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Categoria : Entrevistas

Jarbas: ‘Vivemos uma situação pior que ditadura’
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Josias de Souza

O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) recusou-se a participar da sessão em que foi aprovada no Senado a medida provisória dos portos. Ele foi ao plenário, expressou sua contrariedade e foi para casa. “Não me animei a ficar lá, feito um idiota, coonestando aquilo tudo”, disse o senador em entrevista ao blog. “Achei melhor me aborrecer vendo pela televisão.” Jarbas classifica o processo de votação de “farsa”. Sustenta que o Legislativo vive hoje “uma situação pior do que a que atravessamos na época da ditadura.” Abaixo, a conversa:

— Por que não permaneceu no plenário? Fui ao plenário para registrar minha contrariedade com o absurdo a que o Senado foi submetido. Renan disse que, a partir de agora, não recebe mais medida provisória a menos de sete dias de vencer o prazo de validade. Afirmou que essa MP dos Portos seria uma excepcionalidade. Admitiu que é uma aberração. Mas recebeu. Não tenho nenhuma razão para acreditar nele. Na semana passada, o Senado já havia votado uma medida provisória recebida na véspera, sem respeitar nem o prazo mínimo de 48 horas. Foi dito que aquilo era uma exceção, que não se repetiria. Antes, na votação do projeto de lei que inibe a criação de partidos políticos, foi feita uma votação simbólica. Eles perderam. Renan fingiu que não viu. Foi preciso pedir votação nominal para derrubar a sessão por falta de quórum. O STF depois suspendeu a tramitação da proposta. Como podemos dar crédito a esse tipo de gente?

— Não se animou a enfrentar o embate dos portos? Nunca fui de fugir de embates. Mas esse embate eu já sabia o resultado. Por isso, não vi razão para permanecer em plenário. Ao contrário do que fez o presidente da Câmara, Henrique Alves, que conduziu a votação com decência, o Renan já havia deixado claro na véspera que iria atropelar. Não me animei a ficar lá, feito um idiota, coonestando aquilo tudo. Vim para casa. Achei melhor me aborrecer vendo pela televisão.

— Do modo como fala tudo parece reduzir-se a um teatro, é isso? Sem dúvida nenhuma. É uma farsa. Uma farsa comandada por alguém que não tem credenciais para que ninguém acredite nas suas boas intenções. Além disso, o teatro dessa vez é de horrores.

— Que horrores? Eu assisti pela televisão a um debate de altíssimo nível entre duas figuras de reputação ilibada. Um responde a um processo no Supremo Tribunal, o outro está condenado, em primeira instância, por formação de quadrilha. Todos os dois acusam o governo de ter colocado penduricalhos dentro da chamada MP dos Portos.

— Refere-se aos líderes do PMDB, Eduardo Cunha, e do PR, Anthony Garotinho? Sim, todo mundo viu. Foi televisionado. Como é que eu poderia votar isso aqui, sem tomar conhecimento e sem poder emendar? Como é que o Senado da República vai votar uma medida provisória em que duas pessoas de alto nível, de reputação ilibada, lá da Câmara, dizem que esta MP não presta, que esta MP atende a pessoas, a grupos e a empresas? Não dá.

— Que avaliação faz da votação da MP dos Portos na Câmara? A Câmara, que tinha uma imagem muito ruim, cumpriu o seu papel. O Henrique Alves pode ter todos os defeitos, mas presidiu as sessões de maneira satisfatória. Deixou a oposição falar, permitiu que todos se manifestassem. Em momento nenhum o presidente da Câmara tentou estrangular a oposição. A oposição fez várias questões de ordem. Umas foram acatadas; outras rejeitadas. Tudo dentro de um processo democrático. O resultado final foi acolhido por todos os lados.

— E no Senado? A farsa começa pelos prazos. A medida provisória chega ao Senado no último dia, a poucas horas de perder a validade. Todo mundo já sabia qual seria o resultado. Renan chegou lá disposto a votar de qualquer jeito. Na véspera ele já tinha anunciado na televisão que trataria a medida como excepcional. Tudo em nome do interesse do país. Ora, que interesse do país é esse que nega aos senadores o direito de votar com consciência? Dilma é estatizante. Ela tem vergonha da palavra privatização. Quem pode acreditar que a presidente Dilma tem interesse em modernizar portos? Só os tolos. Oou aqueles que servem ao governo a todo custo.

— Haveria outras formas de tratar do assunto? Claro. O governo poderia enviar ao Congresso um projeto de lei. Se quisesse, poderia requerer o regime de urgência. A análise se daria rapidamente. Não é verdadeira essa conversa de que são contrários à modernização dos portos os parlamentares que se negam a participar dessa farsa. Vivemos hoje uma situação pior do que a que atravessamos na época da ditadura.

— Como assim? Na época da ditadura, fui deputado federal em dois mandatos. Nessa época, para subir à tribuna era preciso ter coragem cívica e também física. Pois a ditadura tinha determinados acanhamentos de fazer as coisas em determinadas ocasiões. Só havia dois partidos: Arena e MDB. Em determinados momentos, a Arena ficava meio encabulada de massacrar o MDB. Agora é diferente. Eles fazem o que querem. Anunciam claramente o que vão fazer. E fazem.

— Quem é responsável por esse quadro, o Executivo que liga o trator ou o Legislativo que aceita ser tratorado? A responsabilidade é dos dois. O Executivo porque faz tudo sem nenhum apreço às regras mais básicas do processo democrárico. E o Legislativo porque não se contrapões nem se impõe. Aceita passivamente as coisas. A Câmara, nessa semana, viveu momentos inusuais. No Senado, Renan faz o que quer.

— Renan se queixou do recurso que a oposição protocolou no STF para tentar suspender a sessão. O que achou? Não vejo o menor problema em recorrer ao Supremo. Mandei dizer para o Agripino Maia que, se precisassem de minha assinatura, eu estava à disposição. O Supremo é uma instância recursal. Então a gente é massacrado e tem que ficar calado? Na ditadura não adiantava recorrer ao Supremo. Agora, pelo menos nesse aspecto, é diferente.


Arthur Virgílio admite favoritismo de Dilma, acha que ‘falta clareza’ a Aécio e teme virar ‘sparring’ .
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Josias de Souza

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“Eu preciso que o PSDB me dê garantias de que eu posso pensar em me reapaixonar por ele.” A frase é reveladora do estágio em que se encontra o maior partido da oposição. Pronunciou-a um tucano histórico: o ex-senador amazonense Arthur Virgílio, hoje prefeito de Manaus.

Convidado a discursar na convenção que aclamará Aécio Neves como novo presidente do PSDB em 18 de maio, Virgílio crivou sua mulher, Goreth, de perguntas: “O que eu faço? Discurso em inglês? Leio o discurso? Ator eu não sou!”. Virgílio já aceitou o convite do partido. Falará em nome dos prefeitos tucanos. Orador tarimbado, torce para que a plateia o acenda.

Em entrevista ao blog, Arthur Virgílio fez declarações que ajudam a explicar o déficit de paixão que o acomete. Ele reconhece que Dilma Rousseff, com quem terá uma audiência nesta sexta-feira (10), é favorita na disputa presidencial de 2014.

A despeito da inflação, a crise econômica “não foi ainda percebida pela população”, declara. “Não houve queda na renda” das pessoas. E os empregos, embora “não sejam de boa qualidade”, continuam sendo gerados. Tudo isso “favorece quem está no poder.”

Virgílio acredita que a presença de três candidatos no “campo da oposição” fará de 2014 uma disputa “mais renhida” do que as duas anteriores. Mas avalia que “falta clareza” a Aécio Neves e também a Eduardo Campos, o presidenciável do PSB. Ainda vinculado ao poder petista, “Eduardo está numa transição para a oposição”, diz. Quanto a Aécio, “começa a explicitar um antagonismo com o governo.” Porém, o cenário exige algo mais palpável do que uma “oposição de frases.”

Virgílio enaltece Marina Silva (Rede). Não vê nela uma contendora com potencial para virar presidente. Mas elogia-lhe a nitidez: “A Marina, que afasta muito voto por ser como é, tem os votos que tem por ser como é. Os votos que ela tem não bastam para ganhar a Presidência da República. Mas os votos que ela tem sabem exatamente por que estão votando nela.”

