Blog do Josias de Souza

Categoria : Secos & Molhados

Governo dá como certo um adiamento no TSE
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Josias de Souza

Nelson Rodrigues ensinou que a dúvida é autora das insônias mais crueis. Ao passo que, inversamente, uma boa e sólida certeza vale como um barbitúrico irresistível.

Na noite passada, os repórteres cutucaram Michel Temer. Queriam arrancar dele um comentário sobre a decisão do Tribunal Superior Eleitoral de marcar para terça-feira o início do julgamento do processo que pode levar à cassação do mandato presidencial.

“Marcou já? Ótimo. Vamos aguardar”, disse Temer, sem franzir o cenho. Deve-se a calma do presidente à certeza que se disseminou no Planalto segundo a qual o julgamento pode até começar na semana que vem. Mas não terminará tão cedo.


Temer e Dilma provam: política é feita de farsa
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Josias de Souza

Na política, todos são, em grau menor ou maior, falsos. Essa falsidade vai do ‘bom dia’ que um político dá a outro que gostaria de ver submetido a uma chuva de canivetes até a hipocrisia de um elogio dirigido a alguém detestável que a conveniência política se encarregou de dotar de qualidades extraordinárias. O relacionamento entre Dilma Rousseff e Michel Temer comprova essa teoria.

Chamado de “fraco” por Dilma, Temer reagiu numa conversa com o repórter Roberto D’Ávila, exibida na noite desta quarta-feira, na Globonews: “Prefiro ser fraco do que ser forte, porque os que se dizem fortes destruíram o país. Então, nesse sentido, eu prefiro a fraqueza à fortaleza. Mas fraco não sou. […] É que as pessoas confundem educação cívica, educação pessoal, com eventual fraqueza. Não vou mudar meu jeito. Sempre deu certo assim, vou continuar assim.” Até bem pouco, com os pés fincados no palanque, o mesmo Temer enaltecia a força de Dilma no combate à ditadura. Repare no vídeo abaixo.

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Dilma havia espicaçado Temer numa entrevista à repórter Maria Cristina Fernandes, publicada há seis dias no jornal Valor. “Não adianta toda a mídia falar que ele é habilidoso. Temer é um cara frágil. Extremamente frágil. Fraco. Medroso. Completamente medroso. […] É um cara que não enfrenta nada!”. A mesma oradora apresentava o companheiro de chapa nos comícios como “uma pessoa experiente, séria, competente e capaz.” Veja na cena abaixo.

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Certos encontros e desencontros da política não têm grande serventia. Até porque a história e o pragmatismo mostram que os insultos não costumam impedir futuras alianças. Arrroubos como os de Dilma e Temer servem apenas para reforçar no imaginário da plateia a convicção de que o teatro da política é mesmo o território da farsa. Convém não levar a sério os seus protagonistas. Sob pena de fazer o papel de idiota.


Agricultura diz em texto oficial não ter competência para tratar de desvios
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Josias de Souza

Em resposta a um requerimento de informações formulado pelo deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), o Ministério da Agricultura afirmou que não é de sua competência zelar para evitar que se estabeleça uma relação de promiscuidade entre os fiscais da pasta e as empresas sujeitas à fiscalização. O documento foi redigido há quatro anos, em 2013, sob Dilma Rousseff. Comandava a pasta da Agricultura na ocasião o deputado Antônio Andrade (PMDB-MG).

Chico Alencar contou ao blog que foi procurado na época por fiscais agropecuários do Rio de Janeiro. “Estavam apavorados com um cara que havia sido indicado pelo Eduardo Cunha para a superintendência do Rio.” O deputado, então, endereçou um lote de interrogações à pasta da Agricultura. Esse tipo de requerimento de informações é uma prerrogativa constitucional dos congressistas. Os ministros são obrigados a responder. Vai reproduzido abaixo um pedaço da resposta enviada ao parlamentar do PSOL.

No item de número 6 do seu requerimento de informações, Chico Alencar indagou: “Qual é a política e quais são as providências tomadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para evitar ‘captura’ dos seus órgãos de inspeção por interesses dos setores inspecionados, em detrimento do interesse público?” Incumbida de prover a resposta, a Coordenação-Geral de Administração de Pessoas da pasta da Agricultura anotou, laconicamente: “Este assunto não está afeto à área de competência desta CGAP/MAPA.”

Esse tipo de resposta ajuda entender o flagelo exposto na notícia redigida pelo repórter Leandro Prazeres, do UOL. Escorado em documento oficial, ele informa que a pasta da Agricultura farejara indícios da existência de um esquema de fraude na fiscalização de frigoríficos no Paraná desde outubro de 2015, um ano e cinco meses antes de a Polícia Federal levar ao meio-fio a Operação Carne Fraca.


