Blog do Josias de Souza

Categoria : Reportagens

Alckmin flerta com a eleição presidencial indireta
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Josias de Souza

O governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) analisa a hipótese de participar da eleição indireta à Presidência da República se Michel Temer for apeado do cargo. Ele ainda não tomou uma decisão. Mas executa uma coreografia de candidato. Após consultar juristas, concluiu que pode entrar na disputa sem renunciar à poltrona de governador. Bastaria pedir licença do cargo. Recebeu estímulos de outros governadores. E trocou ideias com membros do seu grupo político.

A briga pela poltrona de Temer ganhou novos contornos. Alckmin e os apologistas do seu projeto presidencial concluíram que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), tornou-se franco favorito na corrida pelo trono. Perceberam que não está em jogo apenas o mandato-tampão do substituto constitucional de Dilma Rousseff. Na prática, disputa-se uma prévia de 2018. O escolhido do Congresso se converterá num candidato automático à reeleição.

Obcecado pelo Planalto, Alckmin passou a considerar que o melhor protagonista do PSDB nesse enredo talvez seja ele próprio, não o senador Tasso Jereissati (CE), que substituiu Aécio Neves no comando do partido e foi alçado à lista de opções presidenciais. Tasso esteve em São Paulo nesta quinta-feira. Reuniu-se com Alckmin, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o prefeito João Doria.

Operadores políticos de Alckmin atribuem o favoritismo de Rodrigo Maia a quatro fatores:

1) Como presidente da Câmara, ele leva vantagem no jogo de sedução dos 513 deputados, um “eleitorado” mais de seis vezes maior do que os 81 votos disponíveis no Senado;

2) Além de ter bom trânsito na maioria das bancadas, Rodrigo Maia alarga a banda esquerda do seu cesto de votos atraindo o ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo (PCdoB-SP) para ocupar o posto de vice na sua chapa.

3) Genro do ministro Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência), Maia desfila nos bastidores como uma espécie de Plano B do próprio Temer, cacifando-se para receber parte dos votos do PMDB.

4) Na hipótese de afastamento de Termer, Rodrigo Maia assumirá a Presidência da República para convocar as eleições indiretas em 30 dias. Nesse intervalo, colocaria a máquina federal a serviço de sua permanência no cargo.

Pelas contas do grupo de Alckmin, Rodrigo Maia estaria muito próximo de colecionar algo como 300 dos 513 votos da Câmara. Alckmin entraria na briga com cerca de 150 votos. E teria de molhar a camisa para alcançar o rival. Imagina que, além dos votos do tucanato, arrastaria o grosso do PSB e do PPS, além de pedaços de legendas como PV, PP, PR, PTB, PSD e assemelhados.

A despeito de todas as dificuldades, os partidários de Alckmin avaliam que sua hipotética candidatura presidencial teria mais chances de êxito do que a de personagens como Tasso e o ex-ministro Nelson Jobim. Resta saber se Alckmin terá disposiçãp para comprar a briga. Alckmin e Rodrigo Maia têm algo em comum além do desejo de sentar na cadeira de presidente: ambos frequentam as planilhas do departamento de propinas da Odebrecht. Na lista de beneficiários da construtora, Maia é o “Botafogo”.  Alckmin, o “Santo”. Mas isso não parece fazer diferença numa eleição que será definida pelos votos dos clientes de caderneta da Lava Jato e de outras encrencas criminais.


TSE e Rocha Loures são os temores de Temer
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Josias de Souza

Com uma capacidade cada vez mais limitada de fazer e acontecer, Michel Temer tornou-se presidente de prioridade única. Ele se dará por satisfeito se conseguir cumprir seu novo objetivo estratégico: não cair. Compartilhou com pessoas de sua confiança duas inquietações. Receia que o Tribunal Superior Eleitoral lhe casse o mandato. E teme que uma eventual delação do ex-assessor Rodrigo Rocha Loures —o homem da mala— elimine sua margem de manobra antes mesmo do início do julgamento do TSE, marcado para 6 de junho.