“O PSDB precisa se repensar”, afirmou o entrevistado a certa altura. Ele concorda com a tese segundo a qual falta ao partido uma utopia nova. Algo com o apelo da estabilização da economia, que rendeu um par de mandatos a Fernando Henrique Cardoso. Virgílio, a propósito, lamenta que o ex-presidente tucano não seja 20 anos mais moço. Acha que, tomado pela “ebulição” do raciocínio, daria um bom candidato.

Para Virgílio, o PSDB tem “dois desafios”. Dando-se de barato que Dilma estará no segundo segundo turno, a legenda precisa demonstrar que tem bala para amealhar a outra vaga. Além disso, tem de provar que é de fato competitivo. Torcedor fanático do Flamengo, o prefeito de Manaus receia que seu partido termine virando uma espécie de Vasco da Gama dos torneios presidenciais.

“Brinco muito com meus amigos vascaínos. Eu não quero para o meu partido um destino de Vasco da Gama. Vice, vice, vice, vice é complicado. Perder três eleições já foi um golpe duro. Perder uma quarta eleição é como sapato branco. É bonito nos outros. […] Daqui a pouco, você vira o sparring, não o lutador principal.”

Afora as inquietações eleitorais, uma encrenca econômica atormenta Arthur Virgílio. A simples menção ao nome de Geraldo Alckmin o aborrece. Por quê? Segundo o prefeito, a pretexto de defender os interesses de São Paulo no debate sobre o ICMS e a ‘guerra fiscal’, Alckmin guerreia contra o pólo industrial de Manaus.

“Se o PSDB assume a cara do Alckmin, é óbvio que não tem espaço para nós dois. E como ele é o poderosíssimo governador de São Paulo é muito provável que o incomodado a se mudar tenha que ser eu.” Na sucessão de 2006, o presidenciável do PSDB era Alckmin. No Amazonas, ele fez campanha ciceroneado por Virgílio. Hoje, o prefeito desaconselha a visita do governador paulista ao seu Estado.

“Creio que o Alckmin não deve ir lá nem para visitar hotel de selva. Teria que botar óculos escuros, um chapéu, bigode… Porque não seria uma pessoa bem-vinda no Estado. A gente deve dizer a verdeade.” O problema do ICMS é um dos temas que Virgílio pretende discutir com Dilma no encontro desta sexta.

Na campanha municipal do ano passado, Dilma frequentou em Manaus o palanque da senadora Vanessa Grazzitin, do PCdoB, rival de Virgílio. Não está desconfortável com a visista?  Não, responde o prefeito. A presidente “foi extremamente elegante comigo. Não disse nenhuma palavra que me ofendesse.” No dizer do prefeito, quem “se excedeu” foi Lula. Acabou percebendo que “pode muito, mas não pode tudo”.


STF pode mandar para casa cerca de 30 mil presidiários do semiaberto por falta de vagas
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Josias de Souza

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O Supremo Tribunal Federal prepara-se para julgar um caso que expõe o grau de negligência com que o Estado brasileiro gerencia o seu sistema prisional. Milhares de criminosos condenados a cumprir pena de prisão em regime semiaberto podem ser mandados para casa por falta de vagas nos presídios. No ano passado, o déficit de acomodações para esse tipo de prisioneiro era de 24 mil vagas. Estima-se que o número roçará a casa dos 30 mil quando o STF bater o seu martelo.

Adepto da tese segundo a qual “o réu não pode arcar com a ineficiência do Estado”, o ministro Gilmar Mendes é relator de um recurso especial originário do Rio Grande do Sul. Envolve um ladrão. Roubou de uma pessoa R$ 1.300 e um telefone celular. Agrediu a vítima. Foi condenado a cinco anos e oito meses de cadeia em regime semiaberto. Deveria ter sido recolhido a uma colônia agrícola ou industrial. Não havia vagas. E o Tribunal de Justiça gaúcho atenuou-lhe o castigo, mandando-o à prisão domiciliar.

Inconformado o Ministério Público recorreu ao STF para tentar impor ao condenado a cadeia em regime fechado em vez do refresco domiciliar. No Supremo, o caso será julgado sob as regras da “repercussão geral”, uma ferramenta processual que faz com que a decisão da Corte suprema seja aplicada em casos idênticos nas instâncias inferiores do Judiciário. Gilmar Mendes decidiu submeter a encrenca ao plenário do tribunal. Antes, fará uma audiência pública para esmiuçar o tema. Será nos dias 27 e 28 de maio.

Em entrevista ao blog, Gilmar admitiu que o julgamento pode resultar em benefício para cerca de 30 mil prisioneiros sentenciados ao regime semiaberto. Podem migrar para uma condição melhor do que a do ladrão gaúcho. “Em muitos casos pode significar até não aplicar qualquer pena”, disse o ministro. Os juízes converteriam as sentenças em castigos alternativos. Entre os potenciais beneficiários estão 11 dos 25 condenados do mensalão. Entre eles José Genoino, Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto.

O próprio Gilmar reconhece que a eventual liberação de tantos presos trará “graves consequências para todo o sistema” prisional. Aguçará no brasileiro o “sentimento de impunidade.” Daí sua decisão de escancarar o caso numa audiência pública. O debate abrangerá outras mazelas do sistema carcerário. Segundo o ministro, há no Brasil 540 mil presos (eram 95 mil em 1995). Desse total, 40% são “presos provisórios”. Gente que foi em cana “sem uma decisão judicial condenatória.” Alguns há mais de uma década –11 anos num caso detectado pelo Conselho Nacional de Justiça no Espírito Santo; 14 anos num processo do Ceará.

Gilmar voltou a ironizar comentário feito pelo ministro petista da Justiça, José Eduardo Cardozo. Em novembro do ano passado, no auge do julgamento do mensalão, o auxiliar de Dilma Rousseff tachara de “medieval” o sistema prisional. Dissera que, se fosse condenado a uma pena longa, preferiria morrer a ser recolhido a uma cadeia brasileira. E Gilmar: “Se fosse o ministro da Saúde falando do sistema prisional, nós diríamos: é apenas uma opinião. Mas ele [Cardozo] é o único ator que de fato pode conseguir mudar esse quadro e coordenar os esforços.”

Para Gilmar, “a União está em déficit na temática da segurança.” E quem mais padece são os réus pobres. “Temos um sistema de assistência judiciária altamente deficiente”, diz o ministro. “Há hoje no Brasil algo em torno de 5 mil defensores públicos. Se eles se dedicassem apenas aos presos –dos 540 mil talvez 90% sejam pessoas pobres— muito provavelmente não haveria como atender à demanda.”


Novo partido pende para Eduardo, afirma Freire
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Josias de Souza

Freire: ‘Alternativa que mais se fortaleceu no PPS com a fusão é a candidatura de Eduardo Campos’

A Mobilização Democrática, legenda a ser criada nesta quarta-feira (17) a partir da fusão do PPS com o PMN, enxerga no governador pernambucano Eduardo Campos (PSB) a melhor alternativa para a sucessão de 2014. “Isso é bom inclusive para o próprio Aécio Neves, porque a presença de mais candidatos na disputa força a realização de um segundo turno”, disse o deputado Roberto Freire, presidente do PPS, em entrevista ao blog.

O novo partido foi constituído para oferecer uma “janela” aos políticos descontentes com suas atuais legendas. Freire informa que serão bem-vindos inclusive insatisfeitos do recém-criado PSD e do DEM. “Não temos razão para adotar filtro ideológico. A realidade política que estamos vivendo exige uma amplitude maior, pede a formação de uma frente democrática.” Espera trazer o tucano José Serra? “Estamos no jogo, esperando até o último segundo”, responde Freire. Abaixo, a entrevista:

— A nova legenda, que se define como da esquerda democrática, não irá se descaracterizar ao receber políticos de partidos como PSD e DEM? É por isso que o partido vai ser chamado de Mobilização Democrática, embora tenha uma componente de esquerda, inclusive com a tradição comunista, que o PPS traz. Não vamos ficar circunscrevendo nossa ação a quem for de esquerda.

