunda prioridade de Lula também é Lula. Pelos seus planos, quando o registro de sua candidatura esbarrar na Lei da Ficha Limpa, Lula lançará um poste. Se o escolhido for bem sucedido, seu sucesso e seu mandato pertencerão a Lula. Se o poste tropeçar nas urnas, Lula continuará desempenhando o seu melhor papel. O papel de vítima.

Nesse enredo, se o TSE excluir o PT das urnas, oferecerá a Lula mais matéria-prima para a tese da perseguição política.


Globo responde a Bolsonaro sobre golpe de 64
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Josias de Souza


O presidenciável Jair Bolsonaro provocou uma saia justa durante sabatina transmitida pela Globonews na noite desta sexta-feira. Questionado sobre a ditadura militar, o ex-capitão injetou em sua resposta um elogio ao patriarca do grupo Globo, Roberto Marinho, por um editorial publicado na capa de O Globo, em 1984, apoiando o golpe de 1964. No final do programa, a mediadora Míriam Leitão leu uma nota oficial. O texto reconheceu que “O Globo apoiou editorialmente o golpe”. Mas realçou que, em 2013, o jornal veiculou outro editorial, no qual reconheceu o erro.

Bolsonaro citou Roberto Marinho em resposta a uma indagação feita por Roberto D’Ávila. O entrevistador lembrou que o candidato havia declarado que não houve uma ditadura no Brasil. E perguntou: “Como podemos imaginar que o senhor, presidente da República, não vai fazer atos ditatoriais?”

“Quem sempre quis o controle social da mídia foi o PT, não fui eu”, respondeu Bolsonaro. “Uma das marcas da ditadura é ter uma imprensa única. A TV Globo nasceu em 1965. A revista Veja nasceu em 1968.”

Bolsonaro prosseguiu: “Quero elogiar, saudar a memória do senhor Roberto Marinho. Editorial de capa do jornal O Globo, de 7 de outubro de 1984. Abre aspas para o senhor Roberto Marinho: ‘Participamos da revolução de 1964, identificada com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, distúrbios sociais, greves e corrupção generalizada.’ Fecha aspas.”

Bolsonaro devolveu a pergunta: “O senhor Roberto Marinho foi um democrata ou um ditador?” A provocação do candidato do PSL era absolutamente previsível. Ele já havia citado o editorial de O Globo nas redes sociais. Repetira a menção na última segunda-feira, em entrevista para o programa Roda Viva, da TV Cultura. A despeito disso, a atmosfera de improviso que marcou o término da sabatina revelou que a equipe da Globonews deixou-se surpreender.

Embora Míriam Leitão tivesse anunciado o término da sabatina, o programa permaneceu no ar. Sem saber que continuava sendo filmado, Bolsonaro excedia-se nos gracejos. “Vou ter dois ministros nessa sala”, disse, entre risos, aos repórteres que o rodeavam. “Vou dar um abraço hétero no Gabeira”, acrescentou, com a língua destravada.

Súbito, Míriam pôs a ler a nota: “O candidato Jair Bolsonaro disse há pouco que o Roberto Marinho, em editorial de 1984, afirmou que participava do que chamava de revolução de 64, identificado com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas. É fato. Como todos os grandes jornais da época, com exceção da Última Hora, O Globo apoiou editorialmente o golpe, com o objetivo reiterado de Roberto Marinho 20 anos depois.”

A leitura de Míriam era entrecortada por pausas inusuais,  como se o texto estivesse sendo ditado por meio de um ponto eletrônico. A jornalista prosseguiu: “O candidato Bolsonaro esqueceu-se, porém, de dizer que, em 30 de agosto de 2013, O Globo publicou um editorial em que reconheceu que o apoio ao golpe de 64 foi um erro. Nele, o jornal disse não ter dúvidas de que o apoio pareceu aos que dirigiam o jornal na época e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do país. E finaliza com essas palavras o editorial: ‘À luz da história, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editorias no período, que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E corre risco. E ela só pode ser salva por si mesma’.”


‘Estou cumprindo missão de Deus’, diz Bolsonaro
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Josias de Souza

Deus, como se sabe, existe. Mas é evidente que Ele abandonou o Brasil e foi cuidar de outras coisas. Contudo, num instante em que a sucessão de 2018 potencializa a impressão de que o país está à deriva, o Todo-Poderoso enviou um sinal: “Eu estou cumprindo uma missão de Deus”, disse o presidenciável Jair Bolsonaro na noite desta sexta-feira, durante sabatina exibida pela Globonews.

Missão de Deus?, estranhou um incrédulo Roberto D’Ávila. E Bolsonaro: “Eu sou cristão. Olha só a situação que eu cheguei. Sou do baixíssomo clero, não sou ninguém na política, não sou nada. E tenho o apoio popular que está aí. Não é inimaginável o que está acontecendo? Como eu consegui isso?”

Primeiro colocado nas pesquisas que desconsideram o nome de Lula, Bolsonaro extraiu seu “lema” do Evangelho. Citou o livro de João (8:32): “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” Enquanto espera pela revelação da verdade e pelo milagre da multiplicação dos votos, Bolsonaro especula sobre os rumos do seu futuro governo.

Uma coisa parece certa: o candidato prefere ser oportunista e flutuar do que afundar com a racionalidade amarrada no pescoço. “Alguns falam: ‘Você não vai governar, o Brasil vai parar’. Na situação em que se encontra o Brasil é melhor parado do que afundando”, declarou Bolsonaro. “Eu sou diferente. Posso até não ser o melhor, tudo bem, paciência. Mas sou diferente.”