Antes do pacote de delações da JBS, Temer havia apagado o TSE da sua lista de problemas. Estimava que teria uma vitória na Justiça Eleitoral pelo placar de pelo menos 4 a 3. As posições dos sete julgadores eram antecipadas no Planalto como se o jogo estivesse jogado. Salvariam Temer os ministros Gilmar Mendes, Tarcísio Vieira, Admar Gonzaga e Napoleão Nunes Maia. Votariam pela cassação o relator Herman Benjamin, Rosa Weber e, talvez, Luiz Fux.

Depois que vieram à luz os resultados da colaboração judicial da JBS, o que o Planalto considerava um grande trunfo voltou-se contra Temer. Dizia-se que a maioria dos ministros faria uma leitura atenuatória dos fatos relacionados ao presidente para não conturbar uma administração que começava a exibir resultados na economia.

Agora, o feitiço do julgamento político começa a se voltar contra o feiticeiro, cuja permanência no cargo passou a ser vista como ameaça à tímida recuperação dos indicadores econômicos. O Planalto ainda contabiliza um placar de 4 a 3, só que contra a permanência de Temer.

Ironicamente, uma adesão do TSE ao ‘fora, Temer’, levaria a um resultado mais técnico. O veredicto não precisaria comprar a fábula segundo a qual Temer assumiu a cadeira de presidente por ser beneficiário dos 54 milhões de votos que os brasileiros deram a Dilma, mas não tem nada a ver com a dinheirama suja que financiou a campanha que produziu esse resultado.

A esperança de Temer de se salvar no TSE diminui na proporção direta do agravamento da crise. À procura de uma porta de incêndio, caciques do Congresso assediam a Justiça Eleitoral com pouca cerimônia. Para complicar, os operadores do presidente estão inseguros em relação aos humores de Rocha Loures, o personagem filmado recebendo a mala com propina de R$ 500 mil da JBS, dias depois de ter sido credenciado por Temer como sua ponte de ligação com o delator Joesley Batista.

Num primeiro momento, o ex-assessor de Temer, hoje deputado federal afastado do exercício do mandato pelo STF, mandara recados tranquilizadores para o Planalto. Sinalizara a intenção de matar a encrenca no peito, como se diz. Distanciaria a mala de dinheiro da figura de Temer, assumindo todas as culpas. Nos últimos dias, porém, Rocha Loures passou a sofrer pressão de sua família para tornar-se um colaborador da Justiça, negociando uma redução de castigo. De repente, fecharam-se os dutos de comunicação com emissários do governo.

Em viagem à Itália, o senador Roberto Requião (PMDB-PR) comentou com um amigo, pelo telefone: “O Rocha Loures foi meu chefe de gabinete no governo do Paraná. É moço de família rica, um rapaz de ouro. Não vai suportar essa pressão. Vai entregar.”

Um auxiliar de Temer sustenta que não há o que “entregar”. A declaração não combina com o medo que se espraia pelo Planalto. Contrasta também com o relato do delator Ricardo Saud, executivo da J&F, a holding que controla a JBS. Ele contou aos procuradores que o interrogaram que Rocha Loures era um mero intermediário. A negociação da propina era feita, segundo Saud, diretamente com o presidente Temer.

“Eu tenho certeza absoluta que nós tratamos propina com o Temer, nós nunca tratamos propina com o Rodrigo [Rocha Loures]”, declarou o delator. “O Rodrigo foi um mensageiro que Michel Temer mandou para conversar com a gente, para resolver os nossos problemas e para receber o dinheiro dele.”

O interrogador indagou: “Essa é a visão também que o Joesley [Batista] passou pra você. Quem teve pessoalmente contato com o Temer para esse assunto foi o Joesley, né?” E Saud: “Foi o Joesley. Eu tô afirmando para o senhor porque não tratamos de propina com Rodrigo Rocha Loures.”