— Não receia ser comparado a Gilberto Kassab, que disse que o PSD não seria de esquerda nem de direita nem de centro? Não. Nosso partido, se você quiser situar, será de centro-esquerda. A componente de esquerda, inclusive comunista, vai se fazer notar, junto com setores da sociedade que são democráticos. Nosso projeto é de natureza essencialmente democrática. Diria a você que, em função da realidade brasileira, estamos criando uma frente democrática tal como construímos lá atrás, no velho MDB, na luta contra a ditadura.

— Os tempos são outros, não? É claro que há todas as diferenças. Não estamos numa ditadura. Mas nós estamos construindo uma alternativa política que tem uma esquerda, até de origem comunista, e a abertura concreta para a formulação conjunta com políticos e lideranças democráticas do país. Entre os nomes que podemos imaginar para disputar o governo teremos, no campo oposicionista, inclusive a possibilidade de caminhar com um candidato de esquerda.

— Refere-se a Eduardo Campos? Isso pode ocorrer, na hipótese de ele vir a ser candidato. Marina Silva também representará uma candidatura democrática e progressista. Há várias alternativas.

— Que alternativa o novo partido deve adotar? Diria a você que a alternativa que mais se fortaleceu dentro do PPS com essa fusão, sem dúvida nenhuma, é essa que vê na candidatura de Eduardo Campos a melhor opção para o partido. Até porque a fusão foi muito pensada por esse grupo.

— Ainda não citou Aécio Neves. Exclui o nome dele por considerá-lo de centro? Não. Defino Aécio como um social-democrata, um homem de esquerda. Vou lembrar um episódio que poucos sabem. Quando era mais jovem, o Aécio foi junto conosco a um Congresso da Juventude, na delegação que o PCB enviou a Moscou. Ele sempre teve bom diálogo conosco. É um democrata.

— Mas não terá o apoio, é isso? Aécio merece todo o nosso respeito e poderá merecer o voto, sem nenhuma dúvida. Podemos ter outra opção. Mas isso é importante até do ponto de vista tático. É bom inclusive para o próprio Aécio, porque a presença de mais candidatos força a realização de um segundo turno. Eu creio que isso é taticamente o mais correto para a oposição brasileira. Não vejo razão para concentrar a disputa no primeiro turno. Isso é para a Venezuela, aqui não.

— Para enfatizar: não haverá filtro ideológico para as filiações à nova legenda? Não. A mudança de PCB para PPS já não observou esse filtro ideológico. Era um partido de esquerda, mas não tínhamos essa exigência. Até porque nós superamos a fase do PCB, do marxismo-leninismo, do centralismo democrático. Agora, nessa fusão, mais uma vez não temos razão para adotar filtro ideológico. A realidade política que estamos vivendo exige uma amplitude maior, pede a formação de uma frente democrática.

— Todos pensam assim? Algumas pessoas dizem: ah, pode vir fulano ou beltrano. Não estou citando nome exatamente por isso. Nós, do PPS, já passamos por isso. No nosso processo de mudança, tivemos aqui ou acolá alguém que trouxe práticas que não eram condizentes com o que pensávamos no partido. E o processo foi depurando isso. Lembro do próprio Ciro Gomes. Ajudou o partido como candidato [à Presidência, em 2002]. Mas depois imaginou que poderia ficar no governo de Lula quando o partido promoveu um rompimento. E o partido mandou ele embora.

— Por ironia, hoje ele está no PSB de Eduardo Campos. Tudo bem. Não tem nenhum problema. Se ele não fizer nenhuma besteira, está ótimo. Vamos lá, estamos juntos. O que é fundamental, e a experiência do PPS indica isso, é que, mesmo com esse pluralismo, você não pode perder os seus valores. E esse novo partido não vai perder. Não vamos vetar ninguém, mas ninguém pode chegar aqui é adotar práticas que não sejam condizentes com o que nós, historicamente, representamos. Isso é um processo. Já vivemos essa experiência.

— Espera atrair quantos novos filiados? Não tenho estimativas. Não estamos conversando nada, porque temos primeiro que definir a fusão, o que faremos nesta quarta-feira. Tenho recebido muitos telefonemas dos Estados, inclusive de São Paulo. São veradores, prefeitos e deputados estaduais. Os deputados federais nós vamos ver no que vai dar.

— Acha que há políticos desconfortáveis em outras legendas? Ah, claro. Se não tivesse, o Kassab não estaria tão aperreado. E não é só Kassab. Pelo que vocês informam, a dona Dilma também está preocupada. Não creio que eles estejam tensos porque pode vir alguém de partidos da oposição. Estão tensos porque pode sair gente da base do governo.

— A fusão foi antecipada para se precaver contra o projeto de lei que dificulta a criação de novos partidos? É exatamente isso. A lei, se for aprovada, não pode retroagir. Vamos existir como novo partido na vigência do mesmo ordenamento jurídico que viabilizou o PSD. O partido político é autônomo. De acordo com a lei, ele é que decide os seus destinos, ele se autodetermina. Pode se fundir, incorporar-se a outro, pode se extinguir. E também pode criar um novo partido por sucessão, tal como o PCB fez lá atrás, tornando-se PPS. O partido é livre para definir os seus destinos. Só não pode infringir a lei. Pois bem, nós faremos um congresso conjunto com PMN, elegeremos um órgão de direção nacional e faremos o registro no cartório de títulos e documentos. A partir desse instante, o partido já terá existência formal. Depois, comunicaremos ao TSE.

— Não teme que o PPS seja tachado de oportunista? do  estamos fazendo isso. Vamos fazer um Congresso, a lei de fusao (9/096, de 95) diz que orgaos nacionais de deliberaçao dos partidos votaram em sessao conjunta, maioria absoluta, projeto e elegerao orgao de direçao nacional, que promoverá o registro do novo partido. Começa com isso, faz-se o reigstro em cartório de títulos e documentos da ata da reniao conjunta que decidiu pela fusao e depois a comunicaçao ao TSE. A fusao se realiza no momento do registro noc artório de titulos e documentos.

— Continua achando que o projeto que altera as regras para a criação de partiros é um golpe? Claro. O que está querendo é acabar com algo que o José Serra chamou de portabilidade [o deputado que muda de partido leva o tempo de televisão e a cota do fundo partidário proporcional à sua última votação]. Chamo de casuísmo e golpe. Nos perguntamos: por que vocês não discutem a troca de regras para a próxima legislatura. Para o futuro, tudo bem, podemos até discutir. O que não dá é para proibir isso agora, depois de que o PSD ter sido beneficiado.

— Não teme que o PPS seja tachado de oportunista? Nenhum receio. Até porque já foi permitido para privilegiar um partido que se vinculou ao governo. Nesse momento, eu diria que não é oportunismo, mas senso de oportunidade. Não fui eu que inventei isso. O PPS foi atingido. Perdeu quatro deputados federais para o PSD. E eu não reclamei. Tudo bem. Saíram do partido e o Supremo Tribunal Federal disse que era correta a interpretação de que eles levavam o tempo de tevê e o fundo partidário. Tudo tudo bem. Agora, não venham dizer que estamos inventando isso. De nossa parte, o que há é o senso de oportunidade. Basta ver o protagonismo que passamos a ter nesse processo de 2014.

— Ainda tem a expectativa de trazer José Serra? Expectativa a gente nunca perde. No futebol, os segundos são irrelevantes. Mas no basquete cada segundo pode ser decisivo. Já joguei basquete e sei o que o último segundo pode representar. Estamos no jogo, esperando até o último segundo.


Fux em reunião com João Paulo: ‘Mato no peito’
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Josias de Souza

Cândido Vaccarezza: ‘Ao dizer que mataria no peito, Fux fez um movimento com a mão’

José Dirceu não foi o único réu do mensalão a quem o ministro Luiz Fux sinalizou absolvição. Ainda no governo Lula, quando iniciou sua campanha para obter a indicação à cadeira do STF, o ministro reuniu-se com João Paulo Cunha (PT-SP). Testemunha da conversa, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), à época líder do governo, conta que Fux referiu-se ao processo nos seguintes termos: ‘Esse assunto eu mato no peito porque eu conheço. E sei como tratar.’

