Blog do Josias de Souza

Categoria : Secos & Molhados

Renan se equipa para voltar a comandar Senado
Comentários 118

Josias de Souza

As pesquisas ainda não permitem antever quem será o próximo presidente da República. Mas seja quem for, corre um risco estupendo de ter que pagar pedágio a Renan Calheiros para alcançar a governabilidade. Colecionador de inquéritos, denúncias e ações penais, Renan organiza sua infantaria para pleitear a presidência do Senado pela quinta vez. Mexe-se com a certeza de que será reconduzido a Brasília pelo eleitor de Alagoas.

Por enquanto, Renan dedica-se a remover do seu caminho o atual presidente do Senado, Eunício Oliveira, que sonha em ser reconduzido ao posto em 2019. Ele não perde a oportunidade de medir forças com o rival. Nesta terça-feira, a dupla travou em plenário uma briga na qual Michel Temer entrou com a cara. A matéria prima da desavença foi o decreto sobre a intervenção federal na segurança do Rio.

Esgrimindo o artigo do regimento que limitava o número de oradores, Eunício quis sonegar o microfone ao correligionário do PMDB. Com isso, ofereceu a Renan a possibilidade de transformar num cavalo de batalha seu desejo de espinafrar a intervenção de Temer. Supremo paradoxo: no final, Renan acabou votando a favor da intervenção, a mesma que tachara minutos antes de “decorativa” por não ter alcançado o pescoço do pseudo-governador Luiz Fernando Pezão.

A exemplo de Renan, Eunício também luta pela reeleição no seu Estado, o Ceará. Eles têm algo em comum. Num instante em que um pedaço do PT procura um Plano B, ambos não abrem mão de manter Lula como Plano A. Preso ou solto, o pajé do PT não deixará de ocupar o topo do ranking de preferências do eleitorado nordestino. Se necessário, Renan e Eunício subirão no caixote para alardear em suas províncias o refrão petista segundo o qual “eleição sem Lula é fraude.”

A democracia, como se sabe, é um regime em que as pessoas têm ampla e irrestrita liberdade para exercitar sua capacidade de fazer besteiras por conta própria. Mas o eleitor dispõe de uma vacina capaz de imunizá-lo contra a sensação de que o voto é um mero equívoco renovado de quatro em quatro anos. Basta jogar água no chope de oligargas que já se julgam eleitos. A troca não é garantia de acerto. Mas proporciona o prazer de cometer erros diferentes.


Jovens ensinam a se proteger de abuso policial
Comentários 11

Josias de Souza

O governo de Michel Temer sustenta que a intenvenção federal logo proporcionará aos moradores do Rio de Janeiro uma crescimento da sensação de segurança. Não é o que pensam os jovens negros de comunidades pobres da cidade. três deles veicularam nas redes sociais um vídeo com lições sobre como se proteger de abusos cometidos por agentes das forças de segurança. A peça propaga-se pela internet como um vírus.

O vídeo ensina, por exemplo, que convém gravar com o celular as abordagens de policiais e militares. Mas não se pode deixar a nota fiscal do telefone em casa, para que não se alegue que foi roubado. Aconselha-se a registrar Boletins de Ocorrência contra arbitrariedades. Não convém sair às ruas com furadeiras ou guarda-chuvas longos. Podem ser confundidos com armas de fogo.

Décadas de abuso levaram os jovens da periferia das grandes cidades brasileiras a olhar para polícia de esguelha, com uma ponta de desconfiança. Muitos não conversam com um policial a menos que seja em legítima defesa. Num ambiente assim, o vídeo dos rapazes negros do rio faz todo o sentido.


Vampirão da Tuiti virou um bebedor de groselha
Comentários 5

Josias de Souza

Vampirão da escola Paraíso do Tuiuti foi à avenida sem a faixa presidencial, no desfile das campeãs

No primeiro desfile, o vampiro-presidente exibia a faixa, adornada com cédulas de dólar de plástico

Michel Temer posa para foto oficial: sem faixa

De volta à Marques de Sapucaí para o desfile das campeãs, a escola de samba Paraíso do Tuiuti conseguiu uma proeza: transformou triunfo em vexame. Fez isso ao arrancar a faixa presidencial do peito do seu vampiro-presidente. Dessa vez, o personagem que satirizou Michel Temer desfilou sem o adereço.

