Blog do Josias de Souza

Categoria : Reportagens

Herman Benjamin diz recear volta do financiamento empresarial: ‘É vício!’
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Josias de Souza

Defensor obstinado do financiamento público das eleições, o ministro Herman Benjamin, corregedor do Tribunal Superior Eleitoral, disse ao blog que receia a volta das contribuições empresariais de campanha. Ele enxerga um “movimento” pela ressurreição das doações privadas. É um vício, diz o ministro, comparando o dinheiro das empresas a um entorpecente que leva os usuários à dependência.

Benjamin conheceu de perto o submundo da política ao exercer a função de relator do processo sobre a cassação da chapa Dilma Rousseff—Michel Temer. Ele perscrutou provas colecionadas pela Operação Lava Jato e interrogou delatores. Hoje, declara que a simples cogitação de retomada do modelo empresarial de financiamento de campanha o apavora.

O ministro suspeita que a defesa do dinheiro privado seja motivada não por razões eleitorais, mas pela perda do biombo que encobre a corrupção política. Na sua opinião, o financiamento público elimina a justificativa para as “sobras de campanha”, eufemismo para enriquecimento ilícito, muito invocado por políticos corruptos pilhados ostentando padrão de vida incompatível com a renda.

Espero que o próprio setor empresarial reaja, disse Benjamin ao blog. Senão por outra razão, pelo menos para que os empresários se libertem dos alegados achaques praticados sob o pretexto de obter contribuição eleitoral.


Centrão quer ex-soldado de Cunha na coordenação política da Presidência
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Josias de Souza

Insatisfeitos com tudo o que Michel Temer vem lhes proporcionando em matéria de cargos e verbas, os partidos do chamado centrão elevaram o nível da extorsão política. Julgam-se sub-recompensados pelos votos que cederam para enterrar na Câmara a denúncia contra o presidente por corrupção. Exigem agora a poltrona do ministro tucano Antonio Imbassahy, coordenador político do Planalto.

O centrão quer acomodar no lugar de Imbassahy o deputado Andre Moura (PSC-SE), atual líder do governo no Congresso. O personagem tem uma biografia dura de roer. Ex-oficial da infantaria parlamentar de Eduardo Cunha, hoje preso em Curitiba, Moura é chamado pelo senador Renan Calheiros (PMDB-AL) de “homicida” —uma alusão ao fato de que, entre os processos que correm contra Moura no Supremo Tribunal Federal, há um inquérito por tentativa de homicídio.

Ex-prefeito do município sergipano de Pirambu, André Moura foi sucedido por um aliado chamado Juarez Batista dos Santos. Os dois se desentenderam. Tornaram-se inimigos políticos. A casa de Juarez foi atacada por quatro homens encapuzados. Houve troca de tiros. Um vigia que montava guarda na casa foi ferido. E Juarez acusou Moura de ser o mandante da agressão. O deputado nega.

O candidato do centrão à vaga de ministro palaciano é réu em três ações penais no Supremo. Numa delas, a Procuradoria diz que Moura, depois de deixar o cargo de prefeito de Pirambu (SE), continuou usufruindo do cofre prefeitura, que bancava desde a compra de alimentos para sua casa até as contas de telefone. Moura atribui as acusações às desavenças políticas que teve com o sucessor Juarez.

André Moura é investigado também em dois inquéritos relacionados à Lava Jato. Acusam-no de atuar em parceria com Eduardo Cunha para achacar empresas a partir de iniciativas adotadas na Câmara. Temer resiste à ideia de expurgar Imbassahy de sua equipe. O centrão sugere que o presidente desloque o auxiliar para outra pasta.

Líder do PSDB na época em que Eduardo Cunha (PMDB-PE) foi cassado e Rodrigo Maia (DEN-RJ) foi escolhido para substitui-lo, Antonio Imbassahy alardeou que deflagraria na Câmara uma articulação para acabar com o centrão. “Não basta eleger um novo presidente e cassar Eduardo Cunha”, disse ele na ocasião. “É preciso aproveitar esse momento para desconfigurar o centrão, derrubando os muros que separam esse grupo do resto da Câmara.” Ressuscitado por Temer, o centrão dá o troco.