Em notícia de dezembro de 2012, a repórter Mônica Bérgamo já havia revelado os encontros de Fux com Dirceu e João Paulo. Nessa época, Vaccarezza confirmara ter participado de uma conversa. Mas negara-se a revelar falar o teor. Eis o que dissera o deputado: “Participei de uma reunião que me parecia fechada. Tinha um empresário, tinha o João Paulo. Sobre os assuntos discutidos, preferia não falar.”

Nesta quarta (10), depois que José Dirceu acusou Fux de submetê-lo a “assédio moral” e de prometer que iria absolvê-lo no jugamento do mensalão, Vaccarezza sentiu-se à vontade para falar. Disse que, no diálogo com João Paulo, o hoje ministro do Supremo chegou mesmo a sinalizar como daria tratos ao processo do mensalão. “Levou a mão ao peito e desceu em direção à barriga.”

Lula deixou o governo sem formalizar a indicação. Coube a Dilma Rousseff enviar Fux ao STF. Para surpresa do petismo, o ministro foi, depois do relator Joaquim Barbosa, o julgador mas severo. Entre os réus que condenou estão Dirceu e João Paulo.

Procurado, mandou a assessoria dizer o seguinte: “Ministro do Supremo não polemiza com réu”. Erro. Não se trata de polemizar com réus, mas de explicar o porquê de ter confraternizado com eles. Vai abaixo a íntegra da entrevista de Cândido Vaccarezza:

— Como conheceu Luiz Fux? O primeiro encontro que tive com o Fux foi no gabinete do Paulo Maluf [protagonista de três processos no STF]. O deputado me disse que estava apoiando ele para o Supremo, que era uma pessoa de confiança. E queria me apresentar.

— O próprio Maluf o convidou para a reunião? Exato. Fui convidado pelo Maluf. Ele disse que queria levar o Fux no meu gabinete. Eu disse: ‘Vou ao seu gabinete.’

— O sr. ainda era líder do governo? Nessa época eu era líder do governo Lula. Ocupei o posto até abril do ano passado, já no governo Dilma.

— Por que preferiu ir ao gabinete de Maluf? Era uma praxe minha. Quando eu era líder do governo, eu ia sempre nos gabinetes dos deputados.

— Foi uma reunião a três? Sim. Estávamos na reunião só nos três. O Maluf me apresentou o Fux. Conversamos.

— Ficou nisso? Depois, o João Paulo me convidou para ir à casa de um empresário, aqui em Brasília, para conversar sobre o Fux. Disse que queria me apresentar. Eu não disse que já conhecia. Fui na casa.

— Era casa de quem? Prefiro não dizer o nome do empresário. Estávamos o João Paulo, o Fux e eu.

— A que horas ocorreu o encontro? Foi um café da manhã, numa casa do Lago Sul [bairro elegante de Brasília].

— Falou-se de mensalão nessa reunião? Nós não tocamos no assunto de mensalão. O empresário falou. Disse que podíamos confiar no Fux. E o Fux disse que matava no peito.

— O ministro Luiz Fux falou assim, com esses termos? Ele disse: ‘Esse assunto eu mato no peito porque eu conheço. E sei como tratar’. Falou nesses termos.

— Estava claro que ele falava da ação penal do mensalão? Sim. Ao dizer que mataria no peito, ele fez um movimento com a mão.

— Que movimento? Levou a mão ao peito e desceu em direção à barriga.

— Os senhores o apoiaram? Eu não declarei apoio a ele. Eu achava que devia ser uma outra pessoa.


Lindbergh diz que PMDB do Rio faz ‘chantagem’ com Dilma e chama o governo Cabral de ‘elitista’
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Josias de Souza

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Aliados no plano federal, PMDB e PT caminham para uma ruptura no Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país. “Eu vou resistir”, declara o senador petista Lindbergh Farias sobre sua disposição de concorrer ao governo fluminense em 2014. “Essa é a eleição que eu não aceito a hipótese de não disputar. Eu vou às últimas consequências nessa luta.”

Em entrevista ao blog, Lindbergh declarou que é “quase uma chantagem” o que o PMDB do Rio, liderado pelo governador Sérgio Cabral, vem fazendo com Dilma Rousseff. “O que o PMDB está dizendo? Ameaça não apoiar a Dilma se o PT lançar seu candidato. A gente não aceita isso. As pessaos têm que ter direito de escolha.”

Lindbergh aparelha-se para enfrentar a candidatura de Luiz Fernando Pezão, o vice-governador que irá às urnas como candidato da continuidade. Tomado pelas palavras, o senador petista acha que a gestão Cabral não merece continuar. “É um governo elitista”, diz ele. “É como se existissem dois Rios de Janeiro muito diferentes.”

“Tem o Rio de Janeiro do cartão postal e o Rio de Janeiro da vida real”, afirma Lindbergh a certa altura. Só o primeiro Rio, o das paisagens, recebe atenção: “O governo Sérgio Cabral tem priorizado a Zona Sul e a Barra da Tijuca.” Mal comparando, Lindbergh leva aos lábios um discurso semelhante ao que Lula utiliza no plano federal, desde 2002, contra o PSDB –uma legenda à qual Cabral já foi filiado.

Assessorado por João Santana, o jornalista que cuidou do marketing das campanhas de Lula e Dilma, Lindbergh já nem faz mistério do que está por vir: “O nosso discurso no Rio vai ser muito baseado no que o Lula fez no país. Nós vamos dizer o seguinte: o Brasil deu um salto no governo do Lula porque o Lula olhou para os mais pobres, olhou para os trabalhadores.”

O senador acusa Cabral de fazer o inverso no Rio. Água? “Não falta na Zona Sul e na Barra. Mas falta na Baixada Fluminense, em tudo que é lugar.” Saneamento? “O governo investe muito pouco”, diz Lindbergh. “Mas o maior investimento é na Barra da Tijuca.” Na periferia, “esgoto a céu aberto.” Nem a mais festejada iniciativa de Cabral, a Unidade de Polícia Pacificadora, escapa à língua do antagonista.

Lindbergh diz apoiar as UPPs. Chega mesmo a declarar que, eleito, seu “sonho” é manter no comando da Segurança Pública o secretário José Mariano Beltrame, a quem se refere como “figura fantástica”. Porém, a UPP “tem distorções que o povo não aceita”, diz ele. “O número de policiais por habitante na Zona Sul é 15 vezes maior do que na Baixada Fluminense.” Expulsos das áreas “pacificadas”, os bandidos migram para as áreas mais pobres, onde há menos policiais.

Chamado de “moleque” e “carreirista” por Jorge Picciani, presidente do PMDB no Rio, Lindbergh diz que está “acostumado a enfrentar esse pessoal” desde os tempos em que foi prefeito de Nova Iguaçu. Disse que os pemedebistas “agem como se fossem proprietários do Rio de Janeiro”. E dá de ombros: “Nós não temos medo dessa estrutura, dessa máquina do Estado. Isso deu mais vontade à gente.”

Alvejado por um dossiê atribuído ao PMDB, no qual é acusado de receber propinas à época em que governou Nova Iguaçu, Lindbergh nega as acusações –“Eu não sou patrimonialista”— e lança uma espécie de repto a Cabral e seu grupo: “Quero ver se eles têm condições de enfrentar um debate desses comigo. Estou pronto para esse debate. Quero ver. Cada um que explique tudo.”

O PMDB de Cabral afirma que não aceitará a política de palanque duplo no Rio. Significa dizer que Dilma Rousseff não poderia desfilar sua recandidatura senão ao lado de Luiz Pezão. Lindbergh radicaliza noutra direção. Afirma que Dilma terá no Rio não dois, mas três palanques: o do PT, o do PMDB e o do PR de Anthony Garotinho. “Nós não vamos querer monopolizar a Dilma e o Lula.”

Lindbergh dispõe de pesquisa que o deixa bem posto na largada. Foi feita pelo instituto Vox Populi. Acomoda-o em primeiro, com 28% das intenções de voto. A seguir vem Garotinho, com 21%. Em terceiro, Pezão, com 10%. O senador petista afirma que o PMDB já teve sua oportunidade nas duas gestões de Cabral. E não aproveitou.

