Blog do Josias de Souza

Categoria : Secos & Molhados

Blog tira férias e planeja uma viagem ao inferno
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Josias de Souza

Você sabe que está ficando velho quando começa a ter saudades do tempo em que as cartas chegavam pelas mãos do carteiro. Hoje, considerando-se todas as caixas de entrada —e-mail, WhatsApp, Facebook, Twitter…—recebo mais de mil mensagens diariamente. Impossível ler tudo. Responder, nem pensar. Entretanto, duas mensagens me chamaram a atenção nos últimos dias.

Um apologista de Temer enviou-me algo muito parecido com um desafio: “Sabichão, você critica tudo. Candidate-se à Presidência! Terá o meu voto. Quero ver do que você é capaz. O Brasil decerto vai virar um paraíso sob a Presidência do Josias.”

Uma admiradora de Lula e Dilma me mandou para o inferno. Pedi o endereço, já que a localização da morada do Tinhoso é uma questão teológica antiga e não resolvida. E ela me enviou para outro lugar: “Vai à…”

Embora convocado, não disputarei a Presidência. Se disputar, não pedirei dinheiro ao Joesley Batista. Se vencer, não tomarei posse. Se receber a faixa, não darei foro privilegiado a quem não merece. Temer já me negou três entrevistas. Soube que deixou de me ler. Não ganhará um ministério.

Quanto à tarefa dada pela leitora petista, embora pareça irrealizável, me esforçarei para realizá-la. Nas próximas duas semanas, estarei em férias. Planejo viajar para o inferno. Ainda não encontrei o endereço. Mas já soube que o caminho não está mais calçado apenas de boas intenções. Nos governos do PT, Asmodeu mandou a Odebrecht refazer o calçamento com dinheiro roubado da Petrobras.

Volto dentro de duas semanas.


Prefeito de BH faz balanço de gestão: ‘Tá foda!’
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Josias de Souza

O prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PHS), resolveu prestar contas à população da capital mineira pela internet. Com o linguajar rude que o caracteriza, fez um balanço de sua gestão numa transmissão ao vivo pelo Facebook. “Eu não tô sumido”, declarou Kalil. “Eu tô aqui, tentando fazer pra vocês o que eu prometi. E garanto que tá foda! Não tá fácil! Tá difícil! Não é mole isso aqui!”

Criticado por uma operação de retirada de camelôs do centro da capital mineira, Kalil justificou-se: “…Foi uma coisa que me doeu, me tirou o sono. […] Fizemos com o máximo que nós conseguimos de humanidade. Mais do que nós fizemos, não temos competência e capacidade.”

A transmissão durou pouco mais de seis minutos. E foi interrompida três vezes por problemas técnicos na conexão com a web. Ex-presidente do Atlético, Kalil esculhambou a empresa responsável pelo serviço como se ralhasse com os jogadores do seu time depois de um jogo ruim. O prefeito não é um cultor do idioma de Camões. E quando fica bravo, parece preferir expressar-se noutra língua, muito parecida com o português:

“Já pedi pra essa merda dessa Prodabel vim cá arrumá isso dez vezes. Parece que eles num consegue resolver. E a gente tem essa porcaria de internet. Como tudo aqui na prefeitura, desde que nós chegamo, era assim. E nós vamo mudá.” Mais adiante: “Eu vô encerrá porque ocês viram que num tá funcionando. Vô vê se arrumo essa porcaria dessa internet, pra mim poder falar sem corte pra vocês.”

Kalil caprichou na autocrítica: “Não tô aqui pra falar que tá tudo bem, porque não tá. Continua muito ruim. Nós estamos tentando melhorar. Você não tá sendo atendido direito, como eu quero. Mas vai voltar a ser atendido. Nós vamos revirar de cabeça pra baixo aquela Secretaria de Saúde.” A certa altura, o prefeito prometeu abrir um hospital “nem que seja a tapa e pescoção”.

A aparição de Alexandre Kalil ocorreu na tarde de quarta-feira. Ele se comprometeu a prestar contas na web quinzenalmente. Adversário do tucano Aécio Neves e do PSDB mineiro, Kalil encerrou sua transmissão em timbre irônico: “Nós estamos aqui, trabalhando pra burro. Não somos o melhor do mundo, não somos o pior do mundo. A única coisa que aqui não tem é: ninguém tá delatado, ninguém vai ser delatado. Ninguém aqui vai su…” A conexão com “essa porcaria de internet” caiu pela terceira vez.


Apagão do Senado é sinal de Apocalipse político
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Josias de Souza

É preciso reconhecer que os sinais vinham sendo emitidos há muito tempo. Se o que acontece no Brasil da Lava Jato significa alguma coisa é que o sistema político entrou em colapso. As versões sobre o Apocalipse são desencontradas. Porém, nas últimas horas as coisas aconteceram diante das câmeras.