Bolsonaro inspira sentimentos extremos. De um lado, o anti-bolsonarismo primário. Do outro,  o pró-bolsonarismo ingênuo, que aceita todas as presunções de Bolsonaro a seu próprio respeito. Isso inclui aceitar a versão de que o candidato cumpre mesmo uma missão que, por ser divina, é indiscutível. Dias atrás, Bolsonaro prometia elevar de 11 para 21 o quadro de ministros do Supremo. Desistiu. Agora, acena com a hipótese de privatizar a Petrobras caso o preço dos combustíveis não caia. Logo recuará, pois avisa ser pessoalmente contrário à ideia.

Difícil saber o que incomodou mais Bolsonaro durante a transmissão do programa, se o interrogatório dos repórteres ou os punhos de sua camisa. Antes de sair para o estúdio da Globonews, Bolsonaro deve ter feito uma consulta urgente ao economista Paulo Guedes. “Desabotoe os punhos da camisa”, aconselhou o guru do candidato, pelo telefone.

Tomando o conselho como ordem, Bolsonaro retirou os botões das casas correspondentes. E passou toda a sabatina se debatendo contra os repórteres e os punhos frouxos. O pedaço da plateia que prestou atenção ao pano que insistia em escapar pelas extremidades das mangas do paletó de Bolsonaro decerto não notou a inconsistência das respostas do candidato sobre economia.

Não é que Bolsonaro queira ocultar as coisas. A questão é que ele já nem se constrange em revelar tudo o que ignora. “Se eu tenho do meu lado uma pessoa como Paulo Guedes, por que eu vou falar de economia?”, indagou. “Perto do Paulo Guedes, eu não entendo nada. Eu dirijo carro, por exemplo, mas, perto do Nelson Piquet, eu sou um navalha.”

Confirmando-se os desígnios de Deus, você terá que se acostumar com a ideia de que sua vida será dirigida pelo Paulo Guedes. Chamado de “Posto Ipiranga” por Bolsonaro, ele dispõe de procuração divina para pilotar as decisões econômicas que afetarão o seu cotidiano. O que não deixará de ser tranquilizador quando estiver no Planalto um presidente com graves dúvidas existenciais: abotoar ou não abotoar os punhos da camisa?


Marília revive no PT drama que a fez deixar PSB
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Josias de Souza

Fevereiro de 2014: Marília faz pose ao lado de Lula, que acabara de abonar sua ficha de filiação no PT

O destino demonstrou à vereadora recifense Marília Arraes que os raios podem, sim, cair duas vezes no mesmo lugar. Pela segunda vez em quatro anos, Marília foi rifada pela cúpula de um partido político. Em 2014, ela foi excluída de uma disputa pela presidência da Juventude do PSB. Refugiou-se no PT. Agora, a cúpula petista empurra Marília para fora da disputa pelo governo de Pernambuco.

Neta do ex-governador Miguel Arraes, o mito do PSB, Marília exerce o terceiro mandato como vereadora na capital pernambucana, Recife. Tornou-se um pesadelo para o PSB nesta eleição de 2018. Sem nenhuma experiência no Executivo, Marília emergiu nas pesquisas com potencial para derrotar o governador Paulo Câmara (PSB), eleito há quatro anos como “poste” de Eduardo Campos, morto em 2014.

Marília, suprema ironia, é prima do ex-governador Eduardo Campos, outro neto de Miguel Arraes. Desentendeu-se com Campos em 2014, quando ele disputava o Planalto antes de morrer num acidente aéreo. A vereadora, hoje com 34 anos, pleiteava a presidência da Juventude do PSB. Mas seu primo ilustre, que presidia o partido, impôs o nome do filho dele, João Campos. Com a família trincada, João desistiria de concorrer ao cargo. Mas Marília guardou sua raiva no freezer.

Em fevereiro de 2016, Marília descongelou seus rancores e abandonou o PSB. Escreveu na época: “…A cúpula dos que mandam no partido passou a querer comandar desde simples decisões internas partidárias, que coubessem a escolhas democráticas e colegiadas, até o desenrolar de toda a cena e atores políticos do Estado [de Pernambuco].” Acrescentou que “os militantes, foram alijados de qualquer participação na construção democrática.”

A neta de Arraes mudou-se para o PT. Sua ficha de filiação foi rubricada por Lula, durante uma festa de anivertsário dos 36 anos do partido, no Rio de Janeiro. Marília soltou fogos nas redes sociais: “Início de uma nova etapa da minha vida na política. Como sempre, crescendo na adversidade, com a ficha abonada pelo homem que mudou o Brasil.”

Hoje, o “homem que mudou o Brasil” cumpre pena de 12 anos e 1 mês de cadeia. E troveja sobre a cabeça de Marília, disparando desde a cela especial que ocupa em Curitiba raios que os partam contra a candidatura da neta de Arraes ao governo de Pernambuco e os militantes que avalizaram o projeto.

Para impedir o PSB federal de reforçar a caravana de Ciro Gomes (PDT), Lula autorizou o PT a eletrocutar os planos eleitorais de Marília, pavimentando a reeleição de Paulo Câmara. Fez isso num instante em a moça frequenta as pesquisas empatada com o “poste” que seu primo eletrificou há quatro anos.