“O governo Cabral perdeu uma chance grande, porque nunca existiu um governo que teve tanto apoio do governo federal, recursos para obras estruturantes. E, não foram feitas”, declara. Com uma ponta de ironia, Lindbergh diz que, eleito, pode adotar o slogan da gestão Cabral –“somando forças”— com maior eficiência. “Eu acho que incorporo o ‘somando forças’ mais ainda, porque seria um governador do mesmo partido da presidenta Dilma, se ela for reeleita.”


Henrique Alves desaprova decisão de Feliciano: ‘Como impedir acesso do povo ao Parlamento?’
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Josias de Souza

Henrique Eduardo Alves: ‘Aprendi que o radicalismo nunca foi um bom conselheiro do Parlamento’

De molho no seu Estado, o Rio Grande do Norte, onde se recupera de uma cirurgia, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB), acompanhou os desdobramentos da crise na Comissão de Direitos Humanos. Ele desaprovou a decisão do deputado-pastor Marco Feliciano (PSC-SP) de restringir o acesso às reuniões da comissão, fechando-as para o público.

“Isso foge à tradição do Parlamento. É absurdo”, disse Henrique Alves ao blog, numa entrevista telefônica na noite passada. “Como é que vamos impedir o acesso do povo ao Parlamento? Como impedir as pessoas de acompanhar os debates nas comissões? Se há um lugar em que o povo tem que ter todo o acesso é o Parlamento. Se o povo não puder entrar na sua Casa, vai entrar onde?”

Henrique disse que o regimento da Câmara autoriza a realização de reuniões fechadas apenas em situações excepcionais, não como regra. “O tumulto só desqualifica quem o promove. Mas a reação radical da presidência da comissão cria mais problema, não solução.” O que fazer?, perguntou o repórter. E o presidente da Câmara: “Vou ter o final de semana para pensar no que fazer.”

Henrique torceu o nariz também para a aprovação da viagem de Feliciano à Bolívia. “Parece haver uma tentativa de criar um fato consumado. Mas é preciso levar em conta que esse tipo de viagem, feita em nome da Câmara, precisa ser aprovada pela presidência da Casa.”

Confirmou para a próxima terça-feira (9) a reunião de Feliciano com o colégio de líderes partidários. Foi informado de que o protagonista não faltará ao encontro. “Sua ausência seria uma desatenção e até um desrespeito aos líderes de todos os partidos da Casa.” Qual é o objetivo da conversa? “Encontrar uma saída para que a comissão tenha funcionalidade.”

Há duas semanas, Henrique dissera que a situação de Feliciano na comissão tornara-se “insustentável”. Tomado pelas palavras, acha que a coisa não evoluiu: “Quando a gente pensa que caminha para uma situação melhor, o deputado vai a um culto e diz que, antes dele, a comissão era dominada por satanás.”  Vai abaixo a transcrição da entrevista:

— O que achou da decisão da Comissão de Direitos Humanos de restringir o acesso das pessoas às reuniões? Ao longo da minha vida pública, aprendi que o radicalismo nunca foi um bom conselheiro do Parlamento. O radicalismo não serve nem para a pessoa que exerce o poder nem para as pessoas que o desafiam. A essência do Parlamento, sua maior inspiração, é o incansável diálogo. Só o diálogo conduz à boa solução política.

— Acha que a proposta do deputado Feliciano, aprovada pela comissão, foi uma saída radical? Foi uma inabilidade dele. Não é uma norma da Casa impedir a participação de segmentos organizados que queiram acompanhar a discussão dos temas do seu interesse. Obviamente, esse acompanhamento tem que ser feito de forma ordeira e respeitosa. O fechamento das sessões parte do pressuposto de que a participação nunca será respeitosa. Não me parece razoável supor de antemão que sempre haverá agressão. É algo que só pode ser verificado em cada sessão. Essa antecipação me parece uma precipitação que não contribui para o diálogo.

— O deputado Feliciano alegou que, sem as restrições, o colegiado não conseguiria trabalhar. Na semana passada, um manifestante chegou a subir na bancada da comissão. Como realizar sessões nesse ambiente? Insisto em que a participação das pessoas deve se dar de forma respeitosa. Esse caso do sujeito que subiu na bancada foi absurdo, inaceitável. Dei orientações claras à segurança da Casa. Em situações assim, a pessoa deve ser posta para fora do prédio da Câmara. Mas há outras formas de resolver o problema sem o fechamento de todas as sessões.

— Como? Na semana passada, quando se previa a ocorrência de tumulto, eu mesmo sugeri: você começa a reunião. Se não conseguir restabelecer a ordem, prepara a sala de outra comissão ao lado e suspende a sessão. Os deputados trocam de ambiente, saindo pelo corredor interno. E a reunião é reaberta em sessão fechada. Foi o que aconteceu. O deputado Feliciano seguiu o nosso conselho. Houve nova baderna nesta semana? Faz tudo de novo!

— Nessa fórmula, a reunião continua sendo fechada. Não dá na mesma? Não. O regimento da Casa prevê que, em situações excepcionais, o presidente de uma comissão pode tornar a reunião fechada. Mas isso é a exceção. Não pode ser a regra. As pessoas erram quando fazem baderna na comissão. Mas não se pode, por conta disso, decidir simplesmente que todas as sessões serão fechadas. Isso foge à tradição do Parlamento. É absurdo. Como é que vamos impedir o acesso do povo ao Parlamento? Como impedir as pessoas de acompanhar os debates nas comissões? Se há um lugar em que o povo tem que ter todo o acesso é o Parlamento. Se o povo não puder entrar na sua casa, vai entrar onde? O tumulto só desqualifica quem o promove. Mas a reação radical da presidência da comissão cria mais problema, não solução.

— O que fazer? Vou ter o final de semana para pensar no que fazer. Há um quadro formado. De um lado, pessoas que, a pretexto de participar, brigam, xingam e sobem nas mesas para inviabilizar os trabalhos. Do outro lado, há excessos na reação do comando da comissão. É uma situação muito sensível.

— Há algo que a presidência ou a Mesa diretora da Câmara possa fazer? É preciso lembrar que, em relação a essa decisão tomada agora, qualquer deputado pode questionar o fechamento das reuniões. Qualquer um tem o direito de questionar, porque foge à normalidade da Casa. Fechar é a excepcionalidade. Abrir é a regra. Havendo o questionamento, obviamente a Mesa terá de se pronunciar. À primeira vista, o fechamento não me parece uma solução adequada.

— Aprovou-se também na Comissão de Direitos Humanos a viagem do deputado Feliciano e comitiva para a Bolívia. O que achou? Parece haver uma tentativa de criar um fato consumado. Mas é preciso levar em conta que esse tipo de viagem, feita em nome da Câmara, precisa ser aprovada pela presidência da Casa. A comissão envia o requerimento ao presidente da Câmara, que aprova ou não a viagem.

— E o presidente cogita não aprovar? Em condições normais, o presidente de uma comissão tem amparo regimental para propor essa ou aquela providência, para realizar isso ou aquilo. Mas as circunstâncias, é preciso admitir, não são normais. Então, convém analisar tudo muito bem antes de tomar uma decisão. No caso específico, convém verificar os fundamentos da viagem à Bolívia.

— O objetivo é verificar a situação dos torcedores do Corinthians presos na cidade de Oruro, não? Soube que houve um questionamento sobre a necessidade de ir ou não à Bolívia. E o deputado Feliciano teria dito que conversou com as mães dos torcedores, que elas choraram e que o governo brasileiro não teria adotado as providências necessárias. Com todo o respeito ao sofrimento das mães, é preciso verificar se o governo de fato não fez nada.

— Na semana passada, Ricardo Ferraço (PMDB-ES), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, esteve em Oruro e La Paz. Visitou os prisioneiros, foi à Promotoria, teve audiência com um ministro boliviano e visitou a embaixada brasileira. O senador não poderia compartilhar com a Câmara as informações que recolheu? É evidente que sim. Eu mesmo devo falar com o Ferraço. Ele pode nos dar informações valiosas. Vamos analisar a motivação da viagem, se há mesmo procedência. Quero saber em que estágio estão os contatos entre os governos do Brasil e da Bolívia. É preciso conversar com o Itamaraty. Com todas as informações em mãos, teremos condições de tomar a decisão mais responsável. Do contrário, fica parecendo ôba-ôba.

— Já foi marcada nova data para a reunião do deputado Feliciano com o colégio de líderes? Está marcada. Será na terça-feira [9], às 11h.