Deve-se a Eduardo Cunha a criação do centrão. Na origem, a prioridade do grupo era sequestrar a pauta legislativa do então governo Dilma Rousseff. O centrão chegou a reunir 12 legendas: PP, PR, PSD, PTB, PROS, PSC, SD, PRB, PEN, PTN, PHS e PSL. Juntas, somavam 225 votos. Imbassahy se referia ao grupo com termos ácidos:

“O centrão é visto como uma bactéria dentro da Câmara. Mas há gente de valor nesses partidos. São deputados que podem ser atraídos para uma agenda de interesse do país. Nossa obrigação é tentar requalificar as relações na Câmara, derrubando muros, buscando convergências.”

Agora, é o grupo enxerga Imbassahy como um vírus a ser combatido. O grupo agarra-se ao fato de metade da bancada tucana ter votado a favor da continuidade do processo contra Temer. “Ficou demonstrado que o Imbassahy não coordena nem o partido dele”, diz um dos líderes do centrão. A nova investida chega num instante em que o Planalto perde musculatura no Congresso.


Em 2018, limite de despesa para cada presidenciável será de R$ 150 milhões
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Josias de Souza

O Congresso votará limites de gastos para os candidatos às eleições de 2018, a serem financiadas com verbas públicas. Projeto de lei que complementa a reforma política prevê que cada candidato à Presidência da República poderá gastar no máximo R$ 150 milhões em sua campanha. Se houver segundo turno, os contendores terão direito a despender um valor adicional de até R$ 75 milhões, elevando o teto de cada campanha finalista para R$ 225 milhões.

A cifra é inferior aos valores declarados ao Tribunal Superior Eleitoral por Dilma Rousseff na sucessão de 2014. Mas é praticamente igual ao montante formalmente declarado por Aécio Neves, o tucano que perdeu a disputa no segundo turno para a ex-presidente petista. Noves fora o caixa dois, o comitê de campanha de Dilma contabilizou gastos de R$ 350,5 milhões. O de Aécio Neves, R$ 223,4 milhões. Os gastos foram bancados por empresas privadas.

A proposta a ser votada pelos congressistas prevê que, nas campanhas para governador, o limite de gastos em 2018 levará em conta o número de eleitores de cada colégio eleitoral.

Nos Estados com até 1 milhão de eleitores, cada candidato poderá gastar no máximo R$ 4 milhões. Onde houver até 2 milhões de eleitores, R$ 7 milhões. Para até 4 milhões de eleitores, R$ 8 milhões. Nos Estados com 10 milhões de votantes, o limite será de R$ 13 milhões. Até 20 milhões de eleitores, R$ 20 milhões. Nas unidades da federação com mais de 20 milhões de eleitores, R$ 30 milhões. Onde houver segundo turno, cada candidato a governador poderá gastar no máximo 50% do limite fixado para o primeiro turno.

A disputa pelo Senado seguirá modelo análogo. Nos Estados com até 1 milhão de eleitores, o limite de gasto para cada candidato será de R$ 2,5 milhões. Até 2 milhões de votantes, R$ 3 milhões de teto. Até 4 milhões de eleitores, R$ 3,5 milhões. Nos Estados que tiverem entre 4 milhões e 10 milhões de eleitores, R$ 4,5 milhões. Entre 10 milhões e 20 milhões de eleitores, R$ 6 milhões. Acima de 20 milhões de eleitores, R$ 8 milhões de limite de gasto por candidato ao Senado.

A proposta fixa em R$ 2,5 milhões o limite de despesas para uma campanha a deputado federal. Para deputados estaduais e distrital, R$ 1,5 milhão.

Além dos R$ 3,6 bilhões em verbas públicas que o Congresso planeja despejar no fundo de financiamento eleitoral, os candidatos poderão dispor de doações de pessoas, jamais de empresdas. A proposta prevê que cada doador poderá destinar a campanhas eleitorais no máximo 10% dos seus rendimentos brutos no ano anterior. Com um detalhe: as doações não poderão ultrapassar a cifra de R$ 10 mil para cada cargo que estiver em disputa no pleito de 2018.

