Blog do Josias de Souza

Categoria : Secos & Molhados

É difícil distinguir Bolsonaro de seus apologistas
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Josias de Souza

Jair Bolsonaro expôs nacos do seu pensamento num encontro promovido pela Associação Comercial do Rio de Janeiro. A certa altura, instado a comentar a atuação de movimentos como o MST e MTST, o presidenciável do PSL disse que seus integrantes devem ser tratados como “terroristas”.

“A propriedade privada é sagrada”, declarou Bolsonaro. “Temos que tipificar como terroristas as ações desses marginais. Invadiu? É chumbo!” Em aparente litígio com as leis vigentes, o ex-capitão defendeu até mesmo o uso de “lança-chamas” para se contrapor aos invasores rurais e urbanos.

Havia na plateia algo como 300 empresários. Pagaram entre R$ 180 e R$ 220 para ouvir o candidato. Riram muito. Sobretudo nos instantes em que Bolsonaro, meio fora de si, mostrou o que tem por dentro.

O mal de as pessoas pagarem para rir de absurdos de um orador que plebeia o Planalto é o pessoal que passa não distinguir quem é quem.


Prisão de José Dirceu ganhou ar de normalidade
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Josias de Souza

A prisão de José Dirceu esteve a um milímetro do tédio. Sabia-se desde a véspera que o condenado se entregaria na tarde desta sexta-feira, até as 17h. Mas apenas os repórteres fizeram plantão defronte do prédio onde Dirceu arrastava sua tornozeleira eletrônica, em Brasília. Nada de militantes petistas. Nem sinal de opositores. Reinava no ambiente uma doce normalidade.

Cerca de 20 devotos petistas estiveram na Superintendência da Polícia Federal. Mas o condenado preferiu entregar-se na penitenciária brasiliense da Papuda, sonegando à plateia companheira a habitual cenografia do perseguido.

Protagonista dos dois maiores escândalos de corrupção da história republicana, Dirceu coleciona, por ora, três condenações —uma no mensalão e duas no petrolão. No encarceramento que se seguiu à condenação no julgamento do Supremo, em 2013, havia uma revolta da militância, que Dirceu atiçou erguendo o braço esquerdo, com o punho cerrado em sinal de resistência.

No ano passado, após obter habeas corpus na Segunda Turma do Supremo, Dirceu trocou a prisão preventiva no Paraná pela tornozeleira eletrônica em Brasília. Descobriu na chegada que ser libertado pela Suprema Corte não é sinônimo de ser livre. Foi hostilizado por uma multidão de cerca de 50 pessoas. Parte dos manifestantes invadiu a garagem do prédio de Dirceu. Um destacamento de 15 PMs foi acionado para conter os ânimos.

A atmosfera nesta sexta-feira foi bem diferente. Nenhum acontecimento feriu a rotina ou fez a vida escapar ao controle. Não se ouviram os gritos de solidariedade: “Dirceu, guerreiro do povo brasileiro”. Tampouco soou o coro de contrariedade: “Dirceu ladrão, seu lugar é na prisão.”

Sentenciado pelo TRF-4, tribunal de segunda instância, o condenado apenas cumpriu a ordem judicial. Tanta normalidade ainda acaba com a retórica petista da “perseguição política”.


Depois de Aécio, Moro faz pose ao lado de Doria
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Josias de Souza

Noite de gala em Nova York: João Doria e Sergio Moro dividem a cena com suas respectivas mulheres

Quatorze dias depois de ter declarado à revista Cruzoé que se arrepende da foto em que aparece aos risos ao lado do grão-duque do tucanato Aécio Neves, Sergio Moro deixou-se fotografar na companhia do neo-tucano João Doria. Deu-se na noite desta terça-feira, em Nova York, num jantar oferecido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. Durante o repasto, o juiz da Lava Jato foi homenageado com o título de “Personalidade do Ano”.

A cruzada que empreende contra a corrupção transformou Sergio Moro num colecionador de homenagens. O flagrante ao lado de Aécio também ocorreu numa confraternização em que a revista IstoÉ concedeu a Moro, em dezembro de 2016, o galardão de “Brasileiro do Ano na Justiça.”

Espera-se de um juiz que tenha um comportamento recatado. Se Moro foi sincero ao expressar o arrependimento que a foto com Aécio lhe causou, as imagens com Doria constituem indício de que, para o magistrado, é errando que se aprende… A errar.

Doria apressou-se em jogar as imagens no seu Facebook. Na legenda da foto ao lado, o candidato do PSDB ao governo de São Paulo anotou: “Noite especial aqui em NY ao lado de duas pessoas que admiro: ex-prefeito de NY, Michael Bloomberg e o Juiz Sergio Moro, homenageados no ‘Person of the Year Awards’ (Personalidade do Ano), prêmio que também tive a honra de receber no ano passado.”

Ao discursar, Moro disse ter refletido sobre a conveniência de aceitar o convite. Juízes devem atuar com modéstia e humildade, disse ele. Dirigindo-se a uma plateia majoritariamente composta de empresários e banqueiros, Moro declarou que só aceitou a homenagem por se tratar de algo que partiu da iniciativa privada. Enxergou no gesto um reconhecimento do setor privado à importância do combate à corrupção.