— O deputado Feliciano disse que essa reunião tem o objetivo de achincalhá-lo. Acha que ele vai comparecer? Ele irá. Pedi para falarem com o líder do PSC, André Moura. Acho importante ele ir. Sua ausência seria uma desatenção e até um desrespeito aos lideres de todos os partidos da Casa. Não faz sentido dizer que ele será achincalhado. Não é esse o objetivo de ninguém. E vão estar lá líderes que são favoráveis a ele: o Eduardo Cunha [do PMDB], o Anthony Garotinho [do PR]…

— Qual é, afinal, o objetivo dessa reunião? Queremos encontrar uma saída para que a comissão tenha funcionalidade. Nada além disso. Todos querem que a comissão possa se reunir normalmente, que tenha um plenário respeitado, uma pauta digna, discussões elevadas e um resultado natural. Tudo isso depende muito do comportamento do deputado Feliciano. Espero que ele compareça à reunião como presidente da Comissão de Direitos Humanos, não como pastor. A democracia tem que ser exercida de forma respeitosa. Não se chega a lugar nenhum na base do grito. Tem que ser de forma equilibrada. E o deputado Feliciano poderia contribuir para o estabelecimento desse equilíbrio. Todos querem que ele presida. Mas a situação piorou. Soube que na reunião desta quarta-feira havia duas torcidas, uma contra e outra a favor. Em vez de esfriar, a situação fica cada dia mais difícil.

— Há duas semanas, o sr. disse que a presidência do deputado Feliciano na Comissão de Direitos Humanos tornara-se insustentável. Mantém a opinião? Estávamos conversando com o líder do PSC [deputado André Moura] e com o presidente do partido [pastor Everaldo], que mudou de posição. Manteve a solidariedade ao deputado, na perspectiva de que haveria um mergulho, que tudo iria serenar. Quando a gente pensa que caminha para uma situação melhor, o deputado vai a um culto e diz que, antes dele, a comissão era dominada por satanás.

— Ele disse que falou como pastor, em ambiente religioso. Pois é, ele diz que falou como pastor. O problema é que não é possível se despir da condição de presidente da Comissão de Direitos Humanos só porque entrou na igreja. O que ele falou ali não foi a palavra de um pastor num culto religioso. Foi a manifestação de um presidente da Comissão de Direitos Dumanos da Câmara dos Deputados. O exercício de uma função pública traz alguns bônus. Mas também traz ônus. Na presidência da Câmara, eu não posso falar como se ainda fosse líder do PMDB. Como presidente da Comissão de Direitos Humanos, o deptado Feliciano não pode chamar todo mundo que o antecedeu de satanás. Ao não distinguir joio de trigo, o deputado dificulta as coisas.

— Qual é o papel do presidente da Câmara nessa crise? Minha obrigação como presidente é fazer a Casa funcionar, fazer com que as comissões tenham funcionalidade, que se reúnam democraticamente, em ambiente respeitoso, capaz de acolher contrários e favoráveis às teses em debate. Lamentavelmente, isso é o que menos ocorre lá na Comissão de Direitos Humanos. Há exageros de todos os lados. Mas o que se espera do presidente da comissão é ponderação.

— Mudando de assunto: na sua campanha à presidência da Câmara, o sr. assumiu o compromisso de aprovar o ‘Orçamento impositivo’ para as emendas de parlamentares. A Comissão de Constituição e Justiça aprovou nesta quarta-feira uma emenda que prevê a execução obrigatória de todo o Orçamento da União, não apenas das emendas. Acha possível que isso vire realidade? Não há hipótese de aprovarmos nada que inviabilize a execução orçamentária. O Orçamento da União é elaborado em bases realistas. Mas traz sempre uma previsão de arrecadação tributária que pode acontecer ou não. Às vezes a previsão é superada, outras vezes não. Numa situação como essa, em que lidamos com o imponderável, não podemos amarrar o Orçamento.

— Por que foi aprovada essa emenda? Veja bem, a negociação que fiz com os líderes envolve as emendas parlamentares. Mas era preciso colocar o tema do orçamento impositivo para andar. Precisávamos de um gancho. Foram reunidas todas as propostas que tramitavam na Casa. E a CCJ aprovou apenas a ‘admissibilidade’. Agora, uma comissão especial vai tratar do mérito. Será elaborada uma nova PEC [proposta de emenda constitucional], fruto desse entendimento.

— Qual será o teor dessa PEC? A proposta será formatada numa ampla negociação. Vai tratar das emendas individuais dos parlamentares, em valores a serem definidos. Tudo negociado com o Executivo. Essas emendas podem inclusive ser direcionadas para programas do próprio governo, nas áreas de saúde, educação e segurança pública. Todos ganham e o parlamentar sai dessa posição humilhante de mendigar a liberação de R$ 100 mil, R$ 200 mil, R$ 300 mil para seus municípios.

— Vários escândalos nasceram de emendas de parlamentares. Não é temerário tornar obrigatória a execução dessas emendas? Estamos falando de emendas pequenas, com valores de R$ 100 mil a R$ 300 mil. Não há escândalo nesse tipo de emenda. A PEC vai estabelecer limites e formas de controle. Essas emendas individuais permitem que os parlamentares atendam demandas de pequenos municípios. Demandas que não costumam chegar nas mesas dos ministros. Um pequeno posto de saúde, uma passagem molhada. O que não pode continuar como está: libera o de um, segura o de outro. Solta a emenda do aliado, não empenha a da oposição. Isso não é de agora. Vem de outros governos, o do Fernando Henrique, o do Lula… Tem que acabar.


Para Temer, candidatura de Eduardo Campos não tira favoritismo de Dilma nem no Nordeste
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Josias de Souza

Consolidado como parceiro de Dilma Rousseff na chapa reeleitoral de 2014, o vice-presidente Michel Temer declara: “Hoje, ela é francamente favorita”. Diverge dos que crêem que uma eventual candidatura de Eduardo Campos possa prejudicá-la junto ao eleitorado nordestino. “O que eu suponho é que não haverá essa dificuldade para a presidenta Dilma no Nordeste.”

Temer concedeu uma entrevista ao blog nesta quinta-feira (21). Disse que a antecipação do calendário eleitoral “não é útil nem para o governo nem para o país”. Curiosamente, responsabiliza “os outros candidatos” pelo fenômeno. Referia-se a Eduardo Campos (PSB) e Aécio Neves (PSDB).

Ora, mas não foi Lula quem lançou Dilma prematuramente na festa de aniversário do PT, em 20 de fevereiro? Sim, Temer reconheceu, “mas esse lançamento também foi fruto de uma provocação, não é?” Prosseguiu: “Como houve muita antecipação dos outros candidatos, o ex-presidente Lula resolveu fazer esse lançamento.” Quanto a Dilma, “em nenhum momento ela saiu fazendo campanha do tipo ‘eu sou a candidata’.”

Temer disse que ainda torce para que Eduardo Campos renove seu apoio a Dilma. Naturalmente, sem ambicionar a segunda posição na chapa. O que ocorreria se o PMDB fosse desalojado da vice para que a vaga fosse cedida ao PSB? Temer esboçou um sorriso: “Prefiro nem responder isso, porque não seria uma coisa útil.”

Convidado a analisar os reflexos da entrada de Eduardo Campos na disputa, o vice-presidente soou como se desejasse circunscrever o potencial do futuro antagonista. “Ele vai tirar muitos votos em Pernambuco”, avaliou. Porém, graças ao “trabalho” de Lula e Dilma, “Pernambuco ainda dará muitos votos à presidenta”, reavaliou, antes de concluir que não antevê “dificuldade” naquele pedaço do mapa brasileiro.

“O Nordeste, nesses últimos anos cresceu economicamente 42%”, Temer enfatizou. “Isso será reconhecido durante as eleições, com a presidente Dilma candidata.” O vice-presidente ancorou o otimismo no Ibope de Dilma –“Não é fácil atingir 79% de aprovação nacional”— e na “economia do cotidiano”.

Na opinião de Temer, o prestígio de Dilma permanecerá alto enquanto “o cidadão tiver o seu dinheiro para comprar frango no supermercado –e agora, ainda, com a cesta básica desonerada—, para comprar seu liquidificador, sua geladeira, seu fogão, e até, às vezes, seu carro.”