A proposta autoriza os candidatos a deputado federal, estadual ou distrital a utilizar recursos próprios em suas campanhas, desde que o montante não ultrapasse a 7% do limite de gastos fixado para respectivo cargo. Candidatos a cargos majoritários (presidente, governador e senador) poderá retirar dos próprios bolsos no máximo R$ 10 mil.


Para Alckmin, falta ‘legitimidade’ à gestão Temer
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Josias de Souza

O governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin, declarou que a falta de voto faz de Michel Temer um governante ilegítimo. Ele esmiuçou o raciocínio: “Claro que o governo sofre de ilegitimidade. Essa é a lógica da democracia. Precisa ter voto. Fui governador sem voto porque o Mário Covas faleceu e assumi o governo. Depois, eu fui três vezes governador com voto. Eleito. É totalmente diferente. Então é claro que o governo sofre um grande problema de falta de legitimidade, o que dificulta a governabilidade.”

A declaração foi feita em entrevista à Rádio Gaúcha (ouça no rodapé). A conversa ocorreu na manhã desta quinta-feira, três dias depois de Temer ter afagado o prefeito paulistano João Doria, que trava com Alckmin uma batalha não-declarada pela vaga de presidenciável do PSDB. Numa solenidade em São Paulo, o presidente chamou Dória de “companheiro”. E declarou que o prefeito “compreende como ninguém os problemas do país”, tem “uma visão nacional”.

A pergunta que levou Alckmin a grudar em Temer o selo da “ilegitimidade” fez menção a Doria. Falava-se sobre as alianças que o governador cogita fazer para 2018. Recordou-se ao entrevistado a “aproximação” de Temer com Doria. Sobreveio, então, a pergunta: O PMDB, com o todo o desgaste de Temer, é um parceiro com quem o PSDB gostaria de dividir o palanque em 2018?

“O PMDB tem bons quadros”, respondeu Alckmin. “Eu fui do MDB, do velho manda brasa, na época da Arena e do MDB.” Na sequência, sem dar nome aos “bons quadros” peemedebistas, o governador tucano disparou a avaliação tóxica sobre a “ilegitimidade” da gestão Temer.

Indagou-se também a Alckmin se o PSDB, no comando de quatro ministérios, deve permanecer no governo. E ele: “Acho que está superada essa questão. Nós vamos votar as reformas independentemente de estar ou não no governo. Os ministros vão acabar saindo, até porque a maioria deles é candidato. Isso depende do foro íntimo de cada um e do próprio presidente. Quero reafirmar aqui a nossa luta. Ajudamos na reforma trabalhista, acho que ela vai aumentar o número de empregos no Brasil.”

A certa altura, Alckmin foi instado a comentar a propaganda exibida pelo PSDB no rádio e na TV. Nela, o partido admite que “errou e tem que fazer uma autocrítica.” Mas não especifica os pecados que gostaria de expiar. Onde errou? O Aécio Neves é um desses erros? O apoio ao governo Temer é outro? Imprensado, o entrevistado soou implacável com Aécio: “Em relação ao Aécio, tanto é que ele próprio já se afastou da presidência do partido e o Tasso Jereissati já assumiu.”

Alckmin acrescentou: “Em relação ao governo Temer, defendi lá atrás que nós não participássemos, que ajudássemos em todas as medidas que fossem de interesse do país, mas que não precisava participar do governo. Não vamos deixar de votar nada do que seja necessário ao país por participar ou não. Mas acho que isso já está superado.”

De resto, Alckmin insinuou que resta ao PSDB buscar nas urnas de 2018 a legitimidade que falta a Temer: “Acho que nós temos de preparar um grande projeto para o futuro. A eleição do ano que vem é decisiva, porque um governo eleito pelo voto popular, com grande legitimidade, tem condição de fazer muito mais para ajudar o Brasil a recuperar o emprego, crescer. O Brasil é um país vocacionado para o crescimento. […] Vejo com otimismo, acho que gente pode voltar a crescer.”

Em ritmo de pré-campanha, Alckmin viajará para o Sul do país no final de semana. Nesta sexta-feira, estará em Porto Alegre. No sábado, em Florianópolis. Ele confirmou que o PSDB deve antecipar a escolha do seu candidato no final do ano. “Não precisa ser agora, mas também não pode ser improvisado, de última hora. Essas coisas precisam ser feitas com antecedência. O Brasil é um país continental, precisa haver boas propostas, programas, ouvir, debater. Então, o prazo deve ser dezembro.”