Grupo de senadores quer Lula e FHC na articulação de novo governo sem Temer
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Josias de Souza

Em reunião encerrada na madrugada desta quarta-feira, um grupo de cerca de 20 senadores debateu a crise. Houve consenso quando à inevitabilidade da interrupção do mandato de Michel Temer. Generalizou-se a percepção de que a saída passa pela impugnação da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral, em julgamento marcado para 6 de junho. A maioria concluiu que convém envolver na articulação para a escolha de um hipotético substituto de Temer os ex-presidentes Lula, Fernando Henrique Cardoso e José Sarney.

O encontro ocorreu na casa da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO). Foi a segunda reunião do grupo. A primeira acontecera na véspera. Compareceram senadores de vários partidos. Entre eles Renan Calherios (AL), Eduardo Braga (AM) e José Maranhão (PB), do PMDB; Lindbergh Farias (RJ) e Paulo Paim (RS), do PT; Lasier Martins (RS), do PSD; e Armando Monteiro, (PE), do PTB.

Planeja-se elaborar uma pauta minima de temas em torno dos quais o grupo consiga convergir e atrair mais parlamentares. Parte dos presentes defende a convocação de eleições presidenciais diretas. Mas não ignora que a hipótese mais provável é de que a escolha de um eventual substituto para Temer será feita pelo Congresso, em eleição indireta.

Emergiu do debate um perfil do candidato que o grupo considera mais adequado para o caso de prevalecer a escolha indireta. Eis algumas das características: 1) Não pode ter a ambição de se reeleger em 2018; 2) Deve ter em mente que não será mais possível aprovar reformas como a da Previdência; 3) Não pode ser membro do Judiciário; 4) É preferível que não seja também do Legislativo; 5) Não pode tratar a classe política a vassouradas; 6) O ideal é que seja referendado por Lula, FHC e Sarney.

Um dos participantes da conversa disse ao blog que, no momento, o nome que mais se encaixa nesse modelo é o de Nelson Jobim —ex-ministro de FHC e de Lula, ex-presidente do Supremo e ex-deputado federal. Tem um inconveniente: precisaria se desligar do Banco BTG Pactual, do qual tornou-se sócio.

– Atualização feita às 13h11 desta quarta-feira (24), às 13h59: O senador Lasier Martins (PSD-RS) enviou ao blog a seguinte nota: “Fui convidado ontem pela senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) para um jantar de senadores em sua casa, segundo ela um encontro informal de caráter suprapartidário. Não foi bem isso. O grupo ali presente era predominantemente do PT. Participei das discussões, dei minha opinião e pedi licença para me retirar, pois tinha outro compromisso. Ao sair, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) ainda não tinha chegado, quando então surgiu um perfil de nomes considerados apropriados para uma eventual eleição indireta para suceder o presidente Temer. Não participei, pois, destas especulações.”


Perito não pode negar o que Temer já confirmou
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Josias de Souza

Contratado pelo escritório do criminalista Antonio Claudio Mariz de Oliveira, que defende Michel Temer, o perito Ricardo Molina disse em entrevista que a gravação da conversa do presidente com o delator Joesley Batista é imprestável e deveria ser jogada no lixo. Ainda que o conselho fosse seguido, o pesadelo criminal de Temer não seria extinto. O presidente já confirmou a autenticidade de vários trechos do áudio. Para efeitos penais, a palavra do acusado se sobrepõe ao teor do grampo. E as confirmações de Temer não tornaram a cena menos malcheiroso. Elas reforçaram a necessidade de investigação. Vão abaixo alguns trechos da gravação que foram avalizados pelo grampeado.

— ‘Tem que manter isso, viu?’: Acusado de avalizar uma mesada que o delator Joesley desembolsaria para manter Eduardo Cunha calado, Temer defendeu-se em pronunciamento feito no último sábado, no Planalto. Declarou: “É interessante: quando os senhores examinam o depoimento [de Joesley] e o áudio, os senhores identificam que a conexão de uma sentença à outra não é a conexão de quem diz: ‘Olha, eu estou comprando o silêncio de um ex-deputado e estou dando tanto a ele. Não. A conexão é com a frase: ‘Eu me dou muito bem com o ex-deputado, mantenho uma boa relação’. Eu digo: mantenha isso, viu?”

