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PR oferece 1min15s em troca da alma de Dilma

Josias de Souza

25/06/2014 05h01

No evento político em que o PT tornou sua candidatura oficial, Dilma Rousseff anunciou que, reeleita, será uma presidente nova a partir de janeiro de 2015. Ao discursar, ela reciclou promessas descumpridas e pronunciou 47 vezes palavras e expressões com o significado de recomeço, de ajuste, de correção de rumos. Portanto, será outra. Só não trocou de nome porque seria muito trabalhoso mudar os documentos e o governo federal ao mesmo tempo.

Enquanto Dilma se esforçava para demonstrar como pretende virar a mudança de si mesma, o Partido da República realizava, no sábado (21), sua convenção nacional. A legenda tomou duas decisões: sepultou a natimorta candidatura presidencial do senador Magno Malta (PR-ES) e delegou à sua Executiva Nacional a tarefa de escolher, até a próxima segunda-feira (30), o nome que irá apoiar na corrida presidencial de 2014.

Na sequência, o PR levou ao balcão sua mercadoria mais cobiçada: 1min15s de propaganda eleitoral no rádio e na tevê. O partido informou aos ministros palacianos Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Ricardo Berzoini (Relações Institucionais) que pende para Dilma. Mas impôs condições: quer de volta o Ministério dos Transportes. Chama-se Cesar Borges o atual titular da pasta. É filiado ao PR da Bahia. Mas a legenda não se sente representada por ele.

No universo da política, esse tipo de transação recebe o apelido de "negociação política". No mundo real, onde as palavras ainda fazem algum sentido, o nome é outro: chantagem. Repetindo: o PR chantageia Dilma a céu aberto. Para apoiá-la, exige indicar alguém que o represente nos milionários negócios dos Transportes. Do contrário, ameaça entregar seu tempo de propaganda ao presidenciável tucano Aécio Neves. Numa palavra, o que o PR pede é a alma de Dilma.

Eis o pior: em vez de tratar a exigência do PR a pontapés, os prepostos de Dilma abriram negociação com os chantagistas. Quer dizer: todo aquele lero-lero segundo o qual a Dilma de 2015 representaria a mudança exigida por mais de 70% do eleitorado pode ruir antes mesmo de ter conseguido ficar em pé. Cedendo ao PR, Dilma dirá ao país que sua convicção tem um código de barras.

A transação envolve dois sujeitos ocultos: Lula, o presidente emérito da República, guia os passos de Dilma. Reuniu-se com ela na noite passada, no Alvorada. E o presidiário Valdemar Costa Neto puxa os cordões do PR de dentro da Penitenciária da Papuda. As conversas evoluem contra um pano de fundo enodoado por detritos da pseudofaxina que Dilma realizou na Esplanada em 2011. Nessa época, dava as cartas nos Transportes o senador Alfredo Nascimento (PR-MA), herdado de Lula.

Posto no olho da rua como lixo, Nascimento, que responde formalmente pela presidência do PR federal, levou à face uma pose de vítima. Foi substituído por Paulo Sérgio Passos um técnico que, embora filiado ao PR, não foi digerido pela legenda. Na última reforma ministerial, Dilma trocou-o por Cesar Borges na expectativa de pacificar o aliado. Não funcionou para o PR. Indício de que pode ter funcionado para a República.

Com o expurgo de 2011 ainda atravessado na traqueia, o PR dá o troco. E Dilma vive um daqueles momentos em que a pessoa é convidada pelas circunstância a tomar uma decisão definitiva, do tipo que define quem ela é de fato. Não se trata de uma escolha banal. Suponha que, depois de examinar as alternativas, Dilma decida: eu quero devolver a execução do orçamento do Ministério dos Transportes a alguém que corresponda aos anseios do PR de Valdemar Costa Neto.

Nas próximas horas o eleitorado vai descobrir quem Dilma Rousseff decidiu ser a partir de janeiro de 2015. Se o PR aderir, a coisa mais sensata que a candidata tem a fazer é parar de aborrecer o país com a conversa mole da mudança. Se o PR cair no colo de Aécio Neves, o eleitorado terá a confirmação de que a já anunciada migração do PTB da canoa do PT para a do PSDB pode não ter sido um bom exemplo. Mas é um ótimo aviso.

Vai ficando entendido que, reduzida novamente a uma gincana publicitária, a campanha de 2014 será apenas mais um desses períodos em que um grupo de loucos usufrui da licença legal para adiar o início da novela e apresentar na tevê suas credenciais para dirigir o hospício. Leva a chave do cofre quem tiver mais tempo de propaganda para vender a melhor encenação.

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Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.


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