Alckmin também falou sobre a reforma política que está sendo votada na Câmara. Revelou-se contrário a tudo o que consta do projeto —do sistema batizado de “distritão” ao fundo público de financiamento da campanha. Repare na íntegra da entrevista, disponível abaixo:


Lula compara partido a Tiradentes: ‘PT é imortal’
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Josias de Souza

À espera do julgamento do recurso judicial que pode convertê-lo em ficha-suja, Lula realizou nesta quarta-feira mais um ato de sua campanha fora de época. Postulante ao posto de vítima, discursou à noite para petistas de Franco da Rocha (SP). Disse que os ataques que lhe fazem são endereçados, na verdade, ao PT. E comparou a legenda a ninguém menos que Tiradentes. “O PT é imortal”, declarou a certa altura.

Disse Lula: “Esse país teve um homem chamado Tiradentes, que ousou começar a organizar o povo para lutar pela independência do Brasil. […] E resolveram matar esse cara. Mataram o cara, esquartejaram o cara, salgaram a carne dele e penduraram no poste, pra ninguém esquecer. O que aconteceu de verdade? O fato de você matar a carne não significa que você matou as ideias. E as ideias de independência desse país continuam…”

Mesmo sabendo que ninguém mais desconhece que os dois maiores escândalos da República —o mensalão e o petrolão— têm origem no seu reinado, Lula acredita que ainda pode dizer o que bem entender. Construiu um enredo de fábula. Nele, o PT é uma agremiação imaculada, que resiste às supostas tentativas de esquartejamento político.

“Desde dezembro de 2014 que eu disse que eles estavam querendo criminalizar o PT”, disse Lula, antes de emendar que, no vaivém das estatísticas, o partido continua ostentando “32% da preferência nacional” a despeito dos escândalos. “Eles precisam perceber que o PT é imortal, porque o PT é um conjunto de ideias. Não vão conseguir destruir o PT porque a ideia que o PT significa é muita coisa. […] O povo aprendeu a pensar com a sua cabeça, não quer mais ser mandato, não quer ser coadjuvante. Passou a ser sujeito da história.”

Lula fala das conquistas do seu governo sem mencionar que o poste Dilma Rousseff, eletrificado por ele um par de vezes, desfez tudo o que seu criador considera ter feito. Se Deus escolhesse um lugar para viver, não ousaria escolher senão o Brasil idealizado de Lula. Como não pode, o próprio Lula o substitui.

Condenado a nove anos e meio de cadeia por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Lula fala como se o país inteiro estivesse disposto a pegar em lanças caso a Justiça se atreva a passá-lo na chave. “Se o problema é tentar evitar que o Lula seja candidato, isso não é problema. O problema do Brasil não é o Lula, são os milhões de lulas que existem nesse país —mulheres, homens e crianças que aprenderam a ter confiança.”

Lula insinua que sua punição prejudicaria “204 milhões de habitantes desse país.” O todo-poderoso do petismo lamenta tanta injustiça: “O que eu não acho justo é tentar prejudicar o país inteiro…” O orador ensinou à plateia que brigar por ele é como brigar por si próprio.

“A briga não é minha. A briga é nossa”, disse Lula. “Vocês têm sempre que ter em mente: eu não sou eu, eu sou o resultado de vocês. Eu sempre disse: eu sou o resultado do crescimento da consciência política do povo brasileiro.”

Esse mesmo tipo de lero-lero estimulou a ilusão de que o impeachment de Dilma incendiaria as ruas. Depois, propagou-se a fantasia de que o país entraria em combustão se Lula fosse condenado. Dependendo do veredicto do TRF-4, sediado em Porto Alegre, o grande líder logo perceberá que o pior tipo de solidão é a companhia dos presos da Lava Jato, em Curitiba. (Assista no vídeo abaixo o ato petista de Franco da Rocha. O discurso de Lula começa aos 7min52s)


Cármen Lúcia propõe que Supremo não reivindique reajuste que o MPF já pediu
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Josias de Souza

Os ministros do Supremo Tribunal Federal realizam nesta quarta-feira uma reunião administrativa. Discutirão o Orçamento do Judiciário para 2018. A ministra Cármen Lúcia, presidente da Corte, submeterá aos colegas uma peça que exclui qualquer previsão de reajuste salarial. Com isso, ela toma distância da pauta sindical do Ministério Público Federal. E deixa mal a futura procuradora-geral da República Raquel Dodge, que assume o cargo no mês que vem, mas já avalizou um pedido de aumento de 16,38% para os contracheques dos procuradores.