O crescimento miúdo e a inflação graúda não podem conspurcar o cenário? “Nós entramos o ano com preocupações, é verdade. Mas já com uma perspectiva de um PIB maior para 2013.” O essencial, diz Temer, é observar que “a crise internacional não chegou a criar desemprego no Brasil”.

Sobre os ajustes no ministério, Temer tentou dissociá-los da formação dos palanques. Disse que o objetivo do governo não é a revitalizar a aliança eleitoral, mas influir na “participação dos partidos lá no painel de votação da Câmara e do Senado”. Enfatizou: “O foco não é 2014, é a votação no painel.”

Comentou as recentes declarações de Jorge Gerdau. Para recordar: em entrevista a Fernando Rodrigues e Armando Pereira Filho, o empresário criticou o excesso de ministérios. Para ele, um gabinete com meia dúzia de pastas estaria de bom tamanho. Com 39 ministérios, a burrice “talvez já tenha chegado ao seu limite”.

E Temer: “Não vejo como reduzir 39 ministérios a seis, acho uma coisa complicada. E não conheço nenhum país que sobreviva politicamente e administrativamente com um número tão pequeno de ministérios.” Não exclui a hipótese de um futuro enxugamento. Condiciona-o, porém, à conjuntura e à realização de estudos.

Um pedaço da conversa foi dedicado à obra “Anônima Intimidade”, o livro de poesias que Temer lançou no mês passado. “Escrevi em guardanapos de papel no avião”, ele recordou. “Era o meu interior se exteriorizando”. Não espera virar autor de best seller. Mas saboreia o êxito dos 1.200 exemplares vendidos na noite de autógrafos. Degusta também a ausência de espinafrações. “Graças a Deus não houve uma crítica ácida em relação aos poemas.”

Temer revelou a intenção de levar novos livros à estante: “Sou calouro nas letras sentimentais, portanto, sujeito a críticas. Ma, se puder, continuo nessa senda. Sempre escrevi livros técnicos, na área de direito constitucional. E agora comecei a mudar.”

Septuagenário, Temer muda para a adolescência: “Era uma coisa que eu pensava aos 16 anos de idade. Eu achava que seria escritor. Depois, a vida me levou para outros lugares. Então, eu penso: puxa, escrever agora poesia e romance é retornar aos 16 anos. E nessa minha idade, convém retornar aos 16 anos.”


Ciro:’Sou político mais treinado e estou proscrito’
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Josias de Souza

Quem vê a falta de entusiasmo de Ciro Gomes com as alternativas presidenciais disponíveis –Eduardo Campos, Aécio Neves e Marina Silva— fica com a vaga sensação de que ele está aborrecido com algo que ninguém sabe muito bem o quê. Lendo-se uma entrevista que Ciro concedeu ao repórter Biaggio Talento fica-se sabendo: Ciro é o político mais preparado que Ciro conhece. “Até por demérito dos outros, sou o mais treinado…” Não perdeu o velho sonho. “Gostaria de ser o presidente do Brasil”. Mas acha que, no frescor dos seus 55 anos, “talvez esteja ficando fora de moda.” Hã?!? “Estou completamente proscrito do debate. Meu partido não me chama para nada, eu sou um inconveniente para todo mundo.” Disponível aqui, a entrevista vai reproduzida abaixo:

- Não almeja mais ser candidato à Presidência da República? Não, desisti. Só quero ser [candidato] agora se as coisas se organizarem para isso. Porque tenho uma tragédia na vida, da qual não me arrependo, que me traz à situação em que me encontro nesse momento: hoje, até por demérito dos outros, sou o político mais treinado, que tem a experiência mais extensa, municipal, estadual, federal ângulo tal, ângulo outro, acadêmico e com juventude relativa, 55 anos, e estou completamente proscrito do debate. Meu partido não me chama para nada, eu sou um inconveniente para todo mundo. Isso porque eu não acho que vale a pena compactuar com o que está aí. Esse banquete fisiológico, clientelista, quando não corrupto, PT-PMDB.  Nós outros, PDT, PCdoB, PSB, comendo migalhas embaixo da mesa, sem ter a menor influência numa agenda progressista para o Brasil. Sequer o debate existe. Não me agrada esse império das conveniências, dos oportunismos. Talvez eu esteja ficando fora de moda. Mas eu sigo lutando. Amo a política, amo o povo brasileiro. Aos 34 anos de luta, nunca respondi sequer uma representação, nem para ser inocentado. Isso já tendo ocupado a chefia da economia do País. Continuo estudando, viajo para o estrangeiro, faço palestras, enfim, sou um militante e gostaria de ser o presidente do Brasil, mas, confesso, não quero mais brigar.

‘Governo Dilma está preso a coalizão fisiológica’

- E as declarações atribuídas ao senhor, segundo as quais Aécio Neves, Eduardo Campos e Marina Silva não teriam condições de governar o país…? Veja bem a fraude que é a nossa mídia. Não disse isso. Eu disse o seguinte: são três pessoas muito boas – não sei como editaram a matéria -  enfim, disse que são pessoas preparadas, com espírito público, agora sinto um deserto de ideias. Nós vamos votar neste, naquele ou naqueloutro por que são meus amigos, gente boa, simpáticos? É ruim para o País. O governo Dilma está preso nessa coalizão fisiológica e tocando aí o dia a dia do governo fazendo essas pequenas iniciativas, truques fiscais, e está aí o País, amarrado nessa taxa pífia de crescimento econômico. Os autorreferidos  candidatos não apresentam uma ideia! Agora o Aécio, através dos jornais, disse que vai conversar comigo. Por que precisa conversar comigo e não fala na televisão para eu ver? Eu quero conversar com ele sempre, é meu querido amigo. Aí o Eduardo [Campos] diz que eu sou voz isolada dentro do PSB. Ora, eu estou cansado de saber que sou voz isolada. A questão não é essa. É como alguém quer ser o presidente da República e não se sente obrigado, constrangido e estimulado a andar pelo País, visitar o Brasil e falar o que pensa, o que está errado. Porque, se o cara é candidato contra a reeleição da Dilma, primeiro ele tem que sair do governo. Sou um velho que cultiva lealdade, coerência, decência.

‘Sabe quando Eduardo vai ser vice? Nunca’

- A proposta de Cid Gomes é que Eduardo Campos fosse o vice de Dilma… Cid é uma pessoa idealista e de boa-fé, mas sabe quando Eduardo vai ser vice? Nunca. Porque essa  coalização (PT-PMDB) acabou de ser cimentada com Renan Calheiros na presidência do Senado e  Henrique Alves na Câmara. Você acha que com esse espólio de poder, já tendo a vice-presidência da República, Michel Temer, eles vão trocar de vice?

- Então, PSB vai ficar de fora desse processo de sucessão? Claro que vai ficar. Sempre defendi candidatura própria. Mas a questão é: se nós queremos ter uma candidatura própria, temos que dizer por que e agora. Porque o povo não vai entender que a gente fique  comendo migalhas debaixo da mesa do banquete PT-PMDB e seis meses antes das eleições a gente saia do governo. Até porque o segundo lugar que era nosso na opinião pública brasileira é da Marina Silva. E quem vai representar essa negação

‘Por que Aécio exalta modelo FHC? Vai privatizar?’

pseudoética? Não que ela [Marina] não seja ética, ela é, mas o discurso como se fosse abastância de si mesmo do moralismo cristão, de um  ambientalismo difuso, essas coisas todas, é muito simpático. Agora, é assim que ela vai ser presidente da República? Ela quis quando era ministra do Meio Ambiente, minha colega, que o Brasil assinasse um tratado internacional declarando que energia hidráulica, nossas hidroelétricas,  era energia não renovável, o que colocaria na suspeição de insustentabilidade todo o aparato produtivo do Brasil. E ela mudou de ideia? Se mudou, quero saber. E o Aécio ao lado do Fernando Henrique? Exaltando a memória do Fernando Henrique. Quer dizer então que ele vai privatizar o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e a Petrobras, ou seja vai completar a “agenda modernizante” do Fernando Henrique. Não acho que ele seja propriamente isso, pois não vendeu a Cemig. Então porque ele está exaltando esse modelo? Ele não se elege exaltando esse modelo. O povo brasileiro quer uma coisa melhor, e o PT é muito melhor, com seus gravíssimos defeitos, do que o PSDB foi.