Na manhã desta terça-feira, 11 de julho de 2017, o Senado tentava mexer na Consolidação das Leis do Trabalho quando tudo escureceu. Minutos antes, o investigado Eunício Oliveira tentara assumir a presidência da sessão. Mas três senadoras —entre elas a ré Gleisi Hoffmann, cavalgando sua pureza moral— tomaram o Poder de assalto (ops!).

Vindo do horizonte, um quarto cavaleiro, Getúlio Vargas, arrependido do suicídio, baixou nas senadoras sublevadas para anunciar: “A Era Vargas não acabou.” Horas antes, no salão de solenidades do Palácio do Planalto, Michel Temer, que há duas semanas revelara dúvidas existenciais —“Não não sei como Deus me colocou aqui!”—, transbordava certezas divinas sobre a inevitabilidade da flexibilização dos direitos trabalhistas: “Não tenho dúvidas de que continuaremos avançando. O meu governo não perdeu tempo, deixou a matéria pronta. E ela vai ser aprovada, se Deus quiser.”

Uma testemunha conta que sentiu o mámore do Planalto tremer quando Michel Temer citou a denúncia que lhe pesa sobre os ombros. “A Câmara dos Deputados, nesta semana, tem uma importantíssima decisão a tomar”, disse o primeiro presidente da história a ser acusado de corrupção no exercício do mandato. “E eu respeitarei qualquer que seja o resultado da votação. Não é hora de dúvidas e receios. A hora é de respostas rápidas.”

Na véspera, a Comissão de Constituição e Justiça iniciara a tramitação da denúncia contra Temer. Sergio Zveiter, um relator do PMDB, leu um voto contra Temer. Sugeriu que a Câmara autorizasse o Supremo Tribunal Federal a virar o presidente do avesso. De repente, um Carlos Marun caiu-lhe sobre a cabeça. E uma nuvem negra trovejou verbas e raios que os partam sobre o plenário da CCJ. Deputados leais ao Planalto marcharam em direção aos governistas que ameaçavam votar a favor da moralidade. Um deles, apontando para os silvérios, gritou para o outro: “Eu levanto e você chuta!”. A maioria governista se refez num troca-troca.

Ao fundo, uma voz grave soou tonitruante: “Eu respeitarei, qualquer que seja o resultado”. Um deputado que caíra de joelhos para recolher as verbas espalhadas pelo chão não conseguiu conter suas pulsões: “É a voz de deus”, exclamou, reconhecendo o timbre de Temer. Levado no bico por pseudo-apoiadores tucanos, o presidente sente-se fortalecido.

Entretanto, um procurador da República conta que viu três cavaleiros e uma amazonas vindo na direção da Praça dos Três Poderes. Todos têm o semblante vermelho de raiva. Os cavalheiros coçam a língua. Um deles, Rocha Loures, arrasta uma mala. Um segundo, Lúcio Funaro, revisa anotações. O terceiro, Eduardo Cunha, carrega uma placa: “Juízo Final, já!” E Dilma Rousseff, a amazonas, balbucia incessantemente: “A história se repete…!”

Difícil saber como será o fim dos tempos. Mas um ministro jura que sonhou que Temer estava num dos janelões do gabinete presidencial quando viu as nuvens se repartirem sobre o Planalto. Surgiu do céu, num cavalo alado, o Rodrigo Maia. Dizia coisas desconexas. Mas Temer conseguiu decifrar uma frase antes que o chão de Brasília se abrisse: “Não sei como Deus me trouxe até aqui.” E o apagão iniciado no Senado se espalhou pelo país.


Ao depor, Lula faz ironia com o ‘toma-lá-dá-cá’
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Josias de Souza

Lula prestou depoimento como testemunha de defesa de Gleisi Hoffman num processo em que a senadora e seu marido, o ex-ministro petista Paulo Bernardo, são acusados de receber verbas sujas provenientes da Petrobras. O ex-soberano foi crivado de perguntas sobre o apadrinhamento político de diretores de estatais.

A certa altura, declarou: “Vou tentar explicar, porque o Ministério Público acha criminoso os partidos tentarem indicar pessoas. Numa outra encarnação nós vamos indicar só gente do Ministério Público.” Não precisa tanto. Basta não enviar ao Diário Oficial a nomeação de larápios. Convém, de resto, não confundir coisa pública com cosa nostra.


Temer voltou a encontrar Gilmar fora da agenda
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Josias de Souza

O denunciado Michel Temer voltou a se reunir com seu potencial juiz Gilmar Mendes. Foi o segundo encontro em menos de uma semana. Deu-se na manhã de segunda-feira, informou o Jornal Nacional. Novamente fora da agenda.

Procurado, Gilmar informou que não foi uma conversa entre denunciado e magistrado. Falaram como presidentes do TSE e da República. Sobre o quê? As eleições de 2018 e a biometria, que permite identificar o eleitor pelas digitais.