Dentro de dois anos, o juiz da Lava Jato talvez declare numa entrevista qualquer que se arrependeu da pose ao lado de Doria. É possível que Moro considere difícil definir recato. Mas a coisa é mais simples do que parece. Funciona como a gravidez. Assim como nenhuma mulher pode estar um pouquinho grávida, um juiz também não pode ser um pouco recatado. Ou é ou não é.


Cabral lamentará não ter criado o ‘Bangu Village’
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Josias de Souza

Por decisão do general Braga Neto, interventor de Michel Temer na segurança do Rio, os fregueses da Lava Jato foram enviados para a hospedaria de Bangu 8. “O lugar é um safari de parasitas”, queixa-se Rodrigo Roca, advogado de Sérgio Cabral. Além de piolhos e carrapatos, os presos reclamam da companhia de baratas e roedores. Alexandre Lopes, defensor do empresário Arthur Pinheiro Machado, escreveu ao juiz Marcelo Brettas para dizer que a cadeia está “infestada de insetos variados e ratos, que transitam em abundância entre os detentos.”

Durante oito anos, as verbas públicas de segurança pública no Rio foram administradas por Sérgio Cabral. Ele poderia ter transformado a cana dura em que se encontra numa espécie de Bangu Village. Hoje, não teria de aturar insetos e ratos. Viveria o sonho de segurança da elite brasileira: condomínio fechado, guardas 24 horas por dia e convívio exclusivo com seus pares.


Mau agouro: Temer pede caneco ao time de Tite
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Josias de Souza

Sob Michel Temer, já não se pode nem torcer em paz. Tite mal havia anunciado os nomes dos 23 convocados e o presidente correu às redes sociais. “Já temos a seleção para a Copa do Mundo na Rússia”, escreveu, antes de fazer sua encomenda: “Agora, Tite e equipe, com todo respeito aos nossos anfitriões e amigos russos e com humildade, por favor tragam o Caneco para casa.” Hummm…

Misturar bola com faixa presidencial não é boa coisa. Quando o portador da faixa é o presidente mais impopular do Brasil pós-redemocratização, aí mesmo é que a mistura se transforma num sinal de mau agouro.

Com seus gestos teatrais e suas mesóclises, Temer não se parece com um fanático por futebol. Ao contrário, passa a impressão de ser como a grã-fina de Nelson Rodrigues —uma personagem que se interessava tão pouco pela arte dos gramados que, se entrasse num estádio, indagaria: “Quem é a bola?”

Se o amor de Temer pelo futebol é duvidoso, seu comentário deixou boiando no ar uma certeza: vencida a Copa, o inquilino do Planalto se enrolará na bandeira e fará embaixadas com os campeões, no salão nobre do Planalto, para fabricar uma identificação entre a conquista do “Caneco” e o ocaso do seu governo.

Considerando-se que sete em cada dez brasileiros gostariam de mostrar um cartão vermelho para o presidente, corre-se o risco de parte da torcida imaginar que os cruzamentos de William colocarão Temer na cara do gol, não Neymar. Era só o que faltava: uma torcida com sentimento de culpa. A última que tentou tirar proveito político do escrete foi Dilma Rousseff. Ouviu vaias e xingamentos na abertura de uma Copa que terminou no traumático Alemanha 7 X 1 Brasil.


PT vai ao TSE para ter dublê de Lula em sabatina
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Josias de Souza

O PT protocolou no Tribunal Superior Eleitoral, nesta quinta-feira, uma representação contra UOL, Folha e SBT. Nela, o partido pede ao tribunal uma decisão liminar que obrigue os três veículos de comunicação a incluir Lula, preso em Curitiba desde 7 de abril, num ciclo de sabatinas com presidenciáveis. Assina a peça a senadora Gleisi Hoffmann (PR), presidente nacional da legenda. O PT reconhece no documento que seu hipotético candidato enfrenta “condições adversas que hoje impedem a locomoção”, eufemismo para cadeia. Mas alega que, como líder nas pesquisas, o preso tem o “direito” de ser representado na sabatina por um dublê, a ser indicado pelo partido.

Participam das sabatinas os seis candidatos mais bem-postos na pesquisa do Datafolha. Como Lula, o favorito, está atrás das grades, os organizadores foram compelidos a convidar o sétimo colocado na preferência do eleitorado, Alvaro Dias, entrevistado na última segunda-feira. Para o PT, houve quebra do princípio da isonomia. A legenda pediu às empresas para incluir o representante petista no rol de entrevistados. O pedido foi negado, pois uma candidatura, por pessoal, não é transferível. Quem está no topo do Datafolha é Lula, não o seu dublê.

Paradoxalmente, o PT faz dois pedidos subsidiários ao TSE. Reivindica que o ciclo de sabatinas seja cancelado caso o representante petista não possa participar. Requer também que o evento seja tipificado como campanha eleitoral antecipada, com a imposição de multa de até R$ 25 mil. Quer dizer: incluindo-se um ator partidário para fazer o papel de Lula, tudo é legal. Sem o coadjuvante, as sabatinas passam a ser uma fronta à legislação eleitoral.