‘Economia do país é conduzida de forma errada’

- Uma disputa presidencial que começa um ano antes não prejudica a economia? A questão básica é a seguinte: a eleição é para o ano da eleição. O que estou falando é para o debate do País. A hora de debater é agora que não tem eleição. Vamos ter clareza. Detesto esse teatro. Eu enjoei foi disso: o PSB votou contra  Renan, portanto discrepou da orientação do governo. O PSB lançou candidato contra  Henrique Alves, na Câmara, portanto também discrepou do governo. E na economia, nós estamos satisfeitos? Eu não estou. Acho que a economia do País está conduzida de forma errada. O momento exige muito maior criatividade e inovação, muito mais audácia…

- Falta capacidade à equipe econômica? Não estou vendo o debate. É por isso que estou reclamando da falta de ideias, Tudo bem você é aliado, você fala. Tudo bem, sou aliado da Dilma e estou falando. Minha tendência hoje é votar nela. Por coerência, temos ministro no governo – embora não tenha a menor influência na área  estratégica do governo. Nunca fomos chamados para debater nada, e o PSB se conformou com isso, como se fosse um partido fisiológico desses outros tantos que infestam a base do governo. E nós não somos. Nossos seis governadores têm uma vivência. O governo agora vetou a distribuição dos royalties. Para atender a um Estado? E nós vamos ficar calados? Agora vão regulamentar a iniciativa de reforma tributária do senhor Guido Mantega. Isso é destruir o processo de industrialização do Nordeste com a unificação das alíquotas do ICMS para atender exclusivamente ao egoísmo do fisco  paulista. E nós vamos ficar calados diante disso? Eu não fico.

- O PSB deveria fechar fileiras contra essa reforma tributária do ICMS? Sim.

- E como está sendo essa discussão dentro do PSB? Nunca houve. Qualquer outro tema que você perguntar é a mesma resposta. E o modelo educacional? O Brasil tem 50 milhões de pessoas analfabetas funcionais, 64% da população economicamente ativa. Qual a política industrial de comércio exterior que o Brasil tem? Por que o País faz substituição de importação em navio  tendo que pagar 30% a 40% mais caro do que comprar no Brasil e não faz um complexo industrial? Porque não tem política.

- Eduardo Campos convidou a ministra do STJ Eliana Calmon para entrar no PSB e ser candidata a governadora da Bahia. Mas a senadora Lídice da Mata é candidata ao governo. Isso não seria uma interferência externa? Confio em você, mas prefiro não comentar esse assunto, porque não o conheço. Agora a tradição do nosso partido não é essas coisas de vir de fora para dentro e empurrar goela abaixo. Isso nunca foi.


Aécio: ‘Como formulador, governo Dilma acabou’
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Josias de Souza

Dilma Rousseff ainda dispõe de um ano, dez meses e seis dias para concluir o seu primeiro mandato. Porém, o senador mineiro Aécio Neves, presidenciável do PSDB, afirma: “Esse governo acabou do ponto de vista da formulação” de políticas públicas. Para ele, “o PT abdicou de ter um projeto de país verdadeiramente transformador.” Contenta-se agora “em ter um projeto exclusivamente de poder.”

Em entrevista ao blog, Aécio declarou que o PSDB trará à luz no mês de maio “uma proposta alternativa ao que está aí”. Chamado por ele de “marco inicial”, o documento vem sendo elaborado “sem alarde”. No pedaço econômico, traz as digitais de idealizadores do Plano Real. Será divulgado na convenção em que o partido renovará sua direção nacional. “Vamos estar bem posicionados para o jogo” sucessório.

Pela primeira vez, Aécio admitiu –assim, sob refletores— a hipótese de assumir a presidência do PSDB federal, em substituição ao deputado federal Sérgio Guerra (PE). “É uma possibilidade”, disse ele. “Hoje, maior do que há um mês.” Acomodado no comando formal da legenda, o senador deve estrelar a propaganda partidária institucional que irá ao ar também em maio. No segundo semestre, percorrerá o país. Só depois, “no amanhecer de 2014”, planeja declarar-se candidato. Mera formalidade, já que nunca soou tão candidato como agora.

Durante a conversa, Aécio afirmou que Dilma cometeu “um equívoco” que pode lhe custar caro: “No momento em que você antecipa o processo eleitoral, a agenda eleitoral se impõe à agenda administrativa.” Para manter seu condomínio partidário coeso, acrescentou o senador, Dilma “escancarou de novo o balcão de negócios”. Seus aliados percorrem a cena atrás de “mais espaço, mais verbas, mais cargos.”

O repórter recordou que o mercado persa de Brasília não foi inaugurado pelo petismo. Mencionou um par de exemplos: Renan Calheiros foi ministro da Justiça de FHC; apadrinhados de Jader Barbalho barbarizaram na Sudam. E Aécio, mimetizando Lula: “Reconheço que o toma-lá-dá-cá não se iniciou agora, no governo do PT, mas nunca antes na história desse país ocorreu essa distribuição de cargos de forma tão ampla…”
Aécio falou ao blog no início da tarde desta quinta (21). Na véspera, ele subira à tribuna do Senado para inventariar os 13 “fracassos” dos dez anos de poderio petista. Horas depois, na festa de aniversário do seu partido, agora com 33, Lula diria que a resposta a Aécio virá em 2014 “com a reeleição da Dilma”. Perguntou-se a Aécio se o prestígio do cabo eleitoral, a popularidade da candidata e o peso da máquina federal fazem de Dilma uma contendora favorita.

E ele: “Hoje, eu reconheço que a estrutura do poder, a forma como o PT utiliza os ministérios e os órgãos públicos para estruturar uma base de apoio, dá a eles, não digo um favoritismo, mas uma estrutura maior nessa largada…” Mais adiante, noutro trecho da entrevista, Aécio ponderou: “Na democracia ninguém é imbatível.”

Celebrou a perspectiva de uma disputa com a presença de pelo menos quatro candidatos: Dilma, Eduardo Campos, Marina Silva e ele próprio. Isso “favorece a disputa, favorece o país, que terá outras alternativas. Acho que fugir da polarização é sempre muito bom.” Antevê uma eleição em dois turnos. “O surgimento dessas candidaturas que, na origem, tinham uma proximidade maior com o PT, preocupa muito mais ao governo do que a nós.”

Desde logo, Aécio tenta diferenciar-se na gôndola de alternativas presidenciais: “O PSDB tem, hoje, uma posição confortável porque nós não estamos no divã”. Como assim? Não precisamos de tempo “para decidir se somos governo, se somos oposição, se vamos ser governo até o final.” Dá-se o oposto, ele acredita, com o “amigo” do PSB: “…Em determinado momento, o Eduardo vai ter que tomar uma decisão: se fica no governo ou se sai do governo. [...] Nós não temos essa dúvida, nós somos oposição.”

Logo na abertura da entrevista, Aécio declarou-se horrorizado com uma frase dita por Dilma na festa de aniversário do PT. “Fiquei abismado ao ver a presidente da República despindo-se daquilo que costumamos chamar em Minas de liturgia do cargo para dizer simplesmente o seguinte: ‘Nós não herdamos nada, nós construímos tudo’.”

Acha que o comentário não ofende apenas antecessores como FHC. “É um desrespeito ao Brasil e aos brasileiros, àqueles que nos legaram a democracia. É um desrespeito até aos seus companheiros de luta, que tombaram para que nós, hoje, tenhamos essa discussão franca e aberta, com absoluta liberdade.”

Lamentou que “a presidente Dilma” tenha sido “prematuramente” substituída pela “candidata Dilma”. Lembrou que no início do governo ela se diferenciara de Lula, retirara o veneno do discurso e até afagara FHC, reconhecendo-lhe o legado benfazejo. “De lá pra cá, ela sucumbiou, ela curvou-se ao discurso do presidente Lula”, lamuriou-se Aécio. “O PT tem esse vício de comportamento de considerar o adversário como um inimigo e desconsiderar quaisquer virtudes que ele possa ter.”