Na semana passada, Gilmar recebera para o jantar Temer e um par de ministros investigados no Supremo Tribunal Federal. Mastigaram a troca de comando na Procuradoria-Geral da República. Mas o tema central foi reforma política, assegura Gilmar.

Perguntou-se ao ministro do Supremo o que diria se o juiz Sergio Moro recebesse o encrencado Lula ou o encalacrado José Dirceu. E Gilmar: “…Não veria problema de Moro receber o presidente Lula”.

A despeito de toda a normalidade, não convém a Temer continuar encontrando Gilmar assim, à margem da agenda. Marcela Temer vai acabar se abespinhando.


Janot: ‘Enquanto houver bambu, lá vai flecha!’
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Josias de Souza

O procurador-geral da República Rodrigo Janot participou neste sábado do 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo promovido pela Abraji, a Associação Brasileira de Jornalismo investigativo, em São Paulo. Sob mediação da jornalista Renata Lo Prete, concedeu uma entrevista. Instado a dizer o que planeja fazer no período que lhe resta de mandato, declarou: “Enquanto houver bambu, lá vai flecha. Até o 17 de setembro, a caneta está na minha mão.” Quer dizer: estão no forno da Procuradoria novas denúncias contra Michel Temer. Leia mais aqui.


Retaliado, senador acusa governo de ‘corrupção’
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Josias de Souza

Após votar contra a reforma trabalhista na Comissão de Assuntos Sociais do Senado, Hélio José (PMDB-DF) sofreu retaliação automática. O Planalto exonerou dois apadrinhados que o senador acomodara na máquina pública. Abespinhado, o agora ex-aliado passou a enxergar a gestão de Michel Temer com outros olhos: é um “governo totalmente atacado de corrupção para todos os lados”, declarou. Para ele, o governo foi transformado “em balcão de negócios.”

Foram exonerados Vicente Ferreira, que era diretor de Planejamento da Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco), e Francisco Nilo, que respondia pela Superintendência da Secretaria do Patrimônio da União no Distrito Federal. Hélio José emplacara os afilhados no ano passado, às vésperas do impeachment de Dilma Rousseff, quando se achegou a Temer.

Houve revolta na SPU do DF com a nomeação de Francisco Nilo para o posto de superintendente. O senador não se deu por achado. Foi à repartição. Reuniu os descontentes. E avisou: “Isso aqui é nosso. Isso aqui eu ponho quem eu quiser aqui. A melancia que eu quiser aqui eu vou colocar!” Nessa época, Hélio José se servia do balcão que agora diz abominar.


Feitiços de Loures e Aécio viraram urucubacas
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Josias de Souza

No Supremo Tribunal Federal, pequenas mandracarias advocatícias podem resultar em grandes urucubacas. Voltaram-se contra os defendidos, por exemplo, as últimas petições dos defensores de Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala de Michel Temer, e Aécio Neves, presidente licenciado do PSDB.

Sob o pretexto de que Rocha Loures corria risco de vida na cadeia da Papuda, seus advogados pediram que ele passasse a arrastar uma tornozeleira eletrônica em prisão domiciliar. O ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato, transferiu o preso. Não para casa, como desejavam os doutores, mas para uma sala na Polícia Federal, em Brasília.

Na Papuda, Loures tinha banho de Sol, tevê e companhia. Na PF, foi isolado numa sala sem banheiro e sem tevê. Perdeu também o acesso ao Sol. Em nova petição, os defensores do ex-assessor de Temer pedem sua transferência para um quartel da PM de Brasília. No limite, informam que Loures prefere voltar para a Papuda. De repente, as supostas ameaças e o alegado medo de morrer ficaram em segundo plano.

No caso de Aécio, Fachin aceitou a tese de que a mordida de R$ 2 milhões que o grão-tucano deu em Joesley Batista, da JBS, não tem nada a ver com Lava Jato. Por sorteio, os autos foram parar na mesa de Marco Aurélio Mello. Com a troca, Aécio saiu do purgatório da Segunda Turma do Supremo, generosa na concessão de habeas corpus, para o inferno da Primeira Turma, que administra com parcimônia a chave da cadeia.

Na semana passada, por 3 votos a 2, a Primeira Turma manteve atrás das grades Andrea Neves, a irmã de Aécio. Nesta terça-feita (20), o colegiado apreciará pedido do procurador-geral da República Rodrigo Janot para que o próprio Aécio seja passado na chave. Os doutores que defendem o tucano pediram que o julgamento fosse transferido da turma, com cinco ministros, para o plenário do Supremo, onde se reúnem as 11 togas da Corte. O relator Marco Aurélio disse “não”.

Considerando-se o resultado dos últimos feitiços, os encrencados do escândalo JBS deveriam recomendar aos respectivos advogados mais parcimônia na administração dos feitiços.