Nesse ponto, Temer confirmou que o delator, personagem que ele próprio diz que deveria estar preso, lhe revelou que vinha mantendo uma “boa relação” com Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara, condenado por corrupção e mantido atrás das grades. Temer confirmou ter declarado: “Mantenha isso, viu?”. Terá a oportunidade de explicar o sentido do seu comentário no curso do inquérito que corre no Supremo Tribunal Federal.

Em entrevista à Folha, veiculada nesta segunda-feira, Temer reconheceu como autêntico outro trecho da gravação que se refere ao ex-amigo Eduardo Cunha. Nele, o delator soou em timbre monetário. Perguntou-se ao presidente: O Joesley fala [na gravação] em zerar, liquidar pendências [com Cunha e o doleiro Lúcio Funaro, seu operador]. Não sendo dinheiro, seria o quê?

Eis a resposta de Temer: “Não sei. Não dei a menor atenção a isso. Aliás, ele falou que tinha [comprado] dois juízes e um procurador. Conheço o Joesley de antes desse episódio. Sei que ele é um falastrão, uma pessoa que se jacta de eventuais influências. E logo depois ele diz que estava mentindo.” O presidente se faz de desentendido. Entretanto, torna válido mais um trecho do áudio que o perito Molina gostaria de enviar à lata de lixo.

‘Ótimo, ótimo’: No áudio produzido pelo delator, Temer ouve um relato de Joesley sobre a compra de dois juízes e de um procurador da República. O empresário disse que estava “segurando” as autoridades. O presidente não demonstrou contrariedade. Ao contrário, expressou-se assim: “Ótimo, ótimo.” Na entrevista à Folha, foi questionado: Não é prevaricação se o sr. ouve um empresário dentro da sua casa relatando crimes?

Temer respondeu assim: “Você sabe que não? Eu ouço muita gente, e muita gente me diz as maiores bobagens que eu não levo em conta. Confesso que não levei essa bobagem em conta. O objetivo central da conversa não era esse. Ele foi levando a conversa para um ponto, as minhas respostas eram monossilábicas…”

Os repórteres insistiram: Quando o sr. fala “ótimo, ótimo”, o que o sr. queria dizer? E Temer: “Não sei, quando ele estava contando que estava se livrando das coisas etc.” Os dicionários informam que o vocábulo “ótimo” significa “muito bom”. No curso do inquérito, o presidente poderá esclarecer se conhece outos significados. A gravação tornou-se desnecessária para o aprofundamento do tema. Será interessante saber por que Temer recebe “muita gente” que vai ao presidente da República para dizer “as maiores bobagens.”

— ‘Pode fazer isso’: Temer tratou como fidedigno outro trecho do áudio que o perito considera inservível. Nesse pedaço da gravação, resumiu o presidente no seu pronunciamento de sábado, o delator expôs o que o Temer definiu como “reclamações contra o ministro da Fazenda, contra o Cade, contra o BNDES.” Para Temer, as queixas de Joesley são uma “prova cabal de que meu governo não estava aberto a ele.” Porém…

No trecho validado por Temer, o dono da JBS, hoje um corrupto confesso, pede um “alinhamento” de posições com o presidente. Algo que lhe permitisse ser mais direto nas cobranças dirigidas ao ministro Henrique Meirelles Fazenda). E Temer assentiu: “Pode fazer isso.” No inquérito, terá a oportunidade de responder à seguinte indagação: Fazer o quê?

— Homem da Mala: Temer também avalizou o pedaço do grampo em que credenciou o ex-assessor, hoje deputado federal Rodrigo Rocha Loures como seu interlocutor junto a Joesley. “O autor do grampo relata no diálogo suas dificuldades”, declarou o presidente no sábado. “Simplesmente ouvi. Nada fiz para que ele obtivesse benesses do governo.” Paradoxalmente, acrescentou: “Não há crime, meus amigos, em ouvir reclamações e me livrar do interlocutor indicando outra pessoa para ouvir as suas lamúrias.”