As propostas orçamentárias do Judiciário e da Procuradoria têm de ser remetidas até 31 de agosto ao Congresso, junto com as previsões de receitas e despesas do Poder Executivo. Os ministros do Supremo estão divididos sobre o reajuste. Entretanto, num instante em que a União está endividada até a raiz dos cabelos do contribuinte, é improvável que a maioria dos ministros troque a sensatez de Cármen Lúcia pela agenda sindical impopular dos procuradores. Mesmo os ministros que consideram o reajuste necessário, tendem a constatar que ele é não é possível.

A posição da presidente do Supremo não contraria apenas a vontade dos procuradores. Azeda também os humores dos juízes brasileiros, que esperavam tomar carona no reajuste dos ministros do Supremo, tonificando seus próprios vencimentos. O aumento de 16,38% para procuradores e juízes consta de projetos de lei que já tramitam no Congresso desde o ano passado. Foram aprovados na Câmara. Mas o Senado enviou-os ao freezer. Sem previsão orçamentária, as propostas perdem o sentido.

Hoje, os ministros do Supremo recebem salário mensal de R$ 33,7 mil. Com o reajuste, a cifra iria para R$ 39,2 mil. Esse vencimento serve de teto para as demais remunerações do serviço público. Nenhum servidor pode ganhar mais do que isso. A remuneração do procurador-geral da República é igual. Portanto, os procuradores só poderiam ter aumento se os magistrados do Supremo concordassem.

Levantamento feito pela Consultoria de Orçamento do Senado no ano passado revelou que a eventual aprovação do projeto que reajusta o salário dos ministros do Supremo pode empurrar para a ilegalidade as folhas salariais de tribunais de Justiça de pelo menos sete Estados. Incluindo-se na análise o Ministério Público e os tribunais de contas estaduais, o risco de desrespeito aos limites legais para despesas com salários pode se repetir em 17 Estados.

O aumento para os ministros do Supremo produz um efeito cascata que se estende da União para os Estados. Quando sobem, os contracheques das togas da Suprema Corte levam junto as remunerações de legiões de servidores, dentro e fora do Poder Judiciário.

No caso dos tribunais de Justiça dos Estados, a repercussão é instantânea. O problema é que vários desses tribunais flertam com o desrespeito à Lei de Responsabilidade Fiscal, que limita as despesas com a folha do Judiciário a 6% da RCL, sigla de Receita Corrente Líquida dos Estados.

De acordo com o estudo do Senado, o Tribunal de Justiça do Espírito Santo já ultrapassou o limite máximo de 6%. Gasta com salários o equivalente a 6,2% da receita. Os tribunais do Tocantins e da Paraíba já ultrapassaram o limite prudencial de 5,7% da receita. Rio de Janeiro, Ceará, Piauí e Maranhão romperam o limite legal de alerta, aproximando-se perigosamente do chamado limite prudencial.

No caso do Ministério Público dos Estados, que também seria alcançado pela cascata de reajustes, a situação é ainda mais grave. Mais da metade dos Estados que apresentam informações fiscais disponíveis já estão com despesas de pessoal de seus promotores acima do limite de alerta.

O documento estima que, considerando-se toda a repercussão em cascata, o eventual reajuste salarial dos ministros do Supremo pode gerar um impacto financeiro anual superior a R$ 4,5 bilhões. Num instante em que o governo cogita elevar o rombo fiscal de 2017 para além da meta de R$ 139 bilhões negativos, uma farra salarial desse tipo representaria um tapa na cara dos 13 milhões de brasileiros sem contracheque.