Vozes do barracão da escola contaram ao repórter Ricardo Rigel que um emissário do Palácio do Planalto pediu à Liesa (Liga “Independente” das Escolas de Samba do Rio) que vetasse a presença da versão carnavalizada de Temer na avenida. Ouvida, a assessoria do presidente negou o pedido. E a Tuiuti desconversou: “Foi uma decisão exclusivamente da escola, por se tratar de uma celebração, um dia de festa, e entendemos não ser pertinente levar este adereço”, mandou dizer a diretoria da escola, em meio a um carnaval de versões desencontradas.

Seja como for —censura ou autocensura— o resultado foi um vexame. A faixa presidencial é o principal símbolo do presidente. Mas o chefe da nação não pode ser apenas uma pose. É preciso que, por trás da pose, exista uma noção qualquer de moral. Neste segundo desfile, a imoralidade que a Tuiuti grudou na imagem de Temer passaria despercebida se a censura não tivesse se esforçado para chamar a atenção.

Quanto à escola, vice-campeã de um desfile cujo resultado foi definido nas casas decimais, descerá à crônica dos carnavais como a primeira agremiação da história a erguer na Sapucaí, em pleno desfile das campeãs, um monumento autocrítico, uma espécie de Arco da Derrota. Sob a estrutura dessa edificação invisível, o vampirão da Tuiuti foi convertido num reles bebedor de groselha.

Suprema ironia: Dilma Rousseff foi enviada de volta para Porto Alegre em agosto de 2016. Mas Temer só posou para a foto oficial em maio de 2017. Foi clicado de duas maneiras: com a faixa presidencial e sem ela. Acabou optando por pendurar nos gabinetes de Brasília a fotografia sem a faixa. Ao desfigurar o seu Drácula, a Paraíso do Tuiuti acabou se aproximando do presidente que pretendeu criticar. Skindô-skindô.


Temer ajusta intervenção ao marketing eleitoral
Comentários 8

Josias de Souza

Deflagrada em segredo na terça-feira e concluída na madrugada de sexta-feira, a articulação que transferiu de Luiz Fernando Pezão para Michel Temer os poderes para governar a segurança pública no Rio de Janeiro foi marcada pelo improviso. Mas num ponto a assessoria do Planalto caprichou: a divulgação. Convocou-se o marqueteiro Elsinho Mouco, que serve ao PMDB e à Presidência. A operação ganhou volume de campanha e timbre de propaganda eleitoral.

Em princípio, cogitou-se anunciar a intervenção por meio de um comunicado oficial do Planalto. Mas optou-se por bater bumbo. Com método, organizou-se uma solenidade para Temer discursar.

Mais: reservou-se espaço nas emissoras comerciais para assegurar que a primeira incursão da intervenção federal fosse uma invasão de Temer à sala-estar dos brasileiros. Não apenas no Rio, mas em todos os Estados, numa rede nacional de rádio e TV.

O discurso noturno, colado ao Jornal Nacional, foi um repeteco mais enxuto do pronunciamento feito no final da manhã. Foi como se Temer e sua marquetagem quisessem impor sua própria edição ao telejornal da Globo.

A autopromoção prosseguirá neste sábado. Temer voará para o Rio de Janeiro. A pretexto de “apresentar” à sociedade fluminense o interventor, general Walter Souza Braga Neto, Temer desfilará pelo palco de sua intervenção. Deseja ver e, sobretudo, ser visto.

Tudo na intervenção do Rio foi improvisado: reuniões de emergência, viagem de última hora para dobrar resistências do subgovernador Pezão… Até o decreto enviado ao Congresso foi redigido às pressoas, em cima do joelho, como se diz. Só o marketing foi planejado com esmero.