Gleisi critica ciclo de sabatinas sem o preso Lula
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Josias de Souza

Gleisi Hoffmann, autoconvertida numa espécie de Alice petista, escolheu viver num País das Maravilhas. Nele, Lula continua com a ficha higienizada e a candidatura presidencial intacta. Quem ousa mostrar à presidente do PT que sua fantasia não cabe no mundo real é esculachado por ela.

UOL, Folha e SBT decidiram realizar um ciclo de sabatinas com os seis presidenciáveis mais bem-postos no Datafolha. Como o favorito Lula está atrás das grades, os organizadores foram compelidos a convidar Alvaro Dias, o sétimo colocado na preferência do eleitorado. Ele será sabatina nesta segunda-feira (7).

A versão petista de Alice zangou-se. Despejou sua irritação no Twitter: “Passando pra avisar que Lula não está com seus direitos políticos suspensos. Será candidato”, escreveu Gleisi. “Excluir sua representação de entrevistas só evidencia o caráter antidemocrático desses veículos de comunicação. Lembrem-se que ele está em primeiro nas pesquisas, assim como o PT!”

No Brasil paralelo da fantasia, Lula não recebeu um tríplex de presente da OAS, a força-tarefa de Curitiba lidera uma perseguição política e Sergio Moro é um agente da CIA. Beleza. O problema é que o TRF-4 elevou a sentença de Lula para 12 anos de cana, o STJ negou-lhe um habeas corpus e o Supremo pavimentou o caminho do brejo.

Assim, ou Alice Hoffmann explica como deveriam proceder os responsáveis pela sabatina para ouvir o presidiário ou ficará entendido que a presidente do PT pediu asilo político no país da fantasia, abdicando definitivamente da prerrogativa de cruzar a fronteira de volta para a realidade.


PSDB negocia sua chapa em Minas sem Aécio
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Josias de Souza

Depois de alguma relutância, o senador Antonio Anastasia conformou-se com a ideia de disputar novamente o governo de Minas Gerais pelo PSDB. Marcou para o dia 14 de maio o ato de formalização de sua candidatura. Já dispõe até de slogan: “Reconstruir Minas.” A primeira obra da reconstrução deve ser a destruição da candidatura tóxica de Aécio Neves ao Senado.

O tucanato mineiro negocia com o PMDB a indicação dos dois candidatos a senador da coligação encabeçada por Anastasia. Se tudo correr como planejado, não haverá vestígio de Aécio na chapa majoritária. Nessa hipótese, o personagem que quase virou presidente da República em 2014 terá de se contentar em pedir votos para uma cadeira na Câmara dos Deputados. Ou nem isso.

No mês passado, quando o presidenciável Geraldo Alckmin declarou que a conversão de Aécio em réu deixara “evidente” que ele tinha dois milhões de motivos para não ser candidato em 2018, o amigo de Joesley Batista dissera que sua candidatura seria decidida em Minas. Àquela altura, Aécio já era um cadáver político mal informado. Não sabia que sua candidatura à reeleição já tomara o caminho da cova.

Suprema ironia: aliado do governador petista Fernando Pimentel, que guerreia para ser reconduzido ao cargo, o PMDB passou a flertar com o PSDB em Minas depois que o PT ameaçou lançar Dilma Rousseff como postulante ao Senado. Brotaram resistências dentro do próprio petismo. Os companheiros também gostariam que madame concorresse à Câmara.


Azeredo e Aécio seguem na Executiva do PSDB
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Josias de Souza

Azeredo, o condenado, e Aécio, o réu, continuam na galeria de membros da Executiva do PSDB

Dá pena o esforço retórico de Geraldo Alckmin. Delatado pela Odebrecht, o presidenciável do PSDB tenta tomar distância do condenado Eduardo Azeredo e do réu Aécio Neves. Mas os companheiros tóxicos continuam pertinho do presidenciável tucano na galeria de membros da Executiva Nacional do partido. Alckmin integra o colegiado como presidente da legenda. Azeredo e Aécio ocupam cadeiras cativas reservadas aos ex-presidentes.

Na semana passada, nas pegadas da conversão de Aécio em réu pelo Supremo, Alckmin declarou: “É claro que o ideal é que ele não seja candidato, é evidente”. Nesta quarta-feira, sob o impacto da confirmação da condenação de Azeredo a duas décadas de cadeia pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, ele afirmou: A Justiça é para todos. Decisão juducial se cumpre.”

Alckmin rejeita comparações entre a degeneração do PSDB e a perversão do PT. “Aécio não tem nenhuma condenação, o Lula tem duas. E é o imperador do PT”, declarou. Azeredo também já coleciona um par de condenações, na primeira e na segunda instância do Judiciário. Ele está longe de ser um imperador no PSDB. Ainda assim, não há vestígio de providência do tucanato para expurgar Azeredo dos seus quadros.