Rocha Loures, a “outra pessoa” que Temer indicou para ouvir as “lamúrias” do delator foi quem marcou o encontro do presidente com Joesley, ocorrido na calada da noite do dia 7 de março, no Palácio do Jaburu. Dias depois, o mesmo personagem, já credenciado por Temer como pessoa de sua “mais estrita confiança”, foi filmado pela Polícia Federal recebendo propina de R$ 500 mil acondicionada numa mala. Os delatores da JBS afirmam que o dinheiro se destinava ao presidente da República. Temer nega. O inquérito servirá para acomodar a encrenca em pratos asseados. E o áudio que o perito chama de lixo já não é necesário para que as investigações prossigam. No mínimo, o processo servirá para que Temer explique os seus conceitos sobre índole. Na entrevista à Folha, o presidente declarou que Rocha Loures, o preposto corrompido, é um homem de “boa índole, muito boa índole.”


Temer põe em dúvida atuação de Edson Fachin
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Josias de Souza

Michel Temer cogita pedir a anulação de todo o processo em que é investigado no Supremo Tribunal Federal por suspeita de corrupção, obstrução de justiça e formação de organização criminosa. Alega que o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato, não teria legitimidade para atuar no caso, pois a empresa JBS, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, é investigada não no escândalo da Petrobras, mas em outras cinco operações: Sépsis, Greenfield, Cui Bono, Carne Fraca e a Bullish.

Alertado pelo criminalista Antonio Claudio Mariz de Oliveira, cujo escritório assumiu sua defesa, Temer disse a aliados, neste domingo, que Fachin não seria o juiz natural do caso que resultou das delações de executivos da JBS. O relator, disse o presidente a ministros e congressistas, deveria ter sido escolhido por sorteio. Algo que os advogados suspeitam que não foi feito. Para tirar a prova dos nove, a defesa do presidente pede ao Supremo que esclareça como foi feita a distribuição do processo sobre a JBS.

Na tarde de sábado, o escritório de Antonio Mariz já havia protocolado no Supremo um pedido de suspensão do inquérito contra o presidente. Questiona-se na petição a validade da gravação feita por Joesley Batista, o sócio da JBS, da conversa que manteve com Temer em 7 de março, no Palácio do Jaburu. No mesmo dia, Fachin determinou que o áudio seja periciado pela Polícia Federal. E transferiu para o plenário do Supremo a decisão sobre suspender ou não a investigação contra Temer. O julgamento está marcado para quarta-feira.

O novo questionamento da defesa de Temer, condicionado à confirmação da ausência de sorteio na distribuição do processo da JBS, será mais amplo. Em vez da suspensão, cogita-se pleitear a anulação de todos os atos praticados por Fachin em relação a Temer. Nessa hipótese, iriam para a lata do lixo, por extensão, os outros despachos de Fachin —da homologação das delações até as 41 batidas de busca e apreensão e as 8 prisões preventivas decretadas pelo relator da Lava Jato com base na colaboração judicial da JBS.

No limite, subiriam no telhado também os despachos de Fachin que afastaram do exercício regular dos respectivos mandatos o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o deputado Ricardo Rocha Loures (PMDB-PR). A pretensão de Temer e seus advogados é a de promover uma reviravolta no caso. O presidente teria, então, munição para sustentar a tese segundo a qual está sendo vítima de uma grande armação. E o debate sobre o mérito do diálogo antirrepublicano que teve com Joesley Batista ficaria em segundo plano.


Temer sinaliza a aliados desejo de se entrincheirar e age contra deserções
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Josias de Souza

Num instante em que os fatos parecem ter jurado seu governo de morte, Michel Temer atravessou o domingo tentando demonstrar aos aliados que continua cheio de vida. Em encontros que começaram pela manhã e entraram pela noite, o presidente sinalizou a ministros e congressistas a intenção de se entrincheirar no cargo. Esforça-se para evitar a deserção de partidos que hesitam em permanecer na infantaria legislativa que dá suporte ao governo. Pretendia oferecer um jantar à sua tropa. Mas a baixa adesão levou ao cancelamento do repasto. E evidenciou o tamanho do desafio.