Nas últimas horas, Temer ganhou orelhas de candidato, nariz de candidato, boca de candidato à reeleição. Mas o Planalto ainda vende ao país a ilusão de que se trata apenas de um presidente genuinamente preocupado com a segurança do Estado do Rio de Janeiro.

Na noite desta sexta-feira, em reunião com oficiais do do alto comando das Forças Armadas, no Planalto, Temer assegurou que a intervenção no Rio não será “politizada”. De fato, não será. Já foi.


Bancada da bala quer novo ministério com PF
Comentários 36

Josias de Souza

Impulsionada pelo surto de violência que tem no Rio de Janeiro sua principal vitrine, a bancada parlamentar da bala pressiona Michel Temer pela criação de uma nova pasta: o Ministério da Segurança Pública. E o presidente não descartou a hipótese de ceder à pretensão do grupo.

Abstraindo-se a obviedade de que a criação de um novo ministério não fará murchar as estatísticas da violência, a proposta esconde um elemento tóxico: a pasta da Segurança, a ser entregue a um político qualquer, absorveria em seu organograma pedaços estratégicos do Ministério da Justiça. Por exemplo: a Polícia Federal.

Num cenário de normalidade, a ideia de subordinar a engrenagem da PF a um personagem de qualificação duvidosa seria apenas temerária. Torna-se explosiva numa atmosfera em que o diretor-geral do órgão, Fernando Segovia, está na berlinda por ter sinalizado a intenção de arquivar inquérito estrelado por Temer.

É como se Temer, tendo feito uma opção preferencial pela temeridade, brincasse com um spray de gasolina na beirada de uma fogueira.


PSOL tenta proibir Crivella de viajar no Carnaval
Comentários 101

Josias de Souza

Líder do PSOL na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, o vereador Paulo Pinheiro apresetará nesta quinta-feira uma proposta inusitada. Proíbe o prefeito Marcelo Crivella de se ausentar da cidade durante o Carnaval. Sobrinho do autoproclamado bispo Edir Macedo, fundador e líder supremo da igreja Universal, Crivella é, ele próprio, bispo licenciado. Não esconde sua aversão à maior festa popular do calendário da cidade que governa. Deu as costas para os dois últimos carnavais. Neste ano, voou para a Europa.

No final de 2017, também por sugestão de Paulo Pinheiro, os vereadores cariocas aprovaram emenda que obriga o prefeito a prestar contas de suas viagens ao exterior 15 dias depois do regresso. A nova regra já se aplica à fuga que livrou Crivella dos tamborins de 2018. Terá de informar os nomes dos membros de sua comitiva, o custo para o bolso do contribuinte e a serventia da excursão à Alemanha, Áustria e Suécia.

É nesse decreto que regulamentou as viagens do prefeito que o vereador Paulo Pinheiro deseja introduzir uma emenda que impeça o chefe do Executivo municpal de se ausentar da cidade no Carnaval. Cogita-se estender a proibição ao Rèveillon, outra data em que o Rio recebe legiões de turistas.

Se aprovada, a emenda talvez não resista a uma ação direta de inconstitucionalidade. Mas será divertido ver o bispo-prefeito requerendo no Supremo Tribunal Federal um habeas corpus que lhe assegure o direito de ir e vir —sobretudo de ir… Para bem longe do Rio e de suas festas profanas.


Segurança vira álibi de Crivella para fugir da folia
Comentários 17

Josias de Souza

Bispo licenciado da igreja Universal, o prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella tornou-se protagonista de um paradoxo. Avesso ao Carnaval, ele governa a cidade conhecida mundialmente como templo da festa profana. Na campanha, prometeu não bulir no pedaço do orçamento da prefeitura destinado às escolas de samba. Em 2018, passou na lâmina metade da verba. Transformado em enredo da Estação Primeira de Mangueira —“Com dinheiro ou sem, eu brinco o Carnaval”— Crivella refugiou-se na Europa. Veiculou no Facebook um vídeo gravado na Alemanha. Nele, diz estar cuidando da segurança do Rio.