— Atualização feita às 12h01 desta quarta-feira (9): Em contato com o blog, a assessoria do Tribunal de Justiça do Tocantins fez o seguinte esclarecimento: “Em relação a 2016, realmente o Poder Judiciário do Tocantins esteve acima do limite prudencial definido na Lei de Responsabilidade Fiscal para despesas com pessoal. Contudo, conforme relatório do último quadrimestre, o índice atual é de 5,33% —o que coloca o TJ-TO abaixo do limite de alerta (que é 5,4%) e do limite prudencial (que é de 5,7%).”


DEM quer engordar para liderar chapa em 2018
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Josias de Souza

Por trás da colheita de deputados que o DEM realiza em outras legendas esconde-se um objetivo ambicioso. O partido do presidente da Câmara Rodrigo Maia tenta estruturar um projeto presidencial para 2018, abandonando a condição de coadjuvante perpétuo do PSDB. No comando do DEM, o senador Agripino Maia vende aos interlocutores a tese segundo a qual há espaço no Brasil para reproduzir o movimento político que alçou Emmanuel Macron, 39, à Presidência da França, em maio passado.

O plano do DEM é conquistar a terceira ou segunda maior bancada de deputados federais, elevando suas atuais 30 cadeiras para algo entre 50 e 60 assentos na Câmara. A articulação envolve descontentes do PSB, do PSD, do PMDB e até do PSDB. Mais gordo, o partido ampliaria seu tempo de propaganda na TV. E passaria a abocanhar uma fatia mais generosa do fundo que financia as legendas com verbas públicas.

A transposição do ‘Projeto Macron’ do gogó para a realidade não será coisa trivial. O DEM é uma sigla que assumiu o poder no Brasil depois que as caravelas de Cabral aportaram em Porto Seguro. Para se apresentar ao eleitorado como a última novidade da política nacional, a legenda teria de passar por uma cirurgia plástica que a virasse do avesso.

Na época da ditadura, o DEM chamava-se Arena. Virou PDS. Na redemocratização, foi apelidado PFL, antes de ser rebatizado de DEM. Sob Fernando Henrique Cardoso, elegeu a segunda maior bancada do Congresso. Presidiu simultaneamente a Câmara, com Luís Eduardo Magalhães, e o Senado, com o pai dele, Antonio Carlos Magalhães.

Enviado à oposição por Lula, o partido definhou. Longe dos cargos e dos cofres públicos, o DEM encolheu para 21 deputados. Cavalgando o Bolsa Família, o PT retirou do rival o eleitorado cativo dos fundões pobres do Norte e do Nordeste. No comando da Câmara e de volta à engrenagem estatal sob Michel Temer, a legenda voltou a acalentar o sonho de consolidar-se como uma força liberal de centro.

O esforço para revitalizar o DEM inclui outro rebatismo e uma nova roupagem para o ideário do partido. O novo nome, ainda por escolher, daria conforto aos potenciais novos filiados. Suavizaria, por exemplo, o salto triplo carpado que os supostos socialistas do PSB terão de dar para entrar no ex-PFL. A remodelagem programática empurraria a legenda para o centro ideológico.

Nas palavras de Agripino, a ideia é produzir uma força política capaz de se contrapor ao ultradireitismo encarnado por Jair Bolsonaro e ao populismo representado por Lula.

Sem um líder de expressão nacional, o DEM sonha em atrair a filiação de um nomão que tenha projeção e disposição suficientes para disputar a Presidência. Pode ser um outsider, costuma dizer Agripino. Essa versão brasileira de Macron ainda não apareceu. Mas a legenda se equipa para recepcioná-la.

O DEM imagina que, tornando-se maior e mais organizado do que o tucanato, chegará à campanha presidencial do ano que vem como uma alternativa real de poder. Ecoando um velho desejo da sua tribo, Agripino afirma: Vamos sentar na mesa com o PSDB para uma conversa de igual para igual. Levando-se em conta a desagregação do tucanato, este talvez seja o pedaço mais factível de todo o plano do DEM.