Temer preocupa-se especialmente com PSDB e DEM. As legendas ameaçaram um desembarque conjunto. Discutiriam o tema numa reunião neste domingo. Idealizado para ser secreto, o encontro vazou para a imprensa. E foi cancelado. Temer soltou fogos. Conversou com os senadores Tasso Jereissati (CE) e Agripino Maia (RN), presidentes das duas legendas. Pediu-lhes que evitem movimentos precipitados. Obteve de ministros dos dois partidos o compromisso de ficar nos cargos. Pendurado ao telefone, contactou governadores tucanos em busca de solidariedade.

A estratégia esboçada por Temer divide-se em duas frentes. Numa, jurídica, o presidente aposta suas fichas no trancamento da investigação criminal aberta contra ele no Supremo. A decisão será tomada pelo plenário da Suprema Corte na quarta-feira. Noutro front, político, Temer tenta reconstruir o ambiente congressual que desmoronou depois da delação do Grupo JBS. Deseja retomar o debate sobre reformas trabalhista e previdenciária. Nos dois casos, a margem de manobra de Temer é estreita. Ele já não governa os acontecimentos. É governado pelos fatos.

Para obter a pretendida interrupção do processo que corre no Supremo, Temer se agarra à versão segundo a qual a gravação em que foi pilhado em diálogos antirrepublicanos foi adulterada pelo delator Joesley Batista. Na arena política, Temer desenvolve com seus aliados um raciocínio do tipo “ruim comigo, pior sem mim.” Em privado, ele sustenta que a Procuradoria atropela leis e procedimentos para desmoralizar toda a classe política. Nessa versão, sua permanência no cargo interessaria a todos os que estão na fila do cadafalso. Uma fila suprapartidária. Até a semana passada, Temer tinha a pretensão de salvar o país aprovando reformas no Congresso. Hoje, sua prioridade é outra: salvar o próprio pescoço.

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Áudio com Temer não foi periciado, diz documento que PGR entregou ao STF
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Josias de Souza

Ouça a íntegra do diálogo que transformou Temer em investigado

Documento oficial da Procuradoria-Geral da República reconhece que o áudio da gravação feita pelo delator Joesley Batista da conversa que manteve com Michel Temer não foi submetido a uma perícia rigorosa. Ao contrário, “foi analisado de forma preliminar.” Dois técnicos limitaram-se a ouvir o autogrampo do dono do Grupo JBF. “Não houve auxílio de equipamentos especializados na avaliação sobre a integridade dos áudios”, anota o texto da Procuradoria (veja cópia abaixo). Perícia encomendada pela Folha atestou que a gravação sofreu mais de 50 edições.

A análise da Procuradoria consta do inquérito aberto contra Temer pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal. Definida pelos técnicos como “perfunctória” (superficial), a verificação da gravação fornecida por Joesley visou apenas “verificar se os diálogos existentes nos áudios estão inteligíveis.” Concluiu-se que a peça é “audível” e o diálogo apresenta “sequência lógica”. Entretanto, os analistas farejaram problemas que só poderiam ser sanados com o uso de equipamentos próprios.

“O arquivo possui alguns ruídos e a voz de um dos interlocutores [Joesley] apresenta-se com maior intensidade em relação à voz do segundo interlocutor [Temer], e em alguns momentos, tornam-se incompreensíveis sem a utilização de equipamentos especializados.” Datado de 7 de abril de 2017, o documento é assinado pela analista Elaine Sobral e pelo técnico Éder Gabriel.

Fica boiando na atmosfera uma incômoda interrogação: por que diabos o procurador-geral da República Rodrigo Janot não requisitou uma perícia minuciosa da gravação? Em privado, autoridades envolvidas no caso alegam que uma das razões foi a necessidade de preservar o sigilo. Nessa hipótese, a Polícia Federal, responsável por esse tipo de perícia, não seria confiável aos olhos do Ministério Público Federal.