“Estamos trabalhando muito, pegando muita informação para saber o que é mais moderno em termos de vigilância, em termos de VANT [veículo aéreo não tripulado], em termos de drone, em termos de informação via satélite, enfim, o que a gente puder para melhorar a questão da segurança no Rio de Janeiro.”

A desculpa de Crivella torna-se alegórica quando se recorda que a Constituição atribui a responsabilidade pela segurança pública ao Estado, não ao município. Sobre isso, o prefeito disse coisas definitivas sem definir muito bem as coisas:

“As pessoas dizem assim: segurança é uma questão do Estado. É sim. Mas olha, do jeito que o Rio está, precisa de ajuda de todo mundo: governo federal, governo municipal, governo estadual, Força Nacional de Segurança, Polícia Rodoviária Federal. Nós todos temos que estar unidos porque a violência é inaceitável.”

Da Alemanha, Crivella e sua comitiva seguirão para a Áustria e a Suécia. São negligenciáveis as chances de a excursão resultar em algo produtivo para o combate à criminalidade no Rio de Janeiro. Assim, o custeio de viagens organizadas para camuflar a aversão do bispo-prefeito ao Carnaval entra na crônica do desperdício nacional como mais uma modalidade do costume de jogar dinheiro público pela janela.


‘Sou educado’, diz Doria sobre Zeca Pagodinho
Comentários 261

Josias de Souza

Na noite de sábado, João Doria cometeu contra o Zeca Pagodinho uma indelicadeza: o prefeito privou o cantor da solidão sem lhe fazer companhia. Deu-se no camarote do Bar Brahma, no Sambódromo do Anhembi. A contragosto, Zeca foi fotografado ao lado de Doria. O cenho crispado denunciou sua má vontade. Criticado nas redes sociais, Doria cometeu uma segunda descortesia com Zeca. Autoelogiando-se, o prefeito insinuou no Twitter que falta educação ao cantor:

“Episódio Zeca Pagodinho”, escreveu Doria, acrescentando depois dos dois pontos: “Sou educado e cumprimento todas as pessoas, onde eu estiver. Continuarei a ser educado, mesmo com incompreensão de alguns.”

Convidado ilustre de um camarote privado, Zeca foi à avenida para ver as escolas de samba. Doria queria ser visto. Como a afinidade entre ambos era de mentira, as fotografias revelaram a verdade de maneira insofismável. Para azar de Doria, sua educação não é comparável à de Zeca, cujos cursos maiores são os de rua, com seus currículos vitais de malandragem.

Não há esperteza política que se equipare à sabedoria do bom malandro. Doria obteve as fotos que tanto queria. Entretanto, considerando-se a má repercussão, as imagens tiveram o peso de uma Quarta-Feira de Cinzas antecipada.

– Atualização feita às 9h36 desta segunda-feira (12): Notícia veiculada na coluna de Monica Bergamo informa que a resistência à ideia de posar ao lado de Doria partiu dos amigos de Zeca Pagodinho. Nessa versão, Zeca se deixou fotografar a despeito da pressão.


Eunício fecha caixão da reforma da Previdência
Comentários 39

Josias de Souza

Embora a reforma da Previdência esteja jurada de morte, o Planalto continua fazendo de conta que ela está cheia de vida. Nesta quinta-feira, porém, o presidente do Senado, Eunício Oliveira, fechou o caixão. Fez isso ao declarar a jornalistas que a reforma pode ficar para novembro.

Segundo a superstição de Michel Temer, seus apoiadores se equipam para aprovar na Câmara o que sobrou da reforma. Isso ocorreria no final de fevereiro. Ao insinuar que o Senado pode esticar o velório até novembro, Eunício como que autorizou os parlamentares a enviarem, desde logo, coroas de flores para o Planalto.

Um líder de partido governista na Câmara explicou ao blog por que o lero-lero de Eunício enterra a reforma: “Ora, os deputados fogem da reforma previdenciária para não perder votos nas eleições de outubro. Se o presidente do Senado diz que os senadores podem deixar o assunto para novembro, por que os deputados deveriam se desgastar antes da eleição? No Congresso, o mais bobo tira a meia sem tirar o sapato.”