Sob risco de prisão, Lula vaticina: ‘Vamos voltar’
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Josias de Souza

Lula passou a sexta-feira na Zona Sul da cidade de São Paulo. À noite, discursou para uma plateia companheira num evento do PT. Condenado a 9 anos e 6 meses de cadeia, ignorou o risco de prisão que o assedia para vaticinar: “Esperem as eleições de 2018, que nós vamos voltar…”

Septuagenário, o pajé do petismo revelou que, para se manter em forma, costuma exercitar outros músculos além da língua: “Tenho 71 anos de idade. Estou novo, garotão. Faço duas horas de ginástica por dia. Levanto às cinco da manhã. Estou quase ficando bombado. Faço 7 km todo dia, além da musculação —faça chuva ou faça sol. Quero mostrar que um velhinho de 72 anos, com tesão por esse país, vai fazer muito mais do que um jovem sem tesão.”

Sem mencionar a Lava Jato, Lula voltou a fazer pose de perseguido político. Em timbre megalomaníaco, insinuou que seus algozes prejudicam toda a população brasileira: “…Se eles querem fazer alguma coisa comigo, se eles querem evitar que eu tenha a possibilidade de concorrer em 2018, se eles querem julgar o meu governo é uma coisa. O que eles não podem —por uma questão moral, política, de decência e de respeito —é, para me prejudicar, prejudicarem 204 milhões de brasileiros, sobretudo a maioria do povo trabalhador…”

Réu em cinco ações penais, já sentenciado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Lula disse coisas assim: “Se tiver corrupção, tem que ser preso quem roubar. Empresário roubou, tem que ser preso. Político roubou, tem que ser preso. Juiz roubou, tem que ser preso. Qualquer um que roubar.” No caso do PT, disse o oligarca da legenda, o que mais incomodou os rivais não foi a corrupção, mas a ascensão social dos pobres.

Escorando-se em autocritérios, Lula jactou-se de sua ex-presidência. “O Brasil era respeitado internacionalmente. O Brasil ficou um país popstar, mais do que o Neymar está hoje. As pessoas só falavam do Brasil lá fora.” O ex-soberano não notou. Mas o Brasil continua falado no estrangeiro. Desde o mensalão, o país está pendurado de ponta-cabeça nas manchetes como uma das nações mais corruptas do planeta.

Mais próximo das grades do que das urnas, Lula ameaçou a turma da Lava Jato. “Eu vou processá-los por danos morais. A coisa não fica barata, não. Eles não sabem o que é mexer com Garanhuns. Se tem político com rabo preso e está com medo, é problema de quem está com rabo preso. Se tem político que não quer abanar o rabo porque está com medo, é problema dele. Comigo eles vão ter que provar, custe o que custear, demore o quanto demorar.”

Ao se despedir da plateia, Lula flechou Michel Temer, que celebra o sepultamento na Câmara da denúncia em que a Procuradoria o acusa de corrupção passiva: “O Temer, que gastou anteontem R$ 14 bilhões para comprar 260 votos, não perde por esperar. Até a vitória do nosso partido!”

Acomodado por Lula na chapa de Dilma Rousseff, hoje reduzida à condição de cuidadora dos netos, Temer realmente revelou-se mais jeitoso do que a antecessora no gerenciamento do balcão. O difícil será superar o próprio Lula, que comprou o Legislativo durante oito anos, servindo aos aliados rações regulares de mensalão e de petrolão. (veja abaixo o discurso de Lula, antecedido por manifestação da presidente do PT, Gleisi Hoffmann)


Advogado acusa desembargador de corrupção
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Josias de Souza

O vídeo acima exibe uma cena inusitada. Deu-se numa sessão de julgamento do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, na quinta-feira. Relator do processo que estava sendo julgado, o desembargador Eduardo Gallo foi acusado pelo advogado Felisberto Córdova de negociar o seu voto. Na versão do acusador, o magistrado recebeu oferta de propina de R$ 500 mil para proferir voto favorável à empresa que é ré na ação. Pior: ofereceu à outra parte a oportunidade de cobrir a oferta. Pediu R$ 700 mil para mudar de posição.

“Eu vou dizer, senhor presidente, que o julgamento que está acontecendo aqui é comprado. Eu estou fazendo uma denúncia”, disse o doutor em sua sustentação oral. Olhando para o desembargador, ele prosseguiu: “Esse cidadão foi abordado com uma proposta que veio do Rio de Janeiro para receber R$ 500 mil –R$ 250 mil antes, R$ 250 mil depois. E o descarado chegou a mandar para o nosso escritório uma contraproposta que poderíamos cobrir por R$ 700 mil.”