A consequência prática é que o questionamento sobre a integridade do áudio tornou-se uma prioridade da defesa de Temer. Num primeiro ofício enviado ao Supremo na quinta-feira (18), o presidente disse ter sido “alvo de interceptação ambiental ilícita.” O relator Edson Fachin tem outro entendimento. Citando decisão de 2009, o ministro sustenta que o Supremo já “deliberou que é lícita a prova consistente em gravação ambiental realizada por um dos interlocutores sem conhecimento do outro.”

Assim, concluiu o ministro, “não há ilegalidade” nas gravações captdas por Joesley. Fachin realça que as fitas “foram ratificadas e elucidadas em depoimento prestado perante o Ministério Público (em vídeo e por escrito).” (veja abaixo trecho do despacho do ministro).


Antes de rejeitar renúncia, Temer cogitou diretas
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Josias de Souza

Na tarde da última quinta-feira, Michel Temer achegou-se ao púlpito do Palácio do Planalto para declarar: “Não renunciarei. Repito, não renunciarei. Sei o que fiz e sei da correção dos meus atos.” Horas antes, reunido com seus operadores políticos mais leais, o orador não exibia a mesma convicção. Às voltas com uma crise que o converteu no primeiro presidente da história a ser investigado em pleno exercício do cargo pelos crimes de corrupção passiva, obstrução de Justiça e organização criminosa, Temer se dispôs a enviar ao Congresso uma proposta de emenda à Constituição antecipando as eleições presidenciais diretas para o próximo mês de novembro.

 

Participaram da conversa os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil), Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência) e Antonio Imbassahy (Relações Institucionais), além do líder do governo no Senado, Romero Jucá. Os quatro manifestaram-se contra a ideia de Temer. Aconselharam o presidente a lutar pelo cargo. Jucá fez uma observação que adicionou à cena uma certa ponderabilidade cômica que acabou por comprometer a seriedade da proposta de Temer. O senador disse que uma eleição direta daqui a seis meses soaria como uma “renúncia a prazo.” A ideia foi abandonada. E Temer pegou em lanças.

Nesta sexta-feira, a divulgação dos vídeos da delação do Grupo JBS e do papelório que compõe o inquérito aberto contra Temer no Supremo borrifaram gasolina na crise. O presidente incorporou à sua infantaria o amigo criminalista Antônio Mariz de Oliveira. Além da frente de batalha política, onde tenta evitar a deserção do PSDB, Temer se equipa para guerrear na Suprema Corte.

De saída, a defesa de Temer questiona a validade da gravação que registrou a conversa vadia que ele manteve com o delator Joesley Batista, dono do Grupo JBS, no Palácio do Jaburu, no último dia 7 de março. Alega-se que o diálogo, captado por meio de gravador que o empresário escondia no bolso do paletó, é fruto de “montagem”. Perícia encomendada pela Folha chegou à mesma conclusão. O problema de Temer é que, a essa altura, o áudio sob questionamento é apenas mais um detrito no monturo de indícios que empurram sua biografia para o mesmo lixão que levou ao apodrecimento do mandato de Dilma Rousseff.

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PSDB vê Temer na UTI e discute desembarque
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Josias de Souza

Principal aliado do governo no Congresso, o PSDB trata Michel Temer como uma espécie de paciente terminal. Numa analogia construída por um dirigente tucano, o presidente passou nesta sexta-feira da enfermaria para a UTI. Longe dos refletores, os tucanos discutem a conveniência de retirar o suprimento de oxigênio que o PSDB fornece ao governo no Legislativo. Temer já foi avisado de que o tucanato analisa a sério a hipótese de desligar sua presidência da tomada.

No momento, o que se discute entre os tucanos é o timing. Formado o consenso quanto à conveniência do desembarque, a legenda se divide em duas. Uma parte quer apressar o cortejo fúnebre. Outra ala preocupa-se em encontrar uma saída que inclua Temer no planejamento do próprio funeral. Avalia-se que um desfecho negociado seria menos traumático.