Quem pagou comício de Lula no São Francisco?
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Josias de Souza

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Alguém já disse que a verdade é algo tão precioso que às vezes precisa ser protegida por uma escolta de mentiras. Ao discursar no megacomício que Lula realizou na cidade de Monteiro, no Cariri da Paraíba, o anfitrião Ricardo Coutinho (PSB), governador paraibano, disse o seguinte:

“Aqui, no território livre da Paraíba, o povo sabe o que é verdade, o povo tem a coragem de ir às ruas. […] Eu agradeço aos meus companheiros, prefeitos aqui da região. Botaram a mão na massa. Fizeram, efetivamente, de burro, de carroça, de carro, de ônibus, de qualquer jeito criaram as condições para que muita gente estivesse aqui. Não foi gasto um centavo de dinheiro público, não foi gasto nada, a não ser o sentimento de gratidão que o nosso povo tem.”

Coutinho revelou-se um grato cego. Não viu a superestrutura ao redor. Entre outros itens, o aparato montado para Lula reinaugurar o pedaço da obra da transposição do Rio São Francisco que Michel Temer já havia inaugurado há nove dias incluiu: o palanque, as tendas, o equipamento de som, as grades de proteção, o jatinho para o candidato e uma frota de ônibus para levar aclamação até os ouvidos de Lula. Essas coisas não costumam ser custeadas pelo “sentimento de gratidão”. Mesmo no “território livre da Paraíba”, os fornecedores só quitam as faturas mediante pagamento em dinheiro.

As imagens veiculadas abaixo indicam que o evento custou caro. Como Coutinho assegurou que não há verba pública no lance, ficou boiando sobre as águas transpostas do São Francisco uma interrogação: quem pagou as despesas relacionadas ao megacomício de Lula?

De duas, uma: Ou o morubixaba do PT dispõe de meia dúzia de mecenas dispostos a financiar no caixa dois sua campanha fora de época ou o governador da Paraíba cometeu algum engano. Esse é o tipo de engano que costuma virar matéria-prima para ações judiciais. Em tempos de Lava Jato, o brasileiro já não se importa com enganos. Ele apenas não suporta ser enganado.

Quem financiou? Além do palanque, ao fundo, comício de Lula teve uma ala de tendas, à direita

Quem custeou? Coutinho levou Lula e Dilma às margens do São Francisco em ônibus refrigerado

Quem bancou? Parte da plateia companheira que ovacionou Lula foi transportada em ônibus fretado

Quem pagou? Lula, ao lado da deputada Estela Izabel (PSB), chegou à Paraíba de jatinho


Ao depor como réu, Lula se equiparou a Deus
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Josias de Souza


Em seu primeiro depoimento como réu em processo da Lava Jato, Lula se colocou no lugar de Deus. Disse ao juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, que o primeiro-amigo José Carlos Bumlai não estava autorizado a discutir negócios. O magistrado perguntou se Bumlai poderia ter usado o nome de Lula. E o interrogado: “Doutor, se o senhor soubesse quanta gente usa o meu nome em vão! De vez em quando eu fico pensando pras pessoas (sic) lerem a Bíblia, pra não usar tanto o meu nome em vão.”

Lula decerto se referia aos dois trechos da Bíblia que anotam os Dez Mandamentos que Deus entregou ao seu marqueteiro, o profeta Moisés, para que ele os propagandeasse. As Tábuas da Lei estão disponíveis em Êxodo 20,2-17 e Deuteronômio 5,6-21. Incluem o seguinte preceito: “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.”

Se pudesse, Deus talvez escolhesse viver no Brasil. Como a onipresença obriga o Todo-Poderoso a estar em toda parte, Lula o representa no território nacional. Mas a divindade petista não se sente obrigada a observar todos os mandamentos. Dá de ombros, por exemplo, para o “Não Furtarás”. A certa altura do depoimento, Lula disse: “Me ofende profundamente a informação de que o PT é uma organização criminosa.”

Lula talvez não tenha notado, mas ele próprio já frequenta as páginas de cinco ações penais na posição de protagonista. De resto, o sistema carcerário de Curitiba está apinhado de petistas: José Dirceu, Antonio Palocci, João Vaccari Neto, Renato Duque…


Jurista chama caixa dois de ‘crime de lesa-pátria’
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Josias de Souza


Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o jurista Modesto Carvalhosa tachou o caixa dois de “crime de lesa-pátria”. Para o candidato que recebe, disse ele, o dinheiro por baixo da mesa representa uma “vantagem ilícita” sobre o concorrente que faz campanha dentro da lei. Para a empresa que paga, o caixa clandestino é “uma forma de cooptação criminosa” do político.