O advogado Felisberto fez uma analogia com o que se passa em Brasília: “Eu insisto, senhor presidente, isto aqui não é o Senado. Isso aqui não é a Câmara dos Deputados. Isso aqui é um Tribunal de Justiça. E é preciso que a moralidade surja e venha a termo. E que a promotoria, inclusive, assuma a investigação desse processo. Tudo está sendo nulo aqui. Tudo está sendo nulo aqui. Eu não abro mão de denúncias. Safado.”

O desembargador Gallo esboçou uma reação: “Está num nítido excesso. Eu estou, nesse momento, eu estou requerendo a prisão do advogado. Senhor presidente, está tendo um nítido excesso dos direitos, eu não admito”. Seu acusador não se deu por achado: “Vamos os dois presos, que eu quero te quebrar a cara dentro da cela. Vagabundo!”

Abespinhado com a inércia do colega que presidia a sessão, Gallo elevou o timbre: “Eu não vou admitir que um advogado me chame de vagabundo e vossa excelência não tome providências. Eu nunca passei por isso na minha vida. Eu tenho 25 anos de magistratura e requeiro a prisão do advogado.”

A encrenca envolve uma ação sobre a venda e desapropriação de um terreno no Paraná. Coisa de R$ 35 milhões. O caso perambula pelo Judiciário há mais de três décadas. O advogado Felisberto vencera o processo na primeira instância. Nesta sexta-feira, em entrevista exibida pelo Jornal Nacional, Felisberto reiterou as acusações contra Gallo, que as refutou.

Em nota, o Tribunal de Justiça catarinense lamentou o episódio. O texto informa que foi aberta uma investigação. O Conselho Nacional de Justiça também abriu uma sindicância para apurar as acusações do advogado.


Alckmin combina com Tasso escolha do presidenciável do PSDB até dezembro
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Josias de Souza

Em conversa com o governador paulista Geraldo Alckmin, o senador Tasso Jereissati comprometeu-se a apressar o processo de escolha do presidenciável que representará o PSDB na sucessão de 2018. Combinaram que o nome deve ser definido até dezembro. Satisfeito com o acerto, Alckmin avalizou a permanência de Tasso como presidente interino do partido até o final do ano.

Licenciado do comando do PSDB há 70 dias, desde que foi abalroado pela delação de Joesley Batista, da JBS, Aécio Neves fez um apelo a Tasso para que esticasse sua interinidade. Antes de responder, Tasso tocou o telefone para Alckmin. Obteve a concordância do governador. Depois, impôs uma condição a Aécio: não toleraria duplo comando. A exigência foi aceita, pelo menos no gogó.

Aécio disputava a candidatura com Alckmin. Mas virou mero estorvo depois que foi asfixiado por nove inquéritos criminais no Supremo Tribunal Federal. Menos enroscado na Lava Jato, o governador de São Paulo enxerga na interinidade de Tasso uma oportunidade para obter o que Aécio lhe sonegava. Interessa a Alckmin entrar em 2018 com o crachá de candidato, pois a lei o obriga a organizar a entrega das chaves do Palácio dos Bandeirantes para o vice Márcio França (PSB) até o início de abril.

Em privado, os principais pajés do tucanato avaliam que Alckmin vai se consolidando como uma candidatura incontornável para o PSDB. Ironicamente, o único personagem que poderia fazer-lhe sombra é o prefeito paulistano João Doria, sua cria política. Mas dissemina-se no partido a impressão de que Doria não se animará a transformar suas manifestações sinuosas sobre 2018 numa batalha contra seu padrinho político.

Na pesquisa presidencial mais recente, divulgada pelo Datafolha no último mês de junho, Alckmin amealhou um modestíssimo quarto lugar (8%). Ficou na rabeira de Lula (30%), Jair Bolsonaro (16%) e Marina Silva (15%). Num cenário com Doria, o candidato do PSDB obteria hoje 10% das intenções de voto. Resta saber se uma eventual melhoria do índice do prefeito não lhe subirá à cabeça até dezembro.