Antes de tratar de Temer, o PSDB cuidou do seu próprio cadáver. Removeu do caminho Aécio Neves, que já respondia a sete inquéritos no Supremo Tribunal Federal antes de ser alvejado pela delação do Grupo JBS. Com a biografia em avançado estágio de decomposição, Aécio foi substituído na presidência do PSDB pelo senador Tasso Jereissati (CE). Auxiliado por colegas como o vice-presidente do Senado, Cássio Cunha Lima (PB), Tasso conduz as articulações.

Consultado, Fernando Henrique Cardoso, presidente de honra do PSDB, avalizou o diagnóstico segundo o qual o governo de Michel Temer se aproxima do colapso. Com a experiência de quem já administrou crises sentado na cadeira de presidente, FHC revela preocupação com a economia. Avalia que a falência do sistema político pode contaminar o cenário econômico, revertendo a curva de inicadores que apontavam para uma tímida recuperação do PIB.

Para o tucanato, a presença de Temer no Planalto deixou de ser um fator estabilizador. Consolidando-se o afastamento dos tucanos, o presidente ficará mais próximo da porta de saída. Com o seu PMDB dividido, o PSDB é o principal esteio de Temer no Congresso.

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Gravação revela uma solidariedade de investigados entre Temer e seu delator
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Josias de Souza

O diálogo entre Michel Temer e Joesley Batista revela mais do que uma simples troca de ideias sobre interesses mútuos. Gravada sem que o inquilino do Palácio do Jaburu suspeitasse, a conversa expõe uma solidariedade fraternal entre dois personagens encrencados. O dono do Grupo JBS revela preocupação com os rumos do processo que pode resultar na cassação do mandato do Temer no Tribunal Superior Eleitoral. E o presidente consola Joesley depois de ouvir um relato sobre as investigações criminais que iluminam seus calcanhares de vidro.

“E no TSE, como está?”, pergunta Joesley a certa altura. “O negócio tá com o Herman Benjamin agora”, responde o presidente, referindo-se ao relator do processo que questiona a legitimidade da eleição da chapa Dilma-Temer. Benjamin deve votar a favor da lâmina. “Um troço meio maluco”, disse Temer, como que intuindo o que está por vir. “Acho que não passa o negócio da minha cassação”, completou, seguro de que seu pescoço não corre riscos.

O presidente parece confiar na “consciência política” dos ministros do TSE. “Porra, mais um presidente”, afirmou, como se duvidasse da ousadia dos magistrados de afastá-lo nas pegadas da deposição de Dilma Rousseff. De resto, Temer contou a Joesley sobre a tática da barriga. Se for cassado. “tem recurso no Supremo”, disse. “E, até aí, já terminou o mandato.” O dono da JBS exultou: “Então tá bom, puta que pariu!”

Nesse ponto, Temer ofereceu o ombro ao amigo: “Os aborrecimentos que você tá tendo também, né?” E Joesley, fazendo pose de malabarista: “É duro, presidente, pelo seguinte: igualzinho o senhor aqui também, a gente fica equilibrando os pratos.” Em timbre lamurioso, o dono do maior frigorífico do mundo disse a Temer que, não bastasse ter que tocar os negócios, enfrentando nos Estados Unidos uma concorrência dura de roer, “tem que parar por conta de resolver coisa” relacionada às investigações criminais.

O visitante relatou a Temer uma hipotética conversa que tivera com um procurador da República. Após narrar um calvário que submete seu grupo empresarial aos efeitos dos “solavancos” das ações penais, arrematou: “Da última vez eu falei: faz um favor pra mim, me denuncia de alguma coisa. E ele disse: ‘Mas não tenho nada pra denunciar’. Então, inventa. Pára, porque eu não aguento. Se o senhor ficar desse jeito, o senhor vai me quebrar. Puta que pariu. Mas tudo bem. Nós somos do couro grosso, né? Vamos lá.”

Sem saber que oferecia matéria-prima para um futuro delator, que escondia um gravador no bolso do paletó, Temer soou como se consolasse um familiar querido: “Vai passar. Vai passar. Não vai ficar a vida toda assim, né?” Aconteceu no Palácio do Jaburu. Mas poderia ter ocorrido em qualquer